sábado, 11 de outubro de 2014

MAS TU SABIAS!
 
Olhei-te, pedindo ajuda para plantar uma árvore. Nada fizeste. Mas tu sabias!
Desmoralizado, escolhi outro passatempo: o aeromodelismo. Mais uma vez, te pedi auxílio e me ignoraste. Mas tu sabias!
Entrei em pânico, ao achar ...
que não tinha jeito para nada. Perguntei-te o que seria melhor para mim. Encolheste os ombros. Mas tu Sabias!
Ultimamente, vejo-te a comportares-te como se te sentisse culpado em relação a mim e procurasses reparar o abandono. Mas já não quero saber!

Quita Miguel

Desafio RS nº 18 – frases repetidas no texto

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


A FISGA


— Acertei — gritou Joaquim Claudio, triunfante, enquanto preparava de novo a fisga. — Como prometi, a partir deste momento, tudo o que eu abater é para ti.

– É melhor irmos embora. E se nos apanham?

– Achas mesmo que o velho se dá ao trabalho de vir até aqui? – perguntou o rapaz, fazendo pontaria a mais um alperce.

– JC!

– Que chata! O que foi agora? – Joaquim Claudio virou-se irritado e logo percebeu que ou agia rápido ou estavam feitos.

O homem, que todos os dias roncava à sombra da oliveira, surgia ao fundo da rua, levantando poeira com passos firmes e decididos.

Deram-se trinta segundos para recolher alguns frutos, antes de começar a correr, batendo com os pés no rabo. Numa questão de minutos, estavam num troço de estrada livre. Percorreram mais alguns metros e viraram à esquerda.

– Acho que ele nos reconheceu – declarou Larisa, quando conseguiu alcançar o irmão. – Não o ouviste chamar o teu nome?

Joaquim teria passado bem sem essa informação.

Foram seguindo pelo meio das árvores, não só em busca de sombra, mas também na tentativa de se camuflarem. Quando chegaram ao largo da igreja, esconderam-se atrás de um carro e ficaram observando a entrada da aldeia.

Felizmente, àquela hora, não se via ninguém na rua.

– Estou a morrer de calor – lamentou-se Larisa. – Porque é que não nos escondemos na igreja? Lá é fresquinho.

Entraram em silêncio e foram caminhando pela nave até junto do altar. Ficaram por ali, apreciando a fresquidão, que contrastava com os 38 graus que quase lhes torrara os miolos.

– Confessa e pede perdão. – A frase ressoou no interior do templo.

Viraram-se assustados, esperando ver o homem na igreja, mas não havia ninguém.

– Jesus, és tu que estás a falar comigo? – perguntou Larisa com ingenuidade, olhando a imagem que a fixava.

– És mesmo parva! Como se Jesus falasse – declarou Joaquim.

– Alguém falou. Tu também ouviste. Ora se não há aqui ninguém, quem pode ter sido?

Os irmãos olharam-se assustados, lembrando-se das histórias de almas penadas que se contavam na aldeia.

– Joaquim, estou à espera! – A voz fez-se ouvir de novo, num tom mais duro.

O miúdo tremeu. Imaginava-se já a ser agarrado por algum fantasma e arrastado até casa do pai, homem de poucas palavras e muitas ações.

Escondido atrás da porta da sacristia, o padre sorria e engrossando a voz, continuava a convidar os irmãos à confissão.

– Hoje à noite eu rezo, juro que rezo – murmurou Larisa, agarrando o braço do irmão.

Era evidente para o padre que aquela dupla havia feito alguma e agora estava com a consciência pesada. Pensou aparecer e acompanhá-los a casa, obrigando-os a revelar o que se esforçavam por ocultar, mas não teve tempo.

Leo irrompeu pela igreja, vermelho, não só de calor, mas sobretudo de raiva.

– Ladrões, seus ladrõezitos de meia tigela. Onde é que está a fruta? Onde?

Os miúdos, sem soltar palavra, mostraram os poucos alperces que tinham conseguido agarrar.

– Muito bem. Já que gostam assim tanto de fruta estão requisitados para ajudar na confeção das compotas. E não é só hoje, é até ao fim do mês. – Leo, sem aguardar réplica, pegou cada um por uma orelha e começou a percorrer a nave da igreja em direção à saída.

– Não se preocupem, crianças – disse o padre, enquanto caminhava na direção deles com a Bíblia na mão. – Deus é sempre justo.

Quita Miguel

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ACELERA
 
Foram poucas as vezes em que acabei por viajar com eles.
– Vai devagarinho, não há pressa – repetia, sem cessar, durante a...
s viagens, enquanto o meu neto, ignorando-me, insistia em pisar no acelerador.
– Não percebo porque te borras de medo. Que raio! Isto é uma autoestrada, queres que vá a setenta à hora? – respondia-me, com maus modos, a meio das viagens.
Não me falou assim, quando lhe paguei as últimas prestações do carro. Nesse momento, foi todo mesuras, avozinha para cá, avozinha para lá…
Desta vez, quando o telefone tocou, atendi só para lhe declarar que não ia para o Algarve.
 
Quita Miguel
 
Drabble - Desafio: Algarve

quarta-feira, 1 de outubro de 2014


PEQUENO-ALMOÇO FRUSTRADO


Olho Miss Universo sentada na minha cozinha.

Decido sozinho.

Não há pequeno-almoço sem sumo de laranja.

Para comer?

Ovos perfeitamente escalfados, tiras de bacon estaladiças.

E mais?

Torradas que exibam uma tonalidade completamente uniforme.

– Desculpa, Joel.

Desculpar-se, quer dizer que algo está errado.

Olho-a triste.

– É que, de manhã, só como fruta.

Roborizo, envergonhado.

Como fora possível esquecer a eterna dieta?

Saio apressado.

Aguardo na fila para fazer o pedido.

Regresso feliz.

E, frustrado, descubro que partiu.
 
Quita Miguel
 
Desafio: Frases alternadas com 7 e 2 palavras

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Novas Coletâneas

Já andam por aí.
O meu conto «Hospedaria Carmim» está incluído na coletânea «Aquela Viagem», enquanto participo na coletânea «Eu Tenho um Sonho...» com o conto «Sonho Esventrado».
Os livros estão disponíveis nos sites da Wook e da Bertrand.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014


PARA LÁ DA LÓGICA

 
Vejo-te entusiasmada com a camisola.

– É para o teu pai – dizes-me com um sorrisinho malandro, esquecida do presente.

Acompanho-te no sorriso para te sossegar, sem te recordar que o pai morreu no ano passado.

Deixo-te entregue ao tricot e vou-me embora.

– Margarida Maria! – Oiço chamar. Volto-me e aguardo que a diretora me alcance. – Precisamos falar.

Sento-me, disposta a ouvir. Relata-me as tuas fases de esquecimento, cada vez mais frequentes, e a necessidade de acompanhamento médico regular.

Nada mais lógico, eu sei, mas incomoda-me aquele jeito autoritário de conduzir cada conversa. Podia dizer-lhe que também eu sei o que é melhor para ti, mas calo-me, cansada de chorar por dentro, cada vez que não te recordas de quem sou.

Afasto-me, sem a encarar, evitando falar o que penso e dirigindo para ti um último olhar.

Terminaste mais uma carreia e aprecias o andamento da manga. Vejo-te uma chama de amor no olhar. Quem sou eu para a apagar?

Pelo caminho relembro os ditames da diretora. É necessário estimular-lhe a memória. Vejo nessa determinação uma dose de bom senso e imagino já modos de te cativar a atenção. Estabeleço mentalmente uma série de exercícios que poderemos fazer em conjunto. Penso em jogos, em leituras, em fotografias. Começo a organizar a rotina, que deverá ser tudo menos uma rotina, caso contrário não te cativará.

Dou uma última revisão ao esquema. Parece-me excelente.

Vou direito à estante e procuro o último álbum de fotografias. É já antigo. As mais recentes estão no computador. Escolho algumas, passo-as para o tablet. Hesito. Talvez fosse melhor imprimi-las. Arrisco. Quem sabe as novas tecnologias me ajudam a trazer-te ao presente.

 

Há um mês que iniciámos estas brincadeiras, como lhe chamas. Hoje fazemos palavras cruzadas. Sempre foste boa nisso. Agora, quando a palavra não te vem de imediato, sinto-te triste, insegura. Contudo, não é isso que se passa hoje. Tens apresentado uma memória excelente, digna dos teus melhores dias. Percebo que queres dizer-me qualquer coisa, mas falta-te coragem ou procuras a forma melhor de o fazer.

– Podemos parar um pouco? – perguntas-me.

Coloco a revista em cima da mesa e olho-te:

– Sentes-te cansada?

Com a cabeça dizes-me que não. Depois agarras-me nas mãos, acaricias-mas:

– São tão jovens. A pele suave… bem diferentes das minhas. Não quero parecer egoísta, nem cobarde, mas tenho um pedido para te fazer.

– O que quiseres mãezinha.

– Devemos respeitar o tempo, Margarida Maria, saber quando chegou a hora de deixá-lo impor-se vitorioso. Ultimamente tem sido mais fácil lembrar-me das coisas, mas isso não significa que a minha vida se tenha tornado mais fácil.

Olho-te com interrogação e quando me vou manifestar, interrompes-me:

– Espera, deixa-me acabar. Quando somos velhos e ficamos sozinhos, rodeados por outros como nós, o pior que temos é a realidade.

– Se eu pudesse – tento explicar-te o que já sabes.

– Eu sei, minha filha. Eu sei que te dói deixar-me aqui e que só o fazer porque não há alternativa. Juro-te que compreendo, mas isso não evita que me sinta só e triste. Sabes quando sou feliz?

Digo-te que não e tu prossegues com um sorriso:

– Quando não me lembro que o teu pai morreu e penso que vai entrar a qualquer momento. Quando acho que tu ainda és uma criança que precisa de mim. Quando acredito que no Natal, a família se vai reunir à mesa. Sou feliz quando o meu passado é o meu presente. Por isso, queria pedir-te que me permitisses esquecer.

Não é lógico o que me pedes, mas como posso eu sobrepor a lógica à felicidade. Afinal, isso é tudo o que quero. Que sejas feliz.

Guardo as palavras cruzadas e prometo voltar no dia seguinte, só para te ver.

Beijas-me de novo, agora com uma ternura ainda maior, talvez por receares amanhã não saberes quem sou, e recomendas-me:

– Não te esqueças! Cumpre tudo o que prometeste e se algum dia eu não souber quem tu és, não fiques triste. Não é por falta de amor, é por falta de presente.

Quita Miguel

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014


REFORMADO

Por mais de quarenta anos, repetira aquela rotina. Hoje, pegara nas chaves do carro e só quando se preparava para abrir a porta, se recordara que era apenas um reformado.

Lembrou, com saudade, os dias em que se levantava de um salto, porque sentia o barulho da chuva. Sempre adorara conduzir com o piso molhado e, nesses dias de dilúvio, o táxi nunca ficava vazio.

Olhou-se ao espelho e sentiu pena do nada em que se transformara.
 
Quita Miguel
Desafio em 77 palavras com final obrigatório: «... do nada em que se transformara.»