terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

REGRESSO

Safara-se bem na vida. Conseguira ser um dos melhores na sua área. Agora, que a dificuldade de andar se acentuava, estava da hora de descansar. Chegara o momento, por que esperara toda uma vida. Reencontrar a outra parte de si, que deixara para trás.
Leu, com dificuldade, a morada eternizada num pedaço de papel que a emoção molhara, baralhando as letras.
Receoso bateu a porta. Quando se abriu, sorriu e disse:
– É uma honra conhecer-te meu filho.

Quita Miguel

Desafio em 77 palavras baseado na imagem.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

NA PRISÃO

O preso escondeu-se com aflição. Manteve-se silencioso, oculto, preparado e conformado a morrer sozinho.
Ontem, procurava em consciência ambientar-se...
, mal sabendo onde poder encontrar consolo. Agora, mais sofrido, olhava-se perdido e compreendia: a morte soava opressora.
Poderia enfrentar com altivez, mostrando-se superior, o policial.
Encolheu-se, cobarde. Agasalhou-se, mergulhando sob os panos estraçalhados. Com agonia, maldisse sua obscura pequenez e, com ardor, matou-se.
Sombrios, outros presos entenderam como amenizar maus-tratos. Sem objeção, procuraram, em conjunto, a morte salvadora.
 
Quita Miguel
 
Desafio com palavras começadas sucessivamente por: O P E C A M S

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


PROGRAMADOR DE VIDA
 

Em pano de fundo, um aparelho de rádio sintonizava uma estação local, onde ressoava Martinho da Vila.

Edison desviou os olhos do computador e fitou o filho através das grossas lentes dos seus óculos enormes. Parecia um rapazinho tão feliz. As feições finamente esculpidas e os grandes olhos escuros, que pareciam meio sonolentos, tornavam-no ainda mais parecido com a mãe.

O que se deveria ensinar às crianças? Seria que estaria a fazer o que é certo? Pensou um momento. Existiam tantas perguntas sem resposta. Por alguns instantes, não conseguiu arredar o olhar dele, depois empurrou os óculos para cima com um dedo e voltou a concentrar-se no ecrã. Sempre que não estava a ensinar, gostava de fazer programação.

Quando terminou a primeira fase do novo programa, sentiu as palmas das mãos transpiradas. Foi até à casa de banho para se refrescar e olhou-se ao espelho. Os fios prateados misturavam-se nos cabelos castanhos, bastante ralos. Estava a envelhecer.

– Yes! Mil, quinhentos e treze! – gritou o miúdo, ao mesmo tempo que fazia a cadeira de costas altas balançar para trás e para diante. Era o seu modo peculiar de festejar a passagem de mais um nível do jogo. Levantou-se e começou a andar para trás e para diante em frente da secretária, com as mãos nos bolsos. Edison não pôde deixar de sorrir.

– Quando é que podemos lá ir? – perguntou Filipe, olhando a fotografia da casa do avô, que ocupava lugar de destaque na parede da sala.

No primeiro ano, em que viera viver para a cidade, Edison voltava à aldeia todos os fins-se-semana, mas, com o passar do tempo, foi espaçando as visitas. Eram muitos os atrativos colocados à disposição dos novos rapazes, que decidiam morar no meio do betão e, agora, eram raras as vezes que voltava a terra onde nascera.

– Não sei – respondeu Edison, sentindo-se ingrato para com quem fizera tanto por ele.

Lembrou-se de uma frase que o pai repetia com frequência: «Hoje em dia já não há consideração».

É um ser sem consideração que Edison se sente, quando pensa que não convidou o pai para o lançamento do seu primeiro jogo.

– Se quiseres, posso acompanhar-te – oferecera-se o velhote, apesar de nunca ter sequer experimentado um jogo eletrónico.

– Não precisas de te preocupar, que eu desenrasco-me. – Doía-lhe aquela frase, cada vez que a recordava.

Muitos jogos, fizera já depois daquele, mas para nenhuma apresentação convidara o pai. Primeiro, não o fizera por insegurança, depois por vergonha da sua origem e, agora, pela vergonha de nunca ter tido coragem de lhe pedir que o acompanhasse.

Passou mais um mês até que se dispusesse a enfrentar a viagem de duas horas que o separava da terra onde deixara de ser criança. Desta vez, não avisara o pai da sua chegada. Queria fazer-lhe uma surpresa.

Filipe dormia no banco traseiro, quando estacionou em frente da pequena casa de dois quartos e sala. Bateu à porta e sem esperar que o pai a viesse abrir, rodou o trinco. Viu diante de si o olhar de espanto, logo seguido por uma indisfarçável alegria.

– Que bom ver-vos. Entrem, entrem.

– Ó avô, o que é isto? – Filipe pegava num jogo eletrónico depositado na mesa da sala, em frente ao sofá. – Estavas a jogar?

O velho ficou encabulado como uma criança apanhada em falso.

– Gostas de jogar? – perguntou, por fim, Edison.

– Não é bem isso. Gostaria de conhecer um pouco mais do teu mundo. Sei que estou velho para estas coisas. No meu tempo jogámos à bola ou andávamos de carrinho de esferas, que nós mesmos construíamos. Tenho alguma dificuldade em entender estes jogos, mas o miúdo aqui do lado está a dar-me uma ajuda. Foi ele que mo emprestou e já consegui passar o primeiro nível – disse, pleno de orgulho.

– Ó avô, se me tivesses pedido, eu tinha-te ensinado.

– Eu sei que sim meu querido, mas tu nunca estás.

Edison olhou nos olhos do pai como há muito tempo não fazia, depois abraçou-o e libertou a palavra há muito sufocada:

– Desculpa. Sei o quanto estou errado por te ter afastado da minha vida para lá desta aldeia, mas não pensei que ela tivesse tamanha importância para ti. Porém, já sei o que fazer para mudar a situação.

Seis meses mais tarde, o velho ocupava lugar na primeira fila do lançamento de um produto de nicho, que se viria a revelar o maior sucesso de Edison:

– Obrigada por terem vindo. Hoje quero apresentar-vos um novo conceito de produto: «o jogo que os avós podem jogar» e a minha fonte de inspiração está sentada aqui à minha frente: o meu pai.

O jogo reproduzia as brincadeiras do século passado, aquelas que haviam feito parte da vida do pai quando conseguia correr, pular, movimentar-se com a rapidez que o tempo lhe havia tirado. Agora, poderia reviver essa época de uma forma simples e adaptada à presente agilidade dos dedos.

Quita Miguel

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

BEBÉ A CAMINHO

Baixou a cabeça. Um belo filme fê-lo emocionar-se.
Bruno enxugou as lágrimas. Bamboleando saiu do cinema, balançado por dentro e bailando por fora. Os braços desenhavam arcos e bolas no ar, lançando beijos a quem passava.
...
Beliscou-se ao perceber que Bela lhe sorria. Era bom demais. Felizes dançaram bem agarrados, entre os baloiços do parque infantil. Brindaram pelo meio dos brinquedos, espalhados pelo chão.

Bobos, festejavam a novidade: bebé a caminho, futuro brilhante, noites sem dormir. Beleza!

Quita Miguel
Desafio em 77 palavras com uma palavra iniciada por B a cada 4 palavras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014


Palratório Chato


Não há quem não afirme que Julinho Pitorra está mais para político, que para cómico. É que as graças arrancam apenas bocejos. Palratório chato! Os risos, esses ficam longe. Palco que Julinho pise é monotonia na certa. Mas insiste e, agora que o ano termina, ali está ele com a cara e a coragem, mas sem graça.

Sobe no palco, afina o tom e inicia o obsoleto repertório. Ninguém escuta.

Começa o ano sozinho, numa sala cheia.
 
Quita Miguel
Desafio nº 81 em 77 palavras sem d nem v.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014


PRIVAÇÃO DE PRIVACIDADE

 
O vermelho domina a paisagem. São as pétalas suaves e aveludadas das papoilas que cobrem a planície e ondulam com suavidade ao sabor da brisa.

Mais ao longe, uma árvore que o vento e o tempo despiram, impõe-se autoritária sobre o prado, onde as ovelhas saboreiam a erva verde, que a natureza com generosidade lhes oferece.

Junto ao mar, secam as redes, que mãos secas e endurecidas ainda há pouco puxavam das águas.

Um mar que agora se revolta sob a tempestade que se adivinha. A escuridão começa lentamente a fechar-se sobre a montanha, alongando a sombra da ermida abandonada, que protege a vinha dourada, que perfuma o campo.

Em breve será o cheiro a terra molhada. Um perfume que, por vezes, gostaria que pudesse ser feito de encomenda.

Uma dupla certeza me envolve: a de que pertenço a este lugar e a de que só aqui poderei ser feliz. Quanto a isso não pode haver engano.

Mas já a vida me chama para outras realidades, e parto com a lágrima e a saudade.

Dou um autógrafo antes de entrar no carro.

«Por quem me toma? Eu sou apenas um cidadão comum», tenho vontade de dizer, mas falta-me coragem, apesar de me incomodar, cada vez mais, ver o meu dia-a-dia interrompido por pessoas que não conheço, mas que me conhecem. Isso parece dar-lhes o direito de me interpelarem diversas vezes.

Não são poucas as ocasiões em que me apetece, apenas, voltar as costas ao circo em que a sua vida se tornou e mergulhar no anonimato. Como seria bom. Com um sentimento de melancolia vejo a paisagem ficar para trás, enquanto as pequenas estradas dão lugar às grandes vias, e o silêncio é sufocado pelo rumor da cidade. Conduzo sem pressas, numa tentativa ingénua de retardar a chegada. A alegria que senti no início da carreira, cada vez que me apelidavam de artista, torna-se agora um peso. Música, dança continuam a ser o seu mundo, mas o sorriso não mora mais na minha face.

Por fim, chego ao teatro, onde um homem, grande e de peito entufado, faz a segurança da entrada dos artistas. Subo ao palco e tudo se transforma. Aqui sou outra pessoa. Ao som da música que envolve a sala, o meu corpo dominava o tablado, esquecido de quem sou, entregando-me a cada nota.

No final da noite, regressa a realidade, e só reganho a paz quando, entrando em casa, dou as costas ao mundo que esqueço lá fora. Busco o silêncio numa tentativa de apagar a fama, que deixou de me acariciar, para me agredir.  

Deito-me na cama, puxou o lençol e sonho com a água a despencar da cachoeira, as aves exibindo os voos, a natureza prosseguindo no seu ritmo lento de ser. Lamento que a este hibernar se siga sempre um acordar. São milhares os que desejam estar no meu lugar, não imaginando a tristeza que me envolve a cada abrir da porta que me liga ao mundo.

Será que a felicidade suprema e permanente existe? Estou tentado a dizer que não, apesar de continuar à procura do caminho que possa conduzir-me a esse imaginado paraíso. Se algum dia desvendarei o mistério, não sei, é que ser-me-á impossível viver sem a música e, no entanto, é-me doloroso viver com ela.

Quita Miguel

sábado, 20 de dezembro de 2014


Salva in extremis

Não se falava noutra coisa senão nos enfeites de Natal. Organizado pelos mais velhos, coube aos mais pequenos decorar a árvore.

– Aiiiiiiiiii! – gritou Ricardo Nuno, ao mesmo tempo que dava um pulo para trás quase derrubando a avó, que tentava pôr ordem no recinto.

– Uiiiiiiiiiii! – gritou a aranha, vendo-se ameaçada pela vassoura e adivinhando passar a consoada ao relento.

Foi salva in extremis pelo avô, que ordenou:
– Que ninguém se atreva a tocar-lhe. Aranha é dinheiro certo!


Quita Miguel

Desafio nº 80 – o Natal da aranha