NESTE NATAL OFEREÇA COMPANHIA
sábado, 13 de dezembro de 2014
FLORISTA
Quita Miguel
Desafio RS nº 20 – 14 palavras acabadas em -oso, -osa
– Que jeitoso – disse ela
de um modo carinhoso, olhando
o arranjo monstruoso que ele
transformara em algo tão harmonioso.
Ele sabia ser maravilhoso,
e isso deixava-a deleitada.
Ela sabia-o engenhoso,
sempre pronto a encontrar uma primorosa
solução. Com as flores, revela-se de facto talentoso, deixando transparecer a característica afetuosa que nem sempre gostava de mostrar.
Amorosa aproximou-se e
dengosa beijou-o de um modo gostoso.
Prazeroso, ele sorriu,
retribuiu o beijo delicioso e
raptou-a. As flores podiam esperar.
Quita Miguel
Desafio RS nº 20 – 14 palavras acabadas em -oso, -osa
sábado, 6 de dezembro de 2014
INDEPENDÊNCIA
Avaliando a vida que levava, admitiu que a primeira
tentativa de independência se revelara dolorosa. Procurava reagir, mas não se
conseguia perdoar pela intempestiva saída de casa.
Chegou-se ao fogão, mais para se aquecer do que para cozinhar
qualquer coisa. Comer era uma obrigação que cumpria para sobreviver, isenta de
qualquer prazer. À noite, na cama, procurava a presença que não estava e isso
doía-lhe fundo.
Pensou nas prestações que ainda lhe faltava pagar pela
televisão que quase nunca acendia, e isso afastou-lhe o sono. Que pena, não ter
um botão para hibernar.
«Para com os lamentos, fecha os olhos e deixa-te ir», repetia,
na tentativa de enganar a insónia.
Deveria existir um elixir do amor, que se pudesse tomar
em doses pequenas, mas regulares. E mais uma coisa: um elixir contra a burrice
e a intempestividade. À falta disso, levantou-se, enrolou um cigarro e foi
sentar-se na varanda, envolto num cobertor. Mentalmente enumerou o que lhe fazia
mais falta, o que perdera e o que nunca tivera.
Compreendeu que entrara naquela fase da vida em que não
se pertence a lado nenhum, vive-se numa terra de ninguém, num meio mundo, numa
meia verdade e num absoluto desgosto.
A comunicação reduz-se a um «bom dia», quando se entra no
emprego, e a uma «boa tarde», quando se sai. E não está longe o dia em que, com
indiferença se chega e parte, e isso transmite-nos o conhecimento do que é a
solidão. Contudo, continua-se a mentir para o mundo, dizendo que se está:
«Muito bem, obrigado», escondendo as lágrimas que escorrerem pelo rosto com
facilidade. Os lenços acumulam-se espalhados pela casa, mas camuflamos-lhes a
utilização, dizendo, que estamos a ficar um pouco constipados.
Terminou o segundo cigarro e com ira, reganhou o lugar na
cama. Impotente, permitiu que a raiva crescesse dentro dele, procurando um
culpado que não havia. Sabia porquê: preferia dar força à revolta, a sentir-se
pusilânime, arrastando-se ao longo dos dias.
– Pois é… mais um dia – resmungou quando o despertador
tocou, cedo demais para quem prolongara a noite.
A mão acariciou a almofada que ninguém usava, mas que ali
permanecia, para lhe evidenciar o espaço vazio, enxotando a harmonia que não se
permitia sentir. Fechou os olhos e sem se aperceber mergulhou num sono profundo,
onde ouvia a voz dela cantando. Procurou-a sem cessar, seguindo uma voz que não
tinha corpo. De repente, algo lhe agarrou as pernas. Esforçava-se por avançar,
mas as trepadeiras amarinhavam, rodeavam-lhe já os joelhos, remetendo-o à
imobilidade.
Ao longe viu-a surgir, envolta numa névoa, que se ia
desvanecendo à medida que ela caminhava na sua direção. Pessoas começavam a
aproximar-se, cumprimentando-a, felicitando-a, envolvendo-a, camuflando-a.
Um som estridente envolveu o ar e ele abriu os olhos
sobressaltado, procurando-a e, mais uma vez, encontrando o lugar que ainda lhe
pertencia, mas que ela não ocupava mais.
Atendeu o telemóvel.
– Mas onde raio é que andas? O buffet tem de ser serviço dentro de meia hora. Achas que dou conta do
recado sozinho?
Saltou da cama, vestiu-se. Não havia tempo para tomar
banho ou fazer a barba. Correu para o carro. Só lhe faltava perder também o
emprego. Nesse caso, a desgraça seria completa.
– Até que enfim. Já fiz quase tudo. Isto de uns só
receberem e os outros trabalharem….
– O que é que falta fazer? – perguntou, cortando a
lamentação do colega.
Atirou-se aos ovos, mexendo-os com um pouco de leite e
ervas do jeito de que ela gostava. Adorava cozinhar para ela e, um dia, sem
perceber porquê, deixara de o fazer. Tudo lhe começara a parecer pesado,
repetitivo, sem graça. Ela estranhara e ameaçara:
– Se um dia eu souber que andas metido com outra mulher!...
Ele cansou-se. Ansiou por liberdade, por solidão, por
silêncio, por ausência de horários e de compromissos e saiu com um adeus.
Colocou os ovos na travessa e dirigiu-se para a sala de
receção que começava a encher-se. Não fazia ideia do que se tratava. Nunca o
preocupava a quem servia, apenas o que servia. Olhou em volta, certificando-se
de que nada faltava. Então, uma voz sobressaiu do meio das restantes:
– Eu vou optar por uns ovos. Parecem do jeito de que eu
gosto.
Virou-se e viu-a, sorrindo para alguém que não era ele e,
nesse momento, percebeu que a perdera definitivamente.
Quita Miguel
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
NÃO, TALVEZ OU SEMPRE?
O grande negador reinava na terra do não, um lugar onde nada era permitido.
Os pequenos sonhadores, cansados da constante negação a tudo o que queriam fazer, atravessaram a fronteira, numa noite em que lua não brilhava, e entraram no país do talvez, uma nação enorme governada pela indecisão.
Também ali se sentiram perdidos e fugiram para um minúsculo país entalado entre as montanhas. Aí descobriram sorriso, alegria e harmonia. Foram quase felizes, num sempre muito pequeno.
Quita Miguel
Desafio nº 79 – quase felizes, num sempre muito pequeno.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
SONHO DE VIDA
Nadine
respirou fundo, sentindo-se plena. Nunca gostara de comédias. Os filmes que a
faziam chorar, esses sim, eram filmes de verdade. Vivia cada minuto como se
fosse um personagem, não um qualquer personagem, mas aquele que sofre, o que
ninguém respeita e que todos ridicularizam ou ignoram. Sentia-se bem com esse
sofrimento.
Deixou
o cinema e caminhou pela avenida sem destino. Não via sequer em que direção ia,
seguia apenas, deixando que um pé se colocasse na frente do outro. Quando deu
por si estava na beira do rio. Sentou-se e fantasiou um encontro, como os que
só acontecem nos filmes e, tal como esperara, ninguém apareceu.
No
caminho para casa, comprou uma revista, daquelas que mostram o mundo feliz das
pessoas que são alguém, que todos reconhecem e admiram. Gostava de as folhear, idealizando-se
em cenários tropicais ou estâncias de neve, lugares que a vida ameaçava nunca
lhe dar a conhecer. Mesmo assim, sonhava e isso deixava feliz.
Quando
colocou a chave à porta, a magia desfez-se com um: «Estava a ver que nunca mais
chegavas. Vê lá se vais fazer o jantar, que o teu pai não tarda aí.»
Bem-vinda
à realidade. Foi para a cozinha e, com rapidez, passou de princesa a gata
borralheira. Quando, após o jantar, acabou de arrumar tudo, fechou-se no
quarto. Desejava estar sozinha de modo que ninguém pudesse interromper o seu
divagar. No entanto, o sossego durou pouco, já que a irmã, nessa noite,
resolveu não sair. Espaçosa como era, apossou-se da revista e só a largou depois
de a ter lido de uma ponta à outra.
– Já
viste este concurso? Oferecem uma viagem a quem escrever uma história sobre a
sua vida. Tu, que tens a mania que sabes escrever, até podias concorrer. Não
que a tua vida tenha alguma coisa para contar, mas podes sempre mentir – disse
a irmã, atirando-lhe com a revista.
A
verdade doía, porém via-se forçada a concordar que a sua existência era um dia-a-dia
sem história e, ainda que mentisse, com certeza alguém escreveria algo melhor.
Para quê dar-se ao trabalho? Fechou a revista e deitou-se. Nessa noite, não foi
capaz de sonhar. Era como se a imaginação estivesse bloqueada na realidade e a
mente nada mais visse do que um apartamento nos subúrbios; a mãe, dobrada no
sofá da sala, a terminar mais um vestido para uma das poucas freguesas que ainda
restavam; o pai a ler a Bola ou esparramado no sofá em frente à televisão a ver
futebol; a irmã achando-se superior a todos porque trabalhava numa boutique.
Nadine,
terminado o liceu, apenas conseguira emprego como caixa num supermercado. Para
ajudar a transcorrer cada dia, socorria-se da imaginação. Ao receber os
pagamentos, deixava o pensamento voar até um dia no futuro, em que um charmoso
e rico rapaz se tomaria de encantos por ela e a levaria dali, para viver numa
bela casa virada para o mar, plena de criados para a servirem. Pena que esse
rapaz tardasse em aparecer. A maior parte das pessoas que atendia, nem a olhavam.
Seguiam no pequeno ecrã o registo de cada produto, colocavam o cartão de
crédito na ranhura do terminal e aceitavam o recibo, sem nunca lhe fixar o
olhar. Se lhes perguntasse de que cor era o seu cabelo, se era curto ou
comprido, ou mesmo se usava óculos, ninguém saberia dizer.
– Mamã,
mamã. É a Ofélia da novela.
– Não,
amor. É só uma empregada de supermercado.
Aquele
«É só» mexeu com ela. Como «É só»? Ela não «era só», ela «era uma». Nesse dia,
saiu do supermercado decidida a fazer ver àquela gente que não se limitava a
«ser só».
Toda
a noite, apesar das insistentes reclamações da irmã, não apagou a luz. Ficou a escrever
até os primeiros raios de sol lhe baterem na cara. Afinal, o prazo do concurso estava
prestes a esgotar-se e Nadine estava decidida a vencê-lo. Sempre queria ver se,
depois disso, mais alguém iria dizer que ela «era só» uma empregada de
supermercado.
Tão
forte determinação espantou-a a si mesma. Nunca antes lutara por nada, sempre
dera tudo por perdido logo à partida e agora, estava ali, agarrada a uma luta
que era bem mais do que isso. Era uma vingança por toda a invisibilidade que
sempre sentira.
No
dia 20 de Agosto, levantou-se bem cedo e correu para a banca dos jornais. A
revista já chegara, mas ainda estava no pacote à espera que o Senhor Paulo
tivesse tempo para cortar o atilho, conferir o conteúdo e colocá-la à venda.
–
Vá lá, Senhor Paulo. Abra primeiro aquele pacote. Por favor!
–
Ó rapariga, mas o que é que te deu para todo esse desassossego? Vá, vamos lá
ver o que é que isto tem.
O
coração de Nadine batia acelerado, quando folheou a revista. Paralisou. Permaneceu
estática, sem conseguir pensar e sem saber o que fazer.
– Então
rapariga. Tanta pressa e agora não dizes nada.
–
Senhor Paulo, Senhor Paulo.
– Sim
rapariga, desembucha, quem é que se divorciou, desta vez?
– Senhor
Paulo, eu ganhei! – gritou, agarrando-se ao pescoço do jornaleiro. – Eu ganhei!
Eu ganhei! Eu ganhei!
O
homem sorriu, sem saber do que ela estava a falar. Contudo, em breve, todos tomariam
conhecimento.
A
viagem que recebeu como prémio foi melhor do que qualquer dos seus sonhos,
porque teve um gosto de realidade. O príncipe encantado não apareceu até hoje, mas
Nadine foi capa da revista no mês seguinte, e isso ninguém lhe poderá tirar.
Quita Miguel
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Baile
Exibindo alguma joia ou adorno de baixo valor, a vila bamboleia, namorando ao murmúrio da banda. É que o verdadeiro amor é vivido, ouvindo o que de melhor é idealizado.
O bombo invade o ar, ao lado do adufe e da viola.
A braguinha embala um duo, que baila em harmonia, deixando de fora qualquer amargura que lhe afogue a alma.
É o amor!
Quita Miguel
Desafio nº 78 – escrever sem C P S T
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