sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Talvez amanhã

– Não... não! – Tentou recompor-se e prosseguir o caminho, apesar de mal conseguir andar em linha reta.
Porque bebera tanto? Porque bebia sempre tanto? Não era necessário pensar muito para descobrir a resposta: não gostava de si!
Encostou-se ao vidro de uma montra e deixou que o seu corpo grande e gordo escorregasse até se sentar no chão. Não sabia como sair do túnel em que enfiara há tanto tempo atrás. Que fazer?
– Talvez amanhã eu não beba.

Quita Miguel

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Feitiço

As mãos permaneciam imobilizadas apesar do esforço com que tentava desamarrar-se. Aquela feitiçaria era poderosa demais, mas havia um antídoto. Se ao menos se lembrasse qual era. Agora, arrependia-se de não ter prestado atenção às aulas da bruxa Numa. E não fora uma, nem duas, nem três vezes que ela se distraíra…
– Concentração. Vamos lá. Denieacação!
Nada.
– Nidecaeção! Aiiiiiiiiiii.
Os nós tornaram-se mais apertados, quase cortando-lhe a circulação. O tempo urgia.
– Canedição! Eu sabia que era capaz!

Quita Miguel

Desafio RS nº 45 – «Eu sabia que era capaz!»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

    Regresso à Simplicidade

    Este foi o texto com que se encerrou o ano de 2016 das 77palavras na rádio Sim, pela voz da Margarida Fonseca Santos. Oiça aqui:

77x77 - Quita Miguel

Palavras que criam
A pergunta que, mais frequentemente, me fazem após lerem uma das minhas histórias é:

«Como é que te lembraste de uma coisa destas?»
Por vezes, consigo explicar que tudo partiu de uma cena presenciada ou vivida, porém devo confessar que, a maior parte das vezes, fico sem resposta. Quando coloco a palavra fim, não sei mais como tudo começou. É que uma palavra levou a outra ou uma ideia surgiu num sonho talvez segredada por um anjo.

Quita Miguel

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Esmorecida

Encostada à ombreira da porta, olhava o fogo-de-artifício, que assinalava o nascer de um novo ano, e perguntava-se até quando iria sobreviver ao desalento.
O cansaço de lutar por um sonho que não encontrava espaço para se materializar, deixava-a com aquele olhar triste que a acompanhava a cada dia.
Há um ano, ainda saíra para festejar, acreditando que chegara finalmente a hora de ser feliz. Agora, sabia o quanto estava errada. Só, percebia como o sofrimento esmorece.

Quita Miguel

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Aliança da Discórdia

«Foi até à janela que dava para as traseiras do hotel. Que vista deprimente, que silêncio medonho. Como sentia falta de casa. Bebeu mais um pouco, à medida que revia pela terceira vez a apresentação que deveria fazer na manhã seguinte. Analisou o tom de voz, assegurando-se de que transmitia seriedade, confiança e dinamismo: uma combinação vencedora.»
Começa assim o conto «A Aliança da Discórdia». Grátis aqui:
Se gostou, por favor, partilhe.

Quita Miguel

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Lambe-botas

O amor torna-nos burros, faz-nos dizer sim quando queremos gritar não.
Foi a vontade de lhe agradar que me fez aceitar cozinhar para o seu novo chefe, aquele mega ego que Nazário pretende bajular.
Como posso eu amar um lambe-botas? O ser humano é de facto estranho, porém o universo encarrega-se de corrigir os nossos desvios. Esqueci-me de comprar sal… Aposto que esta será a última vez que cozinho para o babão. Acho que me vou divertir.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 15 – falta um ingrediente e o jantar é dali a nada…