sexta-feira, 25 de agosto de 2017

JANTAR

– Sei lá! – respondeu Eugénia ao marido.
Ele encolheu os ombros e deixou-a com o mau feitio. Sabia o quanto a mulher estava tensa, já que seria a primeira vez que iria cozinhar para a sogra.
Decidiu-se por coelho. Colocou-o a estufar e foi regando-o com todo o cuidado, mas uma mão fugiu-lhe e o extrato de carne caiu por inteiro dentro do tacho....
Foi isso que a salvou, dando ao tempero um segredo que ela nunca revelou.

Quita Miguel



Aceito-me

– Acabaram-se as desculpas. Não é assim que se vencem as dificuldades. Hoje vais à aula de ginástica.
– Mas…
– Sim, tens psoríase. E então? Por acaso é contagioso?
– Não.
Erlandina encolheu os ombros e seguiu-a. Não havia como vencer Domingas em questões de argumentação.
Chegou o momento mais temido por Erlandina: a escolha das equipas de basquete. Dirigia-se já para o banco quando ouviu chamar o seu nome. Percebeu então que não tinha direito de não se aceitar.

Quita Miguel

Desafio nº 117 – uma história para ajudar a combater a psoríase
Temporal

– É impossível dormir com este atchim constante.
– Brrr! Para mim o pior é o frio.
Brrr booom! Os trovões acompanhados pelas batidas metálicas dos espanta espíritos clang!, blém!, blém! davam ao ambiente um ar tétric
o.
Wham! bam! A corrente de ar atirou com a porta, que eles nem sabiam que estava aberta.
– Ah! – Um tremor acompanhou o grito.
Ao susto seguiu-se a alegria. He! he! he! eh! eh! O calor da lareira chegava por fim a envolvê-los.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quarta-feira, 22 de março de 2017

Rendi-me

– Eu disse que isto era importante para ti.
Crack! Estatelei o copo no chão para não lho atirar à cabeça.
Knock! Knock! Ring! Ding!
Quem seria agora? Ainda, por cima, apressado.
O melhor era sair pelas traseiras.
Wap!
O meu irmão adivinhando-me o movimento, cortou-me o caminho com o chicote.
Aaai! Boomp!
Estatelado, não consegui evitar o soluço: Eeek! Ic!
Ufa!
Blam! Blam! Ressoou de novo a porta, enquanto o relógio indiferente contava cada minuto: tic-tac. Rendi-me.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quinta-feira, 16 de março de 2017

SIGO

No velório, oculto a solidão, por uma atrapalhação bárbara, impossível de partilhar.
Saio de lamparina na mão, achando-me mística, procurando entender a hesitação do dedo do assassino, que me poupara do crime que terminara com a vida do meu pai.
Espicaço-me para não me sentir uma grande falida, perante o primeiro dos meus quatro filhos, cuja zanga afasta: vê-me rival, uma nota ridícula, uma ursa camuflada de Jaguar.
Uma mosca varejeira poisa no xaile e eu sigo.

Quita Miguel

Desafio RS nº 47 – 23 palavras obrigatórias!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bandidos sem pejo

Zé Júlio cruzou a rua com o coração mais acelerado do que o passo. Falava consigo próprio à medida que avançava pelo passeio:

«Escancarado? O que sucedeu? Roubo! Só pode ser um roubo!»
O suor invadia-o e não era pelo calor do dia, era pela impossibilidade de se defender.
Da mercearia pouco ficara para além das paredes e do balcão.
– Bandidos sem pejo! Exploradores do labor diário. Se eu vos agarro, desfaço-vos. Podem crer que vos desfaço!

Quita Miguel

Desafio nº 116 – Zé Júlio sem T nem H

quinta-feira, 2 de março de 2017

Talvez Amanhã...

Oiça aqui a história em 77 palavras «Talvez Amanhã…» lida na Rádio Sim pela Margarida Fonseca Santos.

http://ow.ly/LQm9309oM1W