terça-feira, 17 de junho de 2014


UM DIA DE PESCA


Da janela da casa onde mora, Filipa Andreia observa Alves que rema ao sabor da corrente. Por vezes, lança a rede na mera esperança de que o sável, distraído, se deixe capturar. Outras vezes, atira-a com raiva por o rio não lhe retribuir o amor que lhe dedica.

O ramo, junto à janela, agita-se quando a maré muda, e o vento ganha força. Filipa sobressalta-se, mas logo se aquieta e pensa: «Um dia ainda me levas contigo.»

Quita Miguel

Desafio em 77 palavras – três trios de palavras em anagrama.

segunda-feira, 16 de junho de 2014


BATISMO DA TERRA
 

A onda de pó que se perdia no horizonte recordava-lhe que os últimos haviam partido. Pouco a pouco, todos haviam sucumbido àquela terra gretada e sem vida. Só ele permanecia ali, fiel ao lugar que sempre fora seu. Ali nascera, ali se criara e virara homem, ali gerara família e a perdera também. Ali fora feliz e triste, ali rira e chorara, ali acreditara e perdera a esperança.

Com os olhos secos daquele ar agreste, percorreu a imensidão que outrora fora verdejante, de um verde tão intenso que magoava a vista. Agora tudo era castanho, umas vezes claro quase a tocar o bege, outras, mais escuro, relembrando-lhe o cabelo dos filhos que ganharam a cidade. Ia para três anos que não caía uma gota de água. Tudo definhara à sua volta. Até ele estava seco. Aquela poeira agarrava-se-lhe aos poros, entrava-lhe pela garganta e forrava-lhe o estômago. Já não sentia fome, sede sim. Mas aprendera a controlá-la. Teria água para mais uma semana, depois seria o fim.

Por isso, todos partiram. Mas ele não podia. Para onde iria? Aquele era o seu mundo, nunca conhecera outro. Ali permaneceria até ao fim, apesar de se sentir traído por aquele terra de que tão bem cuidara. Prometera-lhe abundância em troca do trabalho que ele lhe dedicara e durante algum tempo fora-lhe fiel, retribuindo-lhe o suor que ele lhe consagrava. Mas de um momento para o outro, ela deixara de colaborar. Os pastos foram secando um a um, os animais emagrecendo e a terra tornara-se cada vez mais rude, com gretas que lhe acentuam a secura. Ele olhava-a com a mesma ternura de sempre, e ela respondia-lhe com aquela frieza que lhe doía a alma.

O sol, esse queimava-lhe a pele e ressequia-lhe os ossos. Também ele, dentro em pouco, abriria gretas.

O céu era de um azul que feria pela intensidade da luz, obrigando-o a semicerrar os olhos.

Percorreu a rua, ignorando as casas, agora vazias de vozes, de reboliço, de gente. Era como atravessar uma cidade fantasma dos filmes do oeste que vira em miúdo, quando o cinema ambulante percorria o interior, e a noite de cinema era noite de festa.

Há muito que nada se festejava por ali. Tinham começado por pedir, depois rezar e por fim implorar, mas nada fazia com que a chuva caísse. Por vezes, surgiam algumas nuvens, mas delas nada brotava. Era como se a chuva estivesse suspensa no ar e teimasse não cair.

Com lentidão, aproximou-se do leito do rio. Concentrou-se, procurando recordar-se do barulho da água a correr. O rosto marcado pelo tempo encheu-se de rugas. A sua pele estava tão seca quanto aquele solo que fendia. Apesar disso, agarrava-se obstinado àquele pedaço de terra.

Deitou-se naquele manto de pó e fechou os olhos. O sol queimava-lhe a face, mas isso que lhe importava? Dentro de uma semana, tudo estaria terminado. Uma sombra inesperada cobriu-lhe o corpo. Quem seria que voltara para trás? Estava demasiado cansado para abrir os olhos e isso também pouco interessava, bastava sentir que alguém se interpunha entre ele e o sol. Sabia-lhe bem aquela fresquidão súbita.

Depois, sentiu algo molhado no rosto. Mas cuspiam-lhe na cara? Não podia crer. Quem poderia humilhá-lo de tal modo? Não bastava já, ser o espelho da própria derrota?

Abriu os olhos e procurou o desaforado que se atrevia a tal, mas em toda a imensidão que a visão alcançava, não se vislumbrava vivalma. Estaria a ficar louco? Ouvira contar que a falta de água provoca alucinações. De repente, sentiu um novo contacto frio com a pele e virou-se em direção ao céu que agora se vestia de cinzento-escuro. 

Um pingo caiu-lhe na cara e depois deste, outro e outro e outro. Eram gotas de chuva que lhe acariciavam o rosto, lhe amaciavam a pele, lhe afagavam os cabelos. Em poucos minutos a terra seca transformou-se na lama em que se deitou, rolando como uma criança, que tudo o que quer é sentir o aconchego da terra.

Abriu a boca e deixou que as gotas de chuva, uma a uma, lhe penetrassem na garganta e lhe refrescassem a alma. Fechou os olhos e ouviu o barulho do rio que com timidez voltava a correr. Era como se Deus estivesse batizando a terra e, nesse batismo, abençoando o futuro.

Ajoelhou-se e chorou, agora não mais de desespero, mas de agradecimento. A chuva estava de volta e com ela a vida.

Quita Miguel

 

quinta-feira, 5 de junho de 2014


ESCREVER UM NOVO FIM

O vento fustigava as árvores, que se curvavam à sua força. Os ramos balançavam como geridos por um maestro que marcava o ritmo. O sol começava a pôr-se naquele final de tarde, de um dia que parecia não querer terminar. Eram assim os dias de verão.

Xerazade observava a luta da natureza, recordando-se da sua.

A ela o vento, apesar de forte, não flagelava. Pelo contrário, acariciava-lhe a cara ao ritmo da cadeira de baloiço, que fazia ranger o soalho do alpendre.

Os olhos seguiam o movimento dos ramos das árvores e fixavam-se nas folhas. Umas seguravam-se com a força que a seiva lhes doava, recusando-se a terminar ali a vida. Outras, já cansadas, desprendiam-se e desciam com suavidade para atapetar o chão.

Levou a mão à pulseira que lhe cobria o pulso direito e passou os dedos pela inscrição: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.” Fora essa frase de Chico Xavier que lhe dera coragem para gritar basta e procurar um novo rumo.

Numa cama de hospital, após mais uma das inúmeras «quedas», que a haviam tornado cliente assídua daquela instituição, conhecera Vitória. Dividiam o mesmo quarto. Vitória olhara-a sem crítica, até mesmo com ternura, mas deixando transparecer, sem margem para dúvida, que não acreditava ter-se tratado de um trambolhão.

«Devemos ter a coragem de pedir ajuda, quando não nos podemos ajudar a nós próprios», dissera-lhe ao partir. Depois, pusera-lhe um livro entre as mãos, sorrira e desaparecera no corredor.

Ao abrir o livro, Xerazade encontrara aquela frase sublinhada. Vira nela a força que lhe faltava para procurar uma saída.

Nesse mesmo dia, denunciou o marido por maus tratos, ultrapassando a vergonha e o medo, que a haviam mantido, por demasiado tempo, submersa da realidade.

Passou a mão na coxa e sentiu a cicatriz. A marca permanecia ali para que nunca se esquecesse de como fora submissa nos últimos anos. Não por um prazer mórbido de reviver a amargura, mas para se recordar que tivera coragem de ultrapassar a barreira que a separava da vida, porque viver sem liberdade era o mesmo que estar morta, e ela fora um ser apagado por mais de dez anos.

A mãe dera-lhe um nome raro, inspirada nas mil e uma noites, acreditando que ele traria a magia à sua vida. Uma magia que se transformara em pesadelo. Uma angústia a que tivera a coragem de pôr fim.

Por isso, o vento a acariciava em vez de a açoitar, porque agora estava livre. Livre dos gritos, dos estalos, dos empurrões, dos avanços incontrolados, livre do terror que lhe tolhia qualquer reação. Tapava os ouvidos porque não lhe suportava sequer a voz, e deixava-se ficar num canto, como um saco de pancada, até que ele se cansasse e a deixasse em paz. Uma paz que duraria somente até à próxima vez. Uma próxima vez, cada vez mais frequente e mais intensa.

Uma intensidade que a catapultava ao desespero de se sentir impotente para o enfrentar, para lhe dizer que não lhe era inferior, que era apenas fisicamente mais fraca, mas que isso não fazia dela um ser menor. Mas as palavras calavam-se-lhe na garganta, aprisionadas pelo soluço que procurava engolir.

Olhou a natureza que a circundava e sorriu. Agora, sentia-se digna de a contemplar, porque possuía a força que lhe permitia andar de cabeça erguida, olhar as pessoas de frente, agarrar o mundo com ambas as mãos.

O coração estava para sempre rachado e era provável que nunca se recompusesse, mas seguia um dia de cada vez e superava, um por um, todos os obstáculos que se lhe deparavam, porque acreditava na vida, na fé e em si.

Compreendera que é sempre tempo de recomeçar, por isso, ao sair do tribunal no dia em que o marido fora condenado, mandara gravar aquela pulseira. Era de madeira, pouco valiosa em termos monetários, mas com um valor inestimável de esperança. Esperança de quem tivera a audácia de começar a escrever um novo fim.

Quita Miguel

quarta-feira, 4 de junho de 2014


O ENFEITE
 

Hortência endireitou as costas, entufou o peito e olhou-o entusiasmada. Ele hesitou. Aquilo que ela apelidava de enfeite era único e…

Aproveita para mostrar alguma coragem – espicaçou-o Hortência.

O conceito de corajoso não o entusiasmava. Anunciava sarilhos, mas dizer-lhe que não teria um efeito ainda pior.

Espreitou pela fechadura, consciente da falta de respeito. Avançou e quando a mão estava prestes a alcançar o objeto, algo lhe agarrou o ombro. Num relance reconheceu a mão da diretora.

Quita Miguel

Desafio em 77 palavras: 8 vezes EIT.

sexta-feira, 30 de maio de 2014


SONHO ESVENTRADO


 
– Temos aqui o homem, capitão – anuncia num tom vitorioso um sujeito, ao mesmo tempo que me puxa pelo braço, forçando-me a levantar.
Os dois homens arrastam-me para fora do barco, que me acolhera durante a noite, e atiram-me para a areia. Falam comigo, mas as vozes estão longe, a praia gira, e o sol forte impede-me de lhes ver a cara. Sinto que me carregam em direção ao mar. Quero protestar, gritar que não sei nadar, mas sem forças, resigno-me.
O choque com a água fria desperta-me, e o olhar gelado do meu genro põe termo aos restantes resquícios de álcool.
Queria ter uma borracha para apagar este momento e para apagar todos os outros em que as pernas trôpegas me conduziram onde não queria ir, porém permaneço amarrado a esta realidade à qual não pertenço. É que, por muito que tenha tentado alcançar a proa da vida, mantenho-me sempre na ré.
– Não sei o que faça consigo. – O capitão Zeferino José perfila-se diante de mim com a empáfia que a farda lhe concede, e com a censura que a condição de genro ratifica. – Adalberto Pais, o senhor é uma vergonha para todos nós.
Oiço-o pronunciar o meu nome como se falasse de outrem. Há muito que deixei de ter identidade. Queria sentir que é bom gostar de viver, mas não consigo.
– Adalberto Pais, o senhor é uma vergonha – repete, para se assegurar de que o oiço.
O facto de ser militar e me olhar do alto aumenta a minha pequenez. Deixo a cabeça cair entre as mãos. Porque não me esquecem?
Em silêncio conduz-me até casa, onde a minha filha me espera, para se ocupar de mim. Não sei quando é que os papéis se inverteram. Não me dei conta.
– Papá, come esta sopa quentinha. Deves estar com fome.
Forço um sorriso, mas as lágrimas ameaçam molhá-lo e afasto-me rumo ao quarto. Não quero ver-lhe a piedade nos olhos. E mais uma vez revejo aquela noite. Foi há trinta e dois anos, tantos quanto os anos que Branca Maria completou ontem.
O salão amplo albergava mais de uma centena de pessoas que admiravam as minhas obras. A primeira exposição de um pintor promissor. As críticas não podiam ser melhores. Era o meu sonho tornado realidade. Contra tudo e todos, prosseguira num caminho que me tinham querido vedar.
– Uma pessoa de bem tem um emprego decente, não é artista. – Com esta frase, o meu pai convidara-me a procurar outra morada, e eu fui. Receoso, inseguro, mas com a coragem que o sonho me concedia.
Bendita a hora em que o fiz, pois foi ao percorrer esse caminho não traçado que encontrei Carla.
Enquanto eu imergia na arte, Carla assegurava-se de que a vida prosseguisse serena, não se esquecendo nunca da maior das motivações: o amor.
Por detrás de todas as dificuldades, havia uma força invisível que se fazia maior, tornando-nos capazes de as suplantar, negando qualquer possibilidade de fracasso. Afinal, nós acreditávamos.  
Apesar da barriga que lhe pesava, Carla trabalhara afincadamente na preparação da exposição. Era do nosso sonho que se tratava. Sim, do nosso, porque aquilo que começara por ser a minha razão de acordar, era então a razão de viver de ambos.
Por fim, o dia mais esperado havia chegado. 7 de Abril nascera ensolarado, o céu presenteando-nos com o seu azul mais brilhante. Estávamos nervosos, existe sempre um perigo de insucesso. No entanto, ela disfarçando a insegurança, dizia-me num tom confiante:
– Estão lindos. Amanhã não se falará noutra coisa.
Mas falou-se. Falou-se da sua morte prematura ao dar à luz Branca Maria.
Quando as águas rebentaram, Carla não autorizou que me avisassem. Dissera: «A noite é dele. Deixem-no aproveitar até ao fim. Mais tarde estará connosco.»
Não estive, e é isso que me tortura. Não ter tido a possibilidade de lhe dizer uma última vez o quanto a amava, o quanto a minha alma sem a dela não fazia sentido, o quanto estava derrotado, apesar de vitorioso.
Levaram-me até ao berçário. Ajoelhei-me e comecei a rezar. Quando me ergui, era outro Adalberto que se levantava.
Não havia mais o pintor. Quem ali estava era o pai, o viúvo.
Apesar de não ser grande apreciador de espaços fechados, arranjei um emprego num escritório e arrastei-me ao longo da vida. Com alguns sorrisos forçados e lágrimas escondidas, fui desempenhando o papel de chefe de família. Acho que não me saí de todo mal. Basta olhar para Branca Maria. Não existe pessoa mais doce e, contudo, magoo-a a cada aniversário.
As vozes que se elevam na sala quebram-me o fluxo de pensamentos. Aproximo-me, quero ouvir o que dizem:
 – Quantas vezes ele já te prometeu que ia mudar? Quantas? – A voz do meu genro é dura. Não lhe tiro a razão. Prometi demais e cumpri de menos.
– Sabes como esse dia é difícil para o meu pai. Ele quer celebrar o meu aniversário, mas… – Branca procura justificar os meus atos, fá-lo sempre.
– E celebra a morte da tua mãe! Desculpa, não queria dizer isto. Vês o que ele provoca. Isto vai ter de acabar. Especialmente agora que…
A minha entrada na sala interrompe o desabafo. Ficamos em silêncio tempo demais. As paredes sufocam-me, saio para o jardim e perco-me em lamentos, com pena de mim próprio.
Devo ser um caso perdido, já que os sábios conselhos dos que, ao longo dos anos, cruzaram o meu caminho de pouco serviram.
«Um desgosto não é razão para se desistir.» Quantas vezes, ouvi esta frase? Quantas vezes, pensei dar-lhe ouvidos e o não fiz?
Entrei em casa. A noite havia já caído e eles jantavam. Não me esperaram. Isso deixa-me triste, mas compreendo-os.
Assim que me sento, a minha filha serve-me. Não tenho fome, mas não quero fazer-lhe mais uma desfeita e, com esforço, engulo cada garfada sem lhe tomar o gosto.
– Papá, estive a pensar e…
Olho-a assustado com receio de que me peça para partir. É o meu genro que toma a rédea da situação:
– Isto não é bom para nenhum de nós. Não sei como, mas as coisas vão ter de mudar.
– Eu tenho uma solução. Acho que vai resultar. Só quero que me deem dois ou três dias e confiem em mim. Pode ser? – Como posso eu dizer que não a Branca Maria? – Vou alterar o guião da tua vida, papá – diz, acariciando-me a mão abandonada em cima da mesa.
– Então, vê lá se o guião que lhe vais dar é mesmo bom. – Branca Maria não responde com palavras ao comentário do marido, mas o olhar remete-o ao silêncio.

 
Olho o relógio pela décima vez. Três da manhã, e o sono não vem. O que me estará destinado? Amanhã, termina o prazo que Branca pediu.
Um lar? Será que a minha filha me vai colocar num lar? Deve ser isso. Mas sou ainda tão novo. O espelho não é da mesma opinião, eu sei.
Não haveria muitas mulheres que aguentassem tudo o que a fiz passar.
Assim que a manhã desponta, decido fazer as malas. Não preciso de muita coisa. Uns fatos de treino e pouco mais. Ah! É melhor levar também umas roupas melhores para quando sair com eles ao fim de semana.
Será que me vão buscar aos fins de semana? Se não forem, eu aceito.
– Posso entrar, papá?
Digo-lhe que sim e deixo-me ficar sentado na cama, a mala aos pés.
– Que mala é essa, papá? Vais viajar? Não me avisaste. Onde é que vais?
– Vou para onde me quiseres mandar. Estou pronto. Onde é o lar?
Faço de conta que não percebo a tristeza no seu olhar.
– Anda comigo. – Faço menção de agarrar a mala. – Não. Deixa-a aí.
Conduz-me a uma casa há muito fechada. Fica nas traseiras. Tem servido de depósito. Acho que nunca lá entrei. Então é ali que me vai colocar, como se fosse uma mobília velha. Agora é o meu olhar que se veste de tristeza, espelhando o desgosto que me avassala.
– É para aqui que queres que eu venha? – pergunto-lhe, na vã esperança que o negue, que diga que o meu lugar é ao seu lado, mas só oiço é um singelo:
– Exato!
As mãos tremem-lhe quando mete a chave à porta, e a voz estremece ao declarar:
– Isto é para ti.
Não posso acreditar no que vejo. Não, não pode ser para mim, não é possível.
Percebendo que me é impossível proferir qualquer palavra, Branca respira fundo e torna-se senhora da situação:
– Pois bem, a menina ingénua já teve que chegue por esta vida. Está na altura de se tornar mulher responsável, capaz de mudar o que necessita ser mudado. Sempre desculpei o teu desaparecimento a cada aniversário, o teu regresso envergonhado, a promessa não cumprida de que no próximo ano seria diferente. Agora, basta! Basta de alimentares uma ferida que te destrói. Basta de jogares no lixo um sonho que não era só teu. Senão por ti, por ela deverias tê-lo perseguido, deverias ter dado tudo de ti.
– Mas se foi a pintura que a matou – consigo murmurar.
– Não. Não foi a pintura, nem fui eu, apesar de por muito tempo ter pensado que me culpavas.
– Nunca, filha. Nunca. – Não consigo mais travar as lágrimas.
Ela também não. Procura um lenço no bolso das calças e apressa-se a secá-las. Vejo que está decidida em levar a conversa até ao fim.
– Nesse caso, porque não mo disseste? Porque não me mostraste que a minha história se desligava de uma perda? Porque é que, cada vez que eu celebrava um aniversário, tu te perdias na dor da sua morte?
Não respondo.
– Bem, papá, chegou o momento de curar essa dor. Quero que voltes a pintar. Aqui tens tudo o que precisas. Agora é só buscares a vontade dentro de ti.
– Porquê agora?
– Porque quero que ela… ou ele possa ter no avô o pai que eu nunca tive. Pois é, vou ser mãe. – O olhar de Branca ilumina-se num amor que transborda. Beija-me a face e sai, deixando-me perdido.
Com o olhar percorro a arrecadação transformada em atelier.
– O que será isto? – pergunto-me, descobrindo um embrulho.
Impaciente, rasgo o papel. O olhar radiante de Carla, com a mão pousada sobre a barriga, esbofeteia-me, e o cartão escrito por Branca desperta-me: «Fá-lo por nós duas.»
Escolho um pincel. A mão treme-me. São mais de trinta anos de abstinência. Não sei por onde começar.
Penso em desistir. Coloco a fotografia e o cartão bem na minha frente para me darem força.
Quando começa a fazer-se escuro, dou-me conta que passei o dia sem comer. Vejo a minha imagem no espelho. Esbofeteio-me para sair do marasmo que me impede de dar a primeira pincelada.
Não a posso desiludir. Não, desta vez não posso.
É madrugada, quando saio do atelier. Na casa, o silêncio impera.
Quando, por fim, me deito, estou em paz. Amanhã, Branca Maria verá que a decoração da sala está mais colorida. Espero que goste.

 Quita Miguel

 

domingo, 25 de maio de 2014


DENÚNCIA

Depois de enfiar a cabeça pela porta para se assegurar de que o corredor estava vazio, dirigiu-se para o elevador.
Sentiu-se reconfortado ao verificar que ninguém o abordou até chegar ao -3.

Retirou a gazua do bolso e, num modo silencioso, introduziu-se na sala de arquivo. Sorriu ao descobrir a capa com os documentos que denunciariam o deputado. Mas o sorriso durou pouco.

Antes que compreendesse o que se passava, uma voz atrás de si disse:

– Olha, olha. Não é o enxerido jornalista?

Saltou por cima da mesa, correu até à porta, mas esta fechou-se-lhe na cara.

Agora, estava feito!

Quita Miguel

Desafio Drabble: Aventura

quarta-feira, 21 de maio de 2014


APANHADO

A irmã, sem cerimónias, enfiara-lhe a mão no bolso do casaco e, agora, exibia os malditos números 66 e 99.

– Juro que não sei como isso veio aqui parar.

Desculpas, já as arranjara melhor. Estava perdendo qualidades. Sentia a face queimar como no inferno, e suava em bica debaixo da camisola, ao mesmo tempo que contemplava a prova do seu delito. Pior do que fazer batota, é ser-se apanhado.

Mais uns minutos, e teria conseguido fazer bingo.

 Quita Miguel

 Desafio nº 66 em 77 palavras – números 66 e 99