terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Resto de pó

Pouco lhe importa o que sinto. Sabe que me ressinto daquele riso sem tino com que acompanha o descascar de cada batata. Pressinto que o faz de propósito, à espera que me abata na tristeza que me deixa preso ao meu sentir. Agora tosse, à medida que ata a bata atrás das costas, olhando-me reto, talvez tentando adivinhar o que penso.  
Eu apenas penso que quereria ser rei, no entanto não passo de um resto de .

Quita Miguel

Desafio nº 101 - partindo das palavras BATATA e PRESSINTO

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não abro!

– Ó mãe! Chega lá aqui que a máquina não abre.
– Não consegues fazer nada sozinha. É sempre a mesma coisa – reclama Glória, afastando a filha e lançando-se na direção da porta da máquina de lavar roupa. – Só me faltava que esta avariasse. Mais uma despesa.
– Ouviste mãe? A máquina riu-se.
– Estás maluca?!
– Não está maluca não – responde uma voz metálica. – Estou cansada de ser usada sem consideração. Até nova ordem estou de greve e a roupa sequestrada!
 
Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 2 – greve na cozinha

terça-feira, 24 de novembro de 2015

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tentação

Salivando, Evandro olhou a caixa de furos. Se tivesse juízo parava.
Tarde demais. A maçaneta girou e o problema entrou. Estático deixou-se massacrar, sem poder rir. Enquanto o bispo usava do peso da palavra, Evandro permanecia hirto, como se fosse de pedra, os lábios torcidos, para disfarçar o conteúdo da mente.
Como fora palerma. Tinha a desculpa ali ao alcance da mão.
– Vim apenas buscar o livro – esclareceu, saindo com os chocolates escondidos no bolso da batina.

Quita Miguel

Desafio RS nº 31 – 14 palavras com ordem imposta

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tristeza

Era uma saudade imensa de quem partira, não para longe, mas para sempre.
Ao seu redor as pessoas passavam apressadas. Ela já não tinha pressa.
Mergulhava na noite escura com esperança de acordar com o sol a invadir-lhe o coração. Precisava do amor que não vinha, do carinho que não a abraçava, da palavra amiga que não ouvia. Buscava incessantemente uma alquimia que pusesse fim à solidão que a esmagava e foi por isso que se escreveu.

Quita Miguel

Desafio nº 100 – «e foi por isso que me escrevi»

quinta-feira, 22 de outubro de 2015


GARGALHADA FÁCIL

O meu pai, ao contrário de mim, tem, o que chamo, uma gargalhada fácil.
Durante anos, fomos frequentadores assíduos da revista. O riso fluía fácil e num dos quadros, o meu pai soltou a primeira gargalhada, depois outra… foi incapaz de parar. 
Os atores, atónitos, imobilizaram-se no palco, fixando-o com o olhar.
Ele, sentindo-se o alvo de todas as atenções, optou por uma solução extrema: enfiou o lenço na boca e a gargalhada transferiu-se para o tablado.

Quita Miguel

Desafio ESCRTV nº 1 – um momento de riso!

domingo, 11 de outubro de 2015


Vida simples

Respira fundo ao deixar para trás os altos prédios que circundam as lotas, onde o cheiro do peixe, acabado de desembarcar, coabita com a poluição do intenso tráfego. Segue devagar. Gosta de andar à solta, em latos espaços, entre almas tolas, que sofrem sem saber porquê. 

Observa a mulher que corta os talos das couves, que servirá com o que reste da pesca, enquanto o filho ensaia o salto em comprimento.
Como apreciaria uma vida assim: simples.

Quita Miguel

Desafio RS nº 30 – anagramas de A