terça-feira, 13 de janeiro de 2015

BEBÉ A CAMINHO

Baixou a cabeça. Um belo filme fê-lo emocionar-se.
Bruno enxugou as lágrimas. Bamboleando saiu do cinema, balançado por dentro e bailando por fora. Os braços desenhavam arcos e bolas no ar, lançando beijos a quem passava.
...
Beliscou-se ao perceber que Bela lhe sorria. Era bom demais. Felizes dançaram bem agarrados, entre os baloiços do parque infantil. Brindaram pelo meio dos brinquedos, espalhados pelo chão.

Bobos, festejavam a novidade: bebé a caminho, futuro brilhante, noites sem dormir. Beleza!

Quita Miguel
Desafio em 77 palavras com uma palavra iniciada por B a cada 4 palavras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014


Palratório Chato


Não há quem não afirme que Julinho Pitorra está mais para político, que para cómico. É que as graças arrancam apenas bocejos. Palratório chato! Os risos, esses ficam longe. Palco que Julinho pise é monotonia na certa. Mas insiste e, agora que o ano termina, ali está ele com a cara e a coragem, mas sem graça.

Sobe no palco, afina o tom e inicia o obsoleto repertório. Ninguém escuta.

Começa o ano sozinho, numa sala cheia.
 
Quita Miguel
Desafio nº 81 em 77 palavras sem d nem v.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014


PRIVAÇÃO DE PRIVACIDADE

 
O vermelho domina a paisagem. São as pétalas suaves e aveludadas das papoilas que cobrem a planície e ondulam com suavidade ao sabor da brisa.

Mais ao longe, uma árvore que o vento e o tempo despiram, impõe-se autoritária sobre o prado, onde as ovelhas saboreiam a erva verde, que a natureza com generosidade lhes oferece.

Junto ao mar, secam as redes, que mãos secas e endurecidas ainda há pouco puxavam das águas.

Um mar que agora se revolta sob a tempestade que se adivinha. A escuridão começa lentamente a fechar-se sobre a montanha, alongando a sombra da ermida abandonada, que protege a vinha dourada, que perfuma o campo.

Em breve será o cheiro a terra molhada. Um perfume que, por vezes, gostaria que pudesse ser feito de encomenda.

Uma dupla certeza me envolve: a de que pertenço a este lugar e a de que só aqui poderei ser feliz. Quanto a isso não pode haver engano.

Mas já a vida me chama para outras realidades, e parto com a lágrima e a saudade.

Dou um autógrafo antes de entrar no carro.

«Por quem me toma? Eu sou apenas um cidadão comum», tenho vontade de dizer, mas falta-me coragem, apesar de me incomodar, cada vez mais, ver o meu dia-a-dia interrompido por pessoas que não conheço, mas que me conhecem. Isso parece dar-lhes o direito de me interpelarem diversas vezes.

Não são poucas as ocasiões em que me apetece, apenas, voltar as costas ao circo em que a sua vida se tornou e mergulhar no anonimato. Como seria bom. Com um sentimento de melancolia vejo a paisagem ficar para trás, enquanto as pequenas estradas dão lugar às grandes vias, e o silêncio é sufocado pelo rumor da cidade. Conduzo sem pressas, numa tentativa ingénua de retardar a chegada. A alegria que senti no início da carreira, cada vez que me apelidavam de artista, torna-se agora um peso. Música, dança continuam a ser o seu mundo, mas o sorriso não mora mais na minha face.

Por fim, chego ao teatro, onde um homem, grande e de peito entufado, faz a segurança da entrada dos artistas. Subo ao palco e tudo se transforma. Aqui sou outra pessoa. Ao som da música que envolve a sala, o meu corpo dominava o tablado, esquecido de quem sou, entregando-me a cada nota.

No final da noite, regressa a realidade, e só reganho a paz quando, entrando em casa, dou as costas ao mundo que esqueço lá fora. Busco o silêncio numa tentativa de apagar a fama, que deixou de me acariciar, para me agredir.  

Deito-me na cama, puxou o lençol e sonho com a água a despencar da cachoeira, as aves exibindo os voos, a natureza prosseguindo no seu ritmo lento de ser. Lamento que a este hibernar se siga sempre um acordar. São milhares os que desejam estar no meu lugar, não imaginando a tristeza que me envolve a cada abrir da porta que me liga ao mundo.

Será que a felicidade suprema e permanente existe? Estou tentado a dizer que não, apesar de continuar à procura do caminho que possa conduzir-me a esse imaginado paraíso. Se algum dia desvendarei o mistério, não sei, é que ser-me-á impossível viver sem a música e, no entanto, é-me doloroso viver com ela.

Quita Miguel

sábado, 20 de dezembro de 2014


Salva in extremis

Não se falava noutra coisa senão nos enfeites de Natal. Organizado pelos mais velhos, coube aos mais pequenos decorar a árvore.

– Aiiiiiiiiii! – gritou Ricardo Nuno, ao mesmo tempo que dava um pulo para trás quase derrubando a avó, que tentava pôr ordem no recinto.

– Uiiiiiiiiiii! – gritou a aranha, vendo-se ameaçada pela vassoura e adivinhando passar a consoada ao relento.

Foi salva in extremis pelo avô, que ordenou:
– Que ninguém se atreva a tocar-lhe. Aranha é dinheiro certo!


Quita Miguel

Desafio nº 80 – o Natal da aranha

terça-feira, 16 de dezembro de 2014


IMPACIÊNCIA

"Todas as falhas humanas provêm da impaciência", já dizia o amigo Franz Kafka.

Queremos tudo para ontem, recusamo-nos a saborear a espera que nos prepara para o amanhã, e quando nos dizem que somos os argumentistas do nosso filme, continuamos a escrever de modo repetitivo, alimentando a personagem que não queremos ser.

Em vez de apostarmos na criatividade e arriscarmos num novo percurso, insistimos nos mesmos erros, aqueles bem banais que não se perdoam nem no primeiro ciclo de vida.

Continuamos a remoer no que não queremos, no que nos magoa, no que nos incomoda, dando-lhe desta forma energia para cresça e se multiplique. E, cada vez mais, o que temos é o que não queremos.

Pretendemos que o outro seja como nós, pense como nós, sinta como nós, aja como nós, esquecendo que todos somos um, mas que as peças que constroem o puzzle da unidade têm arestas diversas, e é essa individualidade que enriquece o ser divino que todos somos.

Quando a tristeza é o que nos alimenta, nada como uma boa gargalhada, mesmo sem vontade, um “amo-te muito” ao espelho e a consciência de que tudo é passageiro, tudo mesmo, não só os passageiros do autocarro.

Ao inverno frio, cinzento, chuvoso seguem-se os dias de céu azul, do sol a acarinhar-nos a pele, da natureza efusiva por mais um ciclo que se inicia, que terá fim, é certo, mas que é magnífico enquanto dura.

E não vale a pena levarmo-nos tão a sério, ninguém leva.

É bom sentirmo-nos bem, só porque sim, amar, só porque sim, sorrir, só porque sim. As coisas na vida não necessitam ter sempre um propósito, ou melhor, tudo na vida deveria ter um único propósito: a felicidade.

Então sejamos felizes com o que temos e aceitemos o maravilhoso, que apenas espera uma abertura para se mostrar.

Por mim, começo cada dia agradecendo e pedindo para que os meus anjos estejam comigo para me ajudar, guiar e proteger. E sei que eles estão, contribuindo para que cada dia seja pleno de iluminação.
Quita Miguel

sábado, 13 de dezembro de 2014

NESTE NATAL OFEREÇA COMPANHIA
 
 
 
 
FLORISTA



– Que jeitoso – disse ela de um modo carinhoso, olhando o arranjo monstruoso que ele transformara em algo tão harmonioso.

Ele sabia ser maravilhoso, e isso deixava-a deleitada.

Ela sabia-o engenhoso, sempre pronto a encontrar uma primorosa solução. Com as flores, revela-se de facto talentoso, deixando transparecer a característica afetuosa que nem sempre gostava de mostrar.

Amorosa aproximou-se e dengosa beijou-o de um modo gostoso.

Prazeroso, ele sorriu, retribuiu o beijo delicioso e raptou-a. As flores podiam esperar.

Quita Miguel

Desafio RS nº 20 – 14 palavras acabadas em -oso, -osa