terça-feira, 12 de maio de 2015

Desencontro
Com passos indecisos aproximou-se da janela, com dedos trémulos bateu no vidro. Foram muitos os anos e os caminhos que o afastaram de casa. Agora, voltava, receando fazê-lo tarde demais. 
Voltou a bater ao de leve na janela. E se aquela já não fosse a casa dos pais? Preferia não saber.
De cabeça baixa, contornou a esquina, no momento em que uma face envelhecida surgia no parapeito, procurando em volta o rosto que há anos ambicionava rever.  

Quita Miguel


Desafio RS nº 25 – dedos que batem no vidro (cena)

quinta-feira, 7 de maio de 2015



Agrafo encravado


Uma tosse seca despertou o elefante. Mal-humorado procurou o desaforado que lhe interrompia o sono. Num canto, o agrafador contorcia-se. Um agrafo ficara encravado, dificultando-lhe a respiração.
O elefante, solícito, bateu-lhe nas costas, preparou um chá de lírio, ouvira dizer que era bom para a garganta. Nada. O agrafador estava quase roxo.
De repente, o silêncio. O elefante, zeloso, ainda tentou a respiração tromba à boca, tarde demais, o pobre já partira para o mundo do ferro-velho.


Quita Miguel
Desafio nº 89 – história com tosse+lírio+elefante+agrafador

terça-feira, 21 de abril de 2015

Novo Chefe
– Não há formas corretas de ganhar a vida para um homem que não se instruiu. Há formas práticas  – disse Onofre e seguiu. – Porquê? Podes questionar-me tu e espero que o faças.
Nélida não o fez, saindo apressadamente do escritório para poder desfrutar em paz do sabor e aroma do café.
– Para que conste, tomei nota de que me viraste as costas. – Onofre perfilava-se diante de Nélida, numa postura de glória. Ele seria em breve o novo chefe.

Quita Miguel
 
Desafio nº 88 – todas as palavras com mais de 6 letras têm de ter RST

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Rédeas saborosas
– O guarda-fios pode negar o que quiser, mas eu deixei as rédeas aqui e não esteve cá mais ninguém. Quem as poderia ter levado, senão ele? – reclamava Xisto, enquanto vasculhava o guarda-arnês.
Furioso, despiu o guarda-pó e dirigiu-se para a mansão em busca de uma saída.
– Verba para arreios não há, está esgotada. Desenvencilhe-se – afirmou o guarda-livros, olhando-o de soslaio.
Escondido atrás do guarda-vento, o rafeiro alentejano afiava os dentes nas correias, cobiçando já o delicioso guarda-chuva.

Quita Miguel
 
Desafio RS nº 24 – 6 palavras com GUARDA-

quarta-feira, 1 de abril de 2015


Dia e noite

Amo o dia e amo a noite, enquanto tu te perdes nessa tristeza que é já uma couraça. Olhas-me sem me compreenderes, e eu baixo o olhar incapaz de explicar que gosto da luz que me ilumina o caminho, mas também da escuridão que me faz repensar as escolhas feitas.

Acusas-me de viver numa mentira, mas ela é melhor do que a tua verdade, por isso, salto da cama, bem cedo, para apreciar o amanhecer de uma cidade fantasma, aquela onde ainda ninguém acordou e posso ouvir o dia despertar.

Queres saber o porquê do meu sorriso quando, à tarde, espreito pela janela, e respondo-te que é bom ver o entardecer da natureza, as aves que chilreando regressam às árvores, as flores que se curvam, o sol que adormece. Avanças um passo e pousas as mãos nos meus ombros, num gesto de posse, e então apercebes-te de que não te pertenço. Observamo-nos sem uma palavra, dando-nos conta de que eu não suporto a tua tristeza e tu não suportas a minha alegria. Sorris, um sorriso triste, e caminhas em direção à porta. Paras antes de sair, mas não te viras. Avanças até à entrada do jardim, mas não consegues dar o passo para te religares ao mundo. São demasiados os meses, encerrado sobre ti mesmo.

Esperas que a noite caia, te esconda o olhar infeliz, para regressares a casa e de novo mergulhares nesse modo de viver, que te desgasta, me desgasta, nos desgasta.

Na manhã seguinte, sem esperar que acordes, vou ver a cidade despertar, ansiando pelo dia em que compreendas o quanto é bom viver, seja de noite, seja de dia.

Quita Miguel

segunda-feira, 30 de março de 2015


CABRA!

 
Olhou as instruções uma última vez, antes de escalar o pilar da ponte e dar execução ao plano. Depois, ocultou-se no arvoredo, aguardando o momento de agir.

Um arrepio percorreu-lhe o corpo, num misto de frio e excitação, quando a viu iniciar a travessia. Ansiava pelo momento de carregar no detonador e mandar tudo pelos ares. Nunca mais ali passaria. Mas ela parara a meio, impedindo-o de executar o plano.

«É mesmo uma cabra!», pensou.

Não esperou…

Quita Miguel

Desafio nº 87 em 77 palavras

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ardina

Para abarcar a angústia na alma do Chico, só ouvindo a sua história. Ardina, por uns bons longos anos, distribuíra notícias boas ou más, com a ajuda da já gasta sacola. Quando abandonara o trabalho, não por opção, mas por cansaço, a sacola acompanhou-o, lavrando a biografia.
 
Agora, caído na calçada, maldiz o ladrão. Roubara não um comum pano, mas um boc ado da história da sua vida, do dia-a-dia andarilhando nas ruas, do amor por uma profissão.

Quita Miguel
 
Desafio nº 86 – Chico ardina sem E