domingo, 20 de julho de 2014


CAMINHO DE SANTIAGO
Deambulou pelas ruas desertas, percorreu a vereda e continuou em frente, obedecendo às instruções que recebera.
Sozinho, estava experimentando uma realidade diferente, que muitos teriam dificuldade em entender.
Cansado de conversar só consigo, naquele isolamento forçado que se havia imposto, abrandou o passo.
Por fim, avistou a vila e, com forças reconstruídas, seguiu, por ali fora, esquecido das saudades, do cansaço e das bolhas que lhe dilaceravam os pés. Completava mais um dia no Caminho de Santiago.

 
Quita Miguel
 
Desafio nº 70 – frase de palavras obrigatórias 

terça-feira, 15 de julho de 2014


CAMINHO INTERROMPIDO


– Mas que olhar triste é esse?

– Não vem ninguém. Vais ver que não vem ninguém – lamentou Vitor, olhando desconsolado a chuva que não parava de cair. Era uma chuva forte, ininterrupta, gelada, que ameaçava arruinar-lhe o dia de anos.

A avó, com calma, pegou-lhe na mão e afastou-o da janela.

– Não é por olhares com fixação a chuva, que ela vai parar de cair. Senta-te aqui. Vou contar-te uma história.

– Uma história? – O rapaz animou-se.

– Sim, uma história que se passou há muitos, muitos anos. Eu era um pouco mais velha do que tu. Foi no dia em que fiz 15 anos.

A avó já lhe captara a atenção, antes de ele se sentar no chão de pernas cruzadas, bem na sua frente, para não perder nem um pedacinho. Gostava quando ela contava histórias antigas.

– Naquele dia, coloquei o vestido mais bonito para celebrar a penda que os meus pais me deram.

– Como é que se celebra uma prenda? – perguntou Vitor, um pouco perdido.

– Quando uma prenda não é uma coisa, mas a realização do que mais se deseja.

– E o que é que tu querias?

– Conhecer a cidade. Naquele tempo as distâncias eram maiores, e era raro sair-se da aldeia. Por vários meses, os meus pais puseram de parte cada centavo que conseguiam poupar e, naquele dia, deram-me o bilhete de comboio. Eu teria de ir sozinha, porque não havia dinheiro para mais.

– E foste sozinha para a cidade? – A expressão de Vitor era um misto de admiração e incerteza.

– Fui. A minha madrinha estaria à espera na estação. Ela casara com um engenheiro, e viviam lá há três anos. O meu pai levou-me na carroça até ao comboio. As pernas tremiam-me de ansiedade, mas também de algum receio quando entrei na carruagem. Nunca antes saíra da aldeia e tinha uma viagem de três horas pela frente. O assento ao meu lado estava vazio. Coloquei aí o cesto com os legumes, as frutas acabadas de colher, o presunto, enfim, algumas oferendas para a madrinha.

– Ó avó, mas se eras tu que fazias anos…

– Pois é, mas naquele tempo era normal levar-se alguns produtos do campo para as pessoas que se visitava na cidade. Era uma maneira de agradecer a hospitalidade com que eram recebidos.

– Então e depois? – quis saber o neto.

– Depois o comboio partiu. Eu coloquei a cabeça fora da janela, até deixar de avistar o meu pai ao longe, sempre de braço no ar. Era uma sensação estranha, aquela de o deixar para trás. O comboio foi avançando, parando em algumas estações até enfrentar a serra numa subida lenta. Por vezes, parecia mesmo que queria parar. Atravessámos vales floridos. Nem dava pelo passar do tempo, tão absorvida estava pela paisagem. Até que, de repente, o comboio parou, ali no meio do nada. Não se via uma estrada, uma casa, nada.

– Então porque é que o comboio parou?

– Não sabíamos. Primeiro ficámos todos calados, esperando que recomeçasse a andar. Mas nada. Então, algumas pessoas levantaram-se, começaram a ficar inquietas, falando todas ao mesmo tempo. Comecei a assustar-me. Não percebia o que estava a acontecer, mas sabia que aquilo não era normal. Passados longos minutos apareceu o maquinista, dizendo que não podíamos avançar, porque caíra um poste de eletricidade sobre os carris, alguns quilómetros mais à frente. Também não podíamos retroceder porque a última estação há muito que ficara para trás. Teríamos de permanecer ali até que retirassem o poste e ninguém sabia quanto tempo isso ia levar.

– E ficaram lá muito tempo?

– A noite toda.

– Oh! E tu passaste os anos ali, no meio do nada?

– É verdade. Só conseguia pensar na minha madrinha, no jantar que me queria oferecer e no teatro a que iríamos em seguida. Era a primeira vez que eu ia ao teatro e, em vez disso, estava ali sentada num comboio.

– Deves ter ficado muito triste. – Vitor olhou para a janela, observando a chuva e avaliando se a sua tristeza da avó seria maior do que a sua.

– A princípio fiquei. Tão triste que um rapaz que viajava na mesma carruagem veio ter comigo para me tentar animar, pensando que eu estava com medo.

– E não estavas?

– Um pouquinho, mas não era por isso que estava triste. Contei-lhe o que se passava. O rapaz disse: «Lamento!», afastou-se e eu fiquei ali a olhar a escuridão. Depois, vi que algumas pessoas acendiam uma fogueira e estendiam ao pé uma manta grande, daquelas dos piqueniques, sabes?

Vitor confirmou com a cabeça.

– Sobre a manta cada pessoa colocava uma coisa. Eu não percebia o que era. Fiquei curiosa, peguei no cesto e fui até lá. Todas as pessoas tinham um cesto, um saco ou um cabaz e de dentro dele tiravam fruta, bolo, presunto, queijo, chouriço. Um a um, todos iam depositando alguma coisa. Eu escolhi a mais bela maçã que encontrei no cesto e coloquei-a na manta. Quando já todos haviam contribuído, juntámo-nos em redor da fogueira e o rapaz, que falara comigo no comboio, começou a tocar acordeão, acompanhado pelas vozes que entoavam a canção de parabéns. Tudo aquilo era para mim. Em poucos minutos, ele preparara a minha festa de anos, a melhor de toda a minha vida.

Vitor e a avó olharam pela janela. A chuva parara e o sol fazia força para romper as nuvens.

– Acho que vais ter a tua festa de anos.

Vitor levantou-se e agarrou-se ao pescoço da avó. Como era bom tê-la ali.

– Nunca mais viste aquele rapaz?

– Vi. É o teu avô.

Quita Miguel

sábado, 12 de julho de 2014

Rumo ao campo

«Troque o jipe pelo trator e deixe para trás o estilo de vida militar.»

O anúncio deixara-nos curiosos, o suficiente para abandonarmos Lisboa e nos aventurarmos rumo ao campo.
Fomos recebidos com uns piropos sem graça, ao que se seguiu a audácia de nos proporem uma ida à horta para apanhar os legumes para a sopa. A ousadia não ficara por aí:
– Não querem experimentar ordenhar as vacas? – perguntara-nos o dono.
Trocámos um olhar e gritámos:
– Não!

Quita Miguel

Desafio RS nº 15 em 77 palavras – anúncio de turismo rural

segunda-feira, 7 de julho de 2014


ENTRE DOIS COMPASSOS

 Entrou no mar, quando o sol principiava a descer, dourando o areal, que se estendia até ao bosque. Sem pressa, permitiu que a água lhe fosse cobrindo o corpo, deliciando-se com o suave ondear que lhe acariciava a pele. Por algum tempo, deixou-se boiar com placidez. Gostava daqueles entardeceres de verão, dos dias que com lentidão convidam a noite a chegar. A lua refletia-se no mar, dando-lhe um brilho marmóreo, que contrastava com o alaranjado do sol, que sumia no horizonte.

Com suavidade, como que estudando cada passo, atravessou a areia até ao início da mata. Aí vestiu a túnica de linho branco e caminhou em direção à cabana, que se ocultava entre as árvores. A porta abriu-se com um leve rangido, deixando vislumbrar o contorno dos móveis envoltos em penumbra. Foi até à lareira e acendeu-a. Não porque estivesse frio, mas porque gostava do agitar das chamas e do esplendor que estas proporcionavam, dando um ar místico ao ambiente.

Ouviu o arfar que provinha do quarto ao lado. Valdo abriu um pouco a porta, só o bastante para se certificar de que tudo estava em ordem. Depois dirigiu-se à cozinha e preparou uma refeição colorida. Vestia-se sempre de branco, mas em tudo o mais, desejava que a cor se impusesse. Como um verdadeiro chefe, decorou o prato. Em seguida, foi até à sala e compôs uma mesa romântica, iluminada em exclusivo pela lareira e pelas velas que acendeu. Abriu o vinho que guardara para uma ocasião especial. Afastou-se um pouco e observou. Tudo parecia perfeito, mas sentia que faltava algo.

O ligeiro balançar das folhas junto á janela emitia um som agudo, cadenciado. Era isso. Faltava música. Teria de ser algo delicado, mas ao mesmo tempo forte, profundo, decidido, sem perder o romantismo. Algo que o levasse para além do infinito, que lhe permitisse esquecer os limites do tempo, que desse som aos seus sonhos.

A Avé Maria de Franz Shubert invadiu o ar, preenchendo cada canto da sala, embalando a atmosfera acolhedora de luz e cor.

Valdo foi até ao quarto e com delicadeza pegou em Ubaldina ao colo. Levou-a até à sala e sentou-a face à lareira, de modo que pudesse apreciar a dança incessante das chamas.

Fora aquele estranho nome a aproximá-los. Um nome de sonoridade particular que a marcava como pessoa impar, como alguém exclusivo que não poderia mais soltar. 

Com dedos ternos, afastou-lhe os cabelos da face e acariciou-lhe o rosto. Era bonita. Apesar de tudo, era bonita.

Serviu o jantar e com mão firme levou-lhe à boca a iguaria, que com amor preparara.

Ubaldina sentia-se fraca, sem forças. Era como um fardo inerte a quem custava engolir. Então, Valdo colocou-lhe a palhinha entre os lábios e ofereceu-lhe um pouco de sumo de frutas. Soube-lhe bem aquele líquido açucarado a descer pela garganta. Parecia até que lhe dava alguma vida.

Valdo sentou-se, saboreou o vinho, brindou e deliciou-se com o jantar. Deveria ter sido cozinheiro, mas a vida levara-o para outros caminhos.

Para a sobremesa fizera um doce de chocolate e amêndoa. Um creme que Ubaldina experimentou com prazer. Era bom sentir algo doce numa existência que lhe fora sempre amarga.

Valdo sentia que chegara a hora. A hora em que tudo se conjuga num único caminho, em que tudo adquire sentido, em que o presente e a eternidade se fundem.

Só naquele momento, ele conseguia sentir a essência da felicidade. Era como se a alma emitisse um eterno sorriso, que extravasasse para o mundo.

Um imenso tremor sacudiu-lhe o corpo, no instante em que o acorde da música subia de tom. Os seus lábios expressaram um leve sorriso, ao mesmo tempo que o olhar se dirigiu para o jornal jogado em cima do sofá. As pupilas dilataram-se ao ler na 1ª página “Assassino em Série Capturado”.

Sob as suas mãos, o corpo convulsionado de Ubaldina aquietou-se.

Em breve, perceberiam que estavam enganados.

Quita Miguel

segunda-feira, 30 de junho de 2014


EXIBIDO

– Podíamos combinar um café… – sugeri com um ligeiro tremor, enquanto a tua boca permanecia estanque.

Contudo, uma tarde chegaste, sem teres prometido, deixando-me de boca aberta.

No início, fez-se silêncio, o fogo a invadir-me a cara. À hesitação de te cumprimentar, seguiu-se um gesto intempestivo, que entornou o café. Desajeitada, pedi um pano.

Não sei o que terás pensado, pois apenas te sentaste e iniciaste um monólogo, exibindo o teu conhecimento. Eu, como desforra, fechei os ouvidos.
 
Quita Miguel

Desafio nº 69 em 77 palavras – lista de palavras, onde se inclui desforra

quarta-feira, 25 de junho de 2014


E FAZ-SE NOITE… E FAZ-SE DIA

 
Todas as noites nasço e todos os dias morro e de novo me refaço, tão precisa como o sol que se segue à lua. Umas vezes de aparência escura e densa, outras brilhante e acolhedora, mas sempre presente. Hoje, celebrando o início do verão, nasci matizada de brilho com contornos de nuvens, que a brisa desfaz.

Sou senhora de mil nomes: noite, trevas, escuridão, sombra, negrume…

Vivo só e, como num pesadelo, condenada a vaguear pela eternidade que nem alma errante. Procuro escapar ao vazio e vigio os sonhos que preenchem o ar. Nunca há um sonho completo, perfeito, satisfatório em absoluto. Mas são apenas isso, sonhos. Então porque seriam perfeitos? Nada o é, nem a Terra, que aqui e ali se eleva em grandes colinas cónicas, algumas cobertas de cedros ou carvalhos que, no topo, adensam a floresta. O solo é escuro e rico em tons castanho-avermelhado com laivos negros, adornado de ervas daninhas. É um bom lugar, suficientemente perto do céu, suficientemente longe do homem. Ao seu redor, as nuvens flutuam de espanto e incredulidade.

Lá em baixo, o lago reflete o firmamento, rodeado de tenebrosas grutas. Por um instante, deixo o olhar percorrer, ao de leve, o velho caminho romano que se avista do alto da muralha. Fico imóvel, maravilhada. Lugar de encantamento, de feitiço, de mistério que acolho com agrado. O poder da magia é grande, quase tão grande como o da perda que sobrevoa a cidade de todos os demónios. Quase tão cativante como o meu espetáculo mudo, que atrai uns e apavora outros.

No escuro, os caminhos são traiçoeiros. As criaturas selvagens conhecem a necessidade de se esconder, de fugir, de procurar refúgio, de desaparecer na noite, eu seja, em mim. Os demónios noturnos são poderosos. Bravura, medo, calor, frio, perigo, abrigo, solidão, angústia, tudo isto sou e tudo isso, tal como a floresta que protege os seus, vos dou. E por isso, tantas vezes, me olham de soslaio, com verdadeira desconfiança.

O vento que venta através dos ramos das árvores, soprando as folhas de um lado para o outro, murmura com suavidade uma pequena canção monótona, sem princípio nem fim, louvando a minha quietude. Cai um fruto maduro, os corvos vêm e debicam-no até ao último bocado. Por uns momentos, faz-se silêncio.

Observo longas e amáveis conversas sobre a vida e a morte, lamentos profundos, hinos histéricos, como um zeloso guardião dos murmúrios noturnos. De repente, sinto-me aborrecida.

Oiço homens a falarem sobre cavalos, antecipando animados a chegada a casa, a comida, o vinho e um coração quente. Falam das colheitas e do gado, do bem-estar dos camponeses. Escuto as conversas, se bem que as vozes sejam abafadas. Observo a cavalgada, subindo a ravina, por onde corre um ribeiro.

Ocorre-me que, devido ao meu silêncio, já que nunca lhes posso responder, eles falam comigo como se falassem consigo mesmos, colocando os pensamentos em ordem.

Lá em baixo, um cão muito pequeno, velho e pardacento, olha-me com olhos tristes, remelosos, abanando a cauda gentilmente. Vive de modo selvagem há quase um ano. Inspeciona a área em volta com cuidado, farejando com calma e por ali fica, numa longa vigília até de madrugada. Fico a contemplar, ao pormenor, aquela imagem de velho que parece regozijar-se na sua decrepitude. Enterneço-me.

Uma família de ouriços-cacheiros aventura-se sob os arbustos, até perto da pedra lisa da margem da pequena corrente, onde as árvores crescem perto da água. Um pássaro solitário começa a cantar lá em cima, nos olmeiros. Mais longe, vêem-se os rouxinóis em triste cativeiro.

Já alguém se espreguiça devagar. O coro das aves aumenta.

Não tarda, ouvem-se os primeiros ruídos das casas que despertam. Na casa de banho, uma mulher põe a touca para o duche.

O dia está prestes a chegar e, resignada, empalideço de horror. Como tudo se acaba neste mundo, de novo morro, no esgotante exercício de me recolher.

Quita Miguel

domingo, 22 de junho de 2014


Abraço

Sempre que chegavas, carregavas nos braços um abraço apertado, que eu procurava afrouxar, reclamando:
– Ó avô cuidado que me amachucas toda.
Hoje, tudo o que queria era poder refugiar-me nesses braços preenchidos de saudade, mas fico por aqui, atirada no sofá, como uma folha de papel que amachucamos porque expôs a palavra errada.
Se pedir desculpa talvez voltes. É isso. Calço-me com pressa, pego o carro e rumo para a aldeia. À noitinha terei o teu abraço.
Quita Miguel 
Desafio nº 68 em 77 palavras – imagem de uma folha amarrotada