sábado, 22 de março de 2014


Derrapando

Malheiro esfregou os olhos e coçou o nariz. Detestava quando a lata velha acelerava pela prateleira apertada, levantando uma nuvem de pó.

– Para lá com isso – refilou o urso, ansiando voltar para o baú. Era escuro, mas ao menos podia dormir sossegado.
O carro desafiou-o, chiando os pneus, esquecendo-se que estavam carecas.

– Aiiiiiiiiii – gritou ao derrapar, ficando pendurado por uma roda. – Ajuda-me. Não vez que estou quase a cair.

– Se pedires com jeitinho…

– Por favor! Por favor!

Quita Miguel

Desafio nº 62 em 77 palavras – dois objetos, numa prateleira cheia de pó, conversam

domingo, 16 de março de 2014


Sempre

Sempre que uma notícia importante se fazia anunciar, eu chegava tarde.

Ficava sempre do outro lado da fronteira, ali onde nada acontece.

Porque não podia enfrentar a realidade, ficava sempre apenas por ali.


Cheia de raiva, exclamava sempre o que me ia na alma.

Ligava o motor do pequeno Triumph e seguia sempre à distância.

E sempre que me perguntava porquê, não achava a resposta certa.

Contudo, fingia-me sempre perfeita, mostrando o meu orgulhoso como uma obra-prima.
 
Quita Miguel
Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida.

sexta-feira, 7 de março de 2014


Por Amor

Por amor seco-te a lágrima que recusas deixar cair, amparo a tua subida quando as pernas te pesam, seguro a tua mão quando o medo se instala.

Por amor rio contigo da piada sem graça e ouço atenta a história que contaste vezes sem conta.
Por amor acaricio-te os cabelos ralos e dou-te o comer à boca quando as mãos te tremem.

Por amor garanto-te que tudo vai ficar bem e, vendo o teu olhar de dúvida, digo-te: «Se não acreditas em mim, acredita ao menos Nele!»
Quita Miguel

domingo, 2 de março de 2014


RUMO AO JARDIM

Quando o senhorio apareceu naquele dia de Ano Novo, o corpo entufado, lembrando o Perú de Natal, que mutilado jazia no frigorífico, adivinhava-se que a notícia não seria boa.
O contrato de arrendamento não seria renovado.
 

– Avisei que não admitia animais – afirmou com a segurança de ser o detentor da última palavra.
– O que o senhor disse foi que não podia ter cães, ora eu só tenho gatos. – O argumento de Hilária era fraco, como os seus pulmões.
«A menina não pode ter gatos, tem de se desfazer deles», insistira o médico. «Antes morrer», respondera ela, num tom que não admitia réplica.
– Tem um mês para me devolver a chave, nem mais um dia. – Não havia margem para desculpas. Era uma sentença sem recurso.

 
Vendo-a distraída e triste, os gatos circundaram-lhe as pernas. A pressão teimosa das marradinhas e o ronronar cadenciado devolveram-lhe a convicção de que não havia maravilha maior do que o bem-querer.
– Prevê-se um furacão para o fim do mês? Pois então, aproveitemos o dia. – Colocou o cachecol, apertou o casaco, olhou-se ao espelho e voltou atrás para colocar um pouco de batom. Aprovando o resultado, pegou na mala e decidida desceu os degraus.
Partiram os três, rumo ao jardim despido pelo inverno, as sombras refletindo-se no chão, revelando o poder escondido no interior de cada um.


Quita Miguel

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


A COLCHA DE CETIM

 
– Fevereiro! Ó Fevereiro! Mas onde raio se enfiou o bicho? E o Belmiro que não chega. As aulas já acabaram há mais de uma hora, o que é que aquele rapaz anda a fazer? – reclamou em voz alta, ao mesmo tempo que pegou nos sacos, na mala, nas chaves de casa e do carro e, apressada, se dirigiu para a porta.

Não podia atrasar-se mais. Só esperava que Fevereiro não fizesse nenhuma asneira enquanto estivesse fora.

Quando a porta da rua bateu, Fevereiro abriu um olho, depois o outro, espreguiçou-se e com tranquilidade iniciou a higiene pessoal sob o raio de sol, que entrava pela janela da casa de banho e inundava a banheira.

Deram-lhe aquele nome porque nascera numa 3ª feira de Carnaval, que para azar seu, naquele ano, fora no mês mais curto do calendário. Que gente sem imaginação. Poderiam tê-lo batizado como serpentina, mascarilha ou bisnaga, mas não. Escolheram um nome sem graça. Belmiro chamava-lhe Feve e, a isso, ele até achava alguma piada. Deu uma última lambidela na pata direita e levantou-se.

«Como é bom estar sozinho em casa, poder explorar à vontade. Por onde começo? Hum…, onde é que nunca me deixam ir? Claro! O quarto, aquela cama grande, gostosa.»

Formou o pulo e deixou-se aterrar com suavidade na colcha de cetim. Mas que raio, aquela coisa mexia-se, escorregava por todo o lado, parecia que estava viva. Seria que mordia?

«Miau, miau, miauauauauauauuuuu…….»

Por mais que travasse, não conseguia parar. Agarrou-se com todas as unhas que tinha, mas saiu disparado contra a parede, arrastando a traiçoeira colcha que se abateu sobre si. Sentia-se sufocar e quanto mais tentava libertar-se, mais aquele tecido traidor o apertava. Em desespero usou tudo o que possuía, dentes, unhas e, ao fim de uma enorme luta, conseguiu que a cabeça surgisse do monte de trapos.

O resultado não era famoso. Nessa noite, o gato ia miar, ai se ia.

O mal estava feito, fazer o quê? Pé ante pé, como se houvesse alguém que o pudesse ouvir, subiu até ao sótão. Ali só havia coisas velhas, mas podia aproveitar para descansar um pouco. A luta fora dura. Saltou para o sofá e uma enorme nuvem de pó invadiu-o, irritando-lhe as narinas.

«Atchim, atchim, atchim, atchim.»

Que inferno, não havia como parar. Aquele, definitivamente, não era o seu dia. Quando conseguiu deixar de espirrar, olhou-se com desdém. Nem parecia o gato asseado que era. Teria de recomeçar a lamber cada pelo, mas deixaria a tarefa para mais tarde, agora sentia-se de tal modo cansado que até lhe faltava o ar.

Vencido, deitou-se no sofá bolorento. Estava quase a adormecer quando qualquer coisa mexeu no cimo do cabide velho. Que seria aquilo? Um rato? Seria um rato? Como se atrevia? Que roedor desavergonhado invadia assim os domínios de Fevereiro? Não podia tolerar tal audácia. Bem devagar, foi-se agachando e preparou-se para voar em direção ao cabide.

O rato, vendo-o no ar, acelerou rumo ao chão e sumiu num pequeno buraco. Fevereiro viu-se, de repente, agarrado a um cabide rodopiando, caindo descontrolado para cima da cadeira de baloiço, que com o balanço o atirou contra a velha máquina de escrever que de repente falava sozinha:

«Brrrrrrrrrrrrrr, plim.»

Desta vez, extrapolara. Era hoje que o iam pôr a dormir no celeiro. Assustado, saiu a correr escada abaixo. A velocidade era tal que só parou contra as pernas do dono, que acabava de chegar.

Belmiro procurou disfarçar o vendaval que assolara a casa, mas não havia como repor a colcha da cama. Dentro de uma hora a mãe estaria de volta e aí o bicho ia pegar.

No chão do quarto espalhou o dinheiro que estava a juntar para comprar o novo skate e contou-o. A decisão não era fácil, mas tratava-se de salvar um amigo.

Quando a mãe meteu a chave à porta, Belmiro e Fevereiro estavam sentados no sofá da sala, muito direitos, sem dizer uma palavra.

– Isto não configura nada de bom – comentou a mãe, olhando-os bem nos olhos.

– É que… bem… quer dizer…

– Deixa ver se adivinho. Tu foste andar de skate, esqueceste-te das horas, o Fevereiro ficou sozinho em casa e… Qual é o desastre desta vez?

Belmiro engoliu em seco, incapaz de pronunciar qualquer palavra. Em silêncio, estendeu-lhe um embrulho com um enorme laço e um cartão que dizia: «Errámos, mas somos apenas miúdos. Perdoa-nos.», assinado com uma pata de gato e uma mão de menino.

A abertura da caixa revelou uma colcha um tanto chinfrim, bem diferente da bela colcha de cetim, mas ali estavam todas as economias do filho.

– É a colcha mais bonita que alguma vez recebi – disse, abraçando-o. – Vá lá, vem cá tu também. – Fevereiro saltou para o seu colo e brindou-a com uma marradinha e várias lambidelas, daquelas reservadas aos amigos.

Quita Miguel

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ISOLAMENTO

Pintou as janelas, deu cera nos corrimões da escada e pendurou os reposteiros.
Com afinco dedicou-se ao trabalho exterior, aquele que a preenchia. Cuidou do jardim. Plantou flores, varreu folhas velhas e oleou a cancela.

Quando...
terminou, a noite era sua companheira, limpa e demasiado fria. Agasalhou-se, olhando a placa que daria a conhecer quem ali se isolava.
Tomou a única decisão possível. O apelido ficou preso no arame farpado, indicando que aquele espaço era só seu.

Quita Miguel




 Histórias em 77 palavras:
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Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)