terça-feira, 21 de novembro de 2017

Serões de ontem e de hoje


Durante anos guardou segredos. Pasmada, releu o que a gaveta escondera no quarto materno. Azedume que a deixara amarga, idiotice sabia-o bem. Nem o sol punha termo àquela tremenda asfixia, que lhe apertava a garganta, lhe ocultava qualquer pequena réstia de esperança. Era como ficar com os velhos mistérios arquivados, destruindo histórias mágicas do rio, com que antigamente eram finalizados os serões. Hoje, as reuniões eram à volta da televisão e as conversas haviam-se transformado em monólogos.

Quita Miguel

Desafio nº 128 – 12 palavras com 4 no meio

domingo, 22 de outubro de 2017

Gato Capado

cara de Flávio Fernando ficou como se tivesse sido moldada em cera, ao ler a carta: a irmã, achando-se certa, ia capar o gato.
– Como é que ela corta o que não é dela? – reclamou, procurando uma corda para fazer não sabia de quê.
Da copa de uma árvore veio um miado. Afinal, o gato estava inteiro. Só a irmã para brincar com algo tão sério.
Flávio entrou em casa, encheu um copo, descontraindo o corpo.

Quita Miguel 

Escritiva nº 25 - palavras em sequência de mudança

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Estressado


estrada encheu-se com uma estridente travagem.
– Cada vez há mais desastrados que destroem a paz – disse o maestro estressado, enquanto o gato estrábico o olhava.
estreia da nova peça estava próxima. Seria uma apresentação restrita, porém o nervosismo fazia-o querer estripar quem fizesse barulho enquanto ensaiava.
Sentado ao piano repetiu, vezes sem conta, a entrada da peça, até que as estrelas cobriram o céu e um estrondo o fez parar. Era o gato, querendo jantar.

Quita Miguel

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

terça-feira, 10 de outubro de 2017

VIDA



Percorreu o declive até ao mar, naquele final de tarde, e sentou-se numa rocha, com as ondas a refrescar-lhe os pés. O silêncio doía-lhe, porém, sabia-lhe bem. Assim, camuflava a gritaria a que fora sujeita, algumas horas atrás e que ainda a magoava.

Julgara que encontrara o amor. Um amor completo, eterno, carinhoso, no entanto talvez se tenha equivocado. Saiu de casa e andou sem destino, enquanto pensava na razão da vida.

Algumas vezes já se perguntara: «Para quê viver?». Depois alguma coisa a distanciava deste pensamento e procurava ser feliz e, algumas vezes até o conseguia, mas desta vez nada lhe interrompia os pensamentos: a praia estava deserta.

Que vida estúpida havia levado durante os seus longos anos.

Gastara a infância, estudando inutilidades. Perdera a juventude num curso superior desinteressante, porque se deixara vencer pelo cansaço de ouvir: «Se queres ser alguma coisa na vida tens de estudar.»

Ela não queria ser ninguém na vida, só queria ser ela e ela odiava estudar.

Quando terminou o curso de direito, cujas cadeiras foram feitas à primeira, apenas porque não conseguiria ouvir tudo aquilo de novo, e após o estágio, o seu primeiro ato foi suspender a inscrição. Encontrara-se perante mais uma inutilidade, que fizera apenas por não ter coragem de ser ela mesma.

Depois vieram os empregos e daqueles que até gostava, passou para aquilo que odiava porque, mais uma vez, não seguiu a sua cabeça.


Agora, sentada diante daquela imensidão perguntava-se porque se anulara sempre. Seria por comodismo, falta de coragem ou medo? Ela apostava no medo e revivendo tudo percebia que ele vinha da infância, do receio da falta de dinheiro, que ainda hoje a mantinha num emprego que era como um vómito.

Então, para quê viver? Que coisa estúpida é esta por que temos de passar?

Naquele momento, um cão deitou-se ao seu lado. Procurou em volta, contudo a praia continuava deserta. Olhou-o e sentiu-lhe a tristeza no olhar, uma tristeza igual à dela. Acariciou-o e sentiu-lhe a gratidão quando lhe colocou o focinho nas pernas.

Naquele momento, decidiu que nunca mais se deixaria maltratar, ainda que apenas verbalmente. Da sua vida iria fazer o que entendesse, sem seguir o que o mundo pensava correto.

Pegou nas patas do cão e disse-lhe:

– Anda! Vamos permitir-nos viver.



FIM



Quita Miguel

domingo, 1 de outubro de 2017

Intermitente


– Eu sinto-o intermitente.
– Hã?
– Às vezes, concorda com o que lhe proponho, para, logo a seguir, se contradizer e negar ter concordado com o que quer que seja.
– Qual é a novidade? Ele sempre foi estranho.
– Não como agora. Pressinto que desta vez seja uma situação terrivelmente ameaçadora – respondeu Fátima Conceição, com uma convicção que a amiga estranhou, ao mesmo tempo, que olhando o pai na cadeira de baloiço, acrescentou: – Acho que ele pode estar com Alzheimer.

Quita Miguel

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

domingo, 24 de setembro de 2017

Mentira

Tão grande era o desejo de Gepeto de ser pai, que um dos seus bonecos de madeira ganhou vida.
Ora, se era gente, tinha de estudar, pensou o velho e mandou Pinóquio para a escola. Pelo caminho Pinóquio ganhou dinheiro, que depressa lhe foi roubado.
Ao vê-lo a chorar, uma fada quis ajudá-lo, mas ele mentiu e o seu nariz denunciou-o crescendo.
Como seria bom que crescesse o nariz a todos sempre que faltam com a verdade.

Quita Miguel

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Foge!

– Quer dizer que não… – Cristina deixou a frase a meio, seguindo com o olhar o pequeno tornado que perseguia a gata através do jardim. 
– Foge! – gritou ela aflita, no momento em que o tornado acertou em cheio na pequena felina.
Não se sabia quem estava mais assustada, se a gata, se Cristina.
O animal olhava-a com a mesma expressão terna, como fizera centenas de vezes, a última alguns minutos atrás. Correram para os braços uma da outra.

Quita Miguel

Desafio nº 125 – tornado no jardim