terça-feira, 23 de junho de 2015

terça-feira, 16 de junho de 2015

Tempo

– Pode não acreditar, mas é verdade, a ruína instalou-se na família.
– Foi para dizer que foi tudo pelo ralo que me procurou?
A velha senhora, a um metro dele, dirigiu-lhe um olhar cansado.
As mãos envelhecidas continuaram remendando a peúga, tão gasta quanto ela.
Indiferente à justiça, que erguia a espada, cerrou os olhos húmidos.
Sonhara um envelhecer doce, contudo sabia ter construído um futuro amargo.
Então, para quê apelar ao relojoeiro que lhe prolongasse o tempo?

Quita Miguel

Desafio RS nº 26 – 7 palavras impostas em 7 frases de 11 letras

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Regras

Aquela era apenas mais uma regra a que se via sujeita. Eram tantas, que já lhes perdera a conta.
«Faz como te dizem, sem levantar ondas, sem serpenteares por entre as normas, e verás que chegas à meta sem grandes dificuldades», diziam-lhe, como se fosse fácil ignorar o seu sentir e seguir o que haviam programado para ela.
Queriam que se juntasse àquele grupo amorfo que nada questionava, mas Ariadna recusa-se a murchar no início da Primavera.

Quita Miguel


Desafio nº 91 – cena metafórica de gota de chuva que acaba numa poça

segunda-feira, 25 de maio de 2015

JOGO DE CINTURA

A disputa, para o primeiro lugar do concurso de canções da escola, estava acirrada.
Rute Maria passava os dias a ensaiar a canção que apresentaria no Sábado, seguindo a máxima com que fora criada: «Água mole em pedra dura, tando dá até que fura.»
Foto de Escrita de Quita Miguel.
Sandro Gonçalo, pelo contrário, investia nas relações públicas, desfilando pelo bar toda a sua simpatia. É que segundo ele: «Mais anda quem tem bom vento, do que quem muito rema.»
Adivinhem quem ganhou.

Quita Miguel
Desafio nº 90 - com provérbios contraditórios.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Desencontro
Com passos indecisos aproximou-se da janela, com dedos trémulos bateu no vidro. Foram muitos os anos e os caminhos que o afastaram de casa. Agora, voltava, receando fazê-lo tarde demais. 
Voltou a bater ao de leve na janela. E se aquela já não fosse a casa dos pais? Preferia não saber.
De cabeça baixa, contornou a esquina, no momento em que uma face envelhecida surgia no parapeito, procurando em volta o rosto que há anos ambicionava rever.  

Quita Miguel


Desafio RS nº 25 – dedos que batem no vidro (cena)

quinta-feira, 7 de maio de 2015



Agrafo encravado


Uma tosse seca despertou o elefante. Mal-humorado procurou o desaforado que lhe interrompia o sono. Num canto, o agrafador contorcia-se. Um agrafo ficara encravado, dificultando-lhe a respiração.
O elefante, solícito, bateu-lhe nas costas, preparou um chá de lírio, ouvira dizer que era bom para a garganta. Nada. O agrafador estava quase roxo.
De repente, o silêncio. O elefante, zeloso, ainda tentou a respiração tromba à boca, tarde demais, o pobre já partira para o mundo do ferro-velho.


Quita Miguel
Desafio nº 89 – história com tosse+lírio+elefante+agrafador