domingo, 16 de março de 2014


Sempre

Sempre que uma notícia importante se fazia anunciar, eu chegava tarde.

Ficava sempre do outro lado da fronteira, ali onde nada acontece.

Porque não podia enfrentar a realidade, ficava sempre apenas por ali.


Cheia de raiva, exclamava sempre o que me ia na alma.

Ligava o motor do pequeno Triumph e seguia sempre à distância.

E sempre que me perguntava porquê, não achava a resposta certa.

Contudo, fingia-me sempre perfeita, mostrando o meu orgulhoso como uma obra-prima.
 
Quita Miguel
Desafio RS nº 11 – 7 frases de 11 palavras, sempre com uma palavra repetida.

sexta-feira, 7 de março de 2014


Por Amor

Por amor seco-te a lágrima que recusas deixar cair, amparo a tua subida quando as pernas te pesam, seguro a tua mão quando o medo se instala.

Por amor rio contigo da piada sem graça e ouço atenta a história que contaste vezes sem conta.
Por amor acaricio-te os cabelos ralos e dou-te o comer à boca quando as mãos te tremem.

Por amor garanto-te que tudo vai ficar bem e, vendo o teu olhar de dúvida, digo-te: «Se não acreditas em mim, acredita ao menos Nele!»
Quita Miguel

domingo, 2 de março de 2014


RUMO AO JARDIM

Quando o senhorio apareceu naquele dia de Ano Novo, o corpo entufado, lembrando o Perú de Natal, que mutilado jazia no frigorífico, adivinhava-se que a notícia não seria boa.
O contrato de arrendamento não seria renovado.
 

– Avisei que não admitia animais – afirmou com a segurança de ser o detentor da última palavra.
– O que o senhor disse foi que não podia ter cães, ora eu só tenho gatos. – O argumento de Hilária era fraco, como os seus pulmões.
«A menina não pode ter gatos, tem de se desfazer deles», insistira o médico. «Antes morrer», respondera ela, num tom que não admitia réplica.
– Tem um mês para me devolver a chave, nem mais um dia. – Não havia margem para desculpas. Era uma sentença sem recurso.

 
Vendo-a distraída e triste, os gatos circundaram-lhe as pernas. A pressão teimosa das marradinhas e o ronronar cadenciado devolveram-lhe a convicção de que não havia maravilha maior do que o bem-querer.
– Prevê-se um furacão para o fim do mês? Pois então, aproveitemos o dia. – Colocou o cachecol, apertou o casaco, olhou-se ao espelho e voltou atrás para colocar um pouco de batom. Aprovando o resultado, pegou na mala e decidida desceu os degraus.
Partiram os três, rumo ao jardim despido pelo inverno, as sombras refletindo-se no chão, revelando o poder escondido no interior de cada um.


Quita Miguel

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014


A COLCHA DE CETIM

 
– Fevereiro! Ó Fevereiro! Mas onde raio se enfiou o bicho? E o Belmiro que não chega. As aulas já acabaram há mais de uma hora, o que é que aquele rapaz anda a fazer? – reclamou em voz alta, ao mesmo tempo que pegou nos sacos, na mala, nas chaves de casa e do carro e, apressada, se dirigiu para a porta.

Não podia atrasar-se mais. Só esperava que Fevereiro não fizesse nenhuma asneira enquanto estivesse fora.

Quando a porta da rua bateu, Fevereiro abriu um olho, depois o outro, espreguiçou-se e com tranquilidade iniciou a higiene pessoal sob o raio de sol, que entrava pela janela da casa de banho e inundava a banheira.

Deram-lhe aquele nome porque nascera numa 3ª feira de Carnaval, que para azar seu, naquele ano, fora no mês mais curto do calendário. Que gente sem imaginação. Poderiam tê-lo batizado como serpentina, mascarilha ou bisnaga, mas não. Escolheram um nome sem graça. Belmiro chamava-lhe Feve e, a isso, ele até achava alguma piada. Deu uma última lambidela na pata direita e levantou-se.

«Como é bom estar sozinho em casa, poder explorar à vontade. Por onde começo? Hum…, onde é que nunca me deixam ir? Claro! O quarto, aquela cama grande, gostosa.»

Formou o pulo e deixou-se aterrar com suavidade na colcha de cetim. Mas que raio, aquela coisa mexia-se, escorregava por todo o lado, parecia que estava viva. Seria que mordia?

«Miau, miau, miauauauauauauuuuu…….»

Por mais que travasse, não conseguia parar. Agarrou-se com todas as unhas que tinha, mas saiu disparado contra a parede, arrastando a traiçoeira colcha que se abateu sobre si. Sentia-se sufocar e quanto mais tentava libertar-se, mais aquele tecido traidor o apertava. Em desespero usou tudo o que possuía, dentes, unhas e, ao fim de uma enorme luta, conseguiu que a cabeça surgisse do monte de trapos.

O resultado não era famoso. Nessa noite, o gato ia miar, ai se ia.

O mal estava feito, fazer o quê? Pé ante pé, como se houvesse alguém que o pudesse ouvir, subiu até ao sótão. Ali só havia coisas velhas, mas podia aproveitar para descansar um pouco. A luta fora dura. Saltou para o sofá e uma enorme nuvem de pó invadiu-o, irritando-lhe as narinas.

«Atchim, atchim, atchim, atchim.»

Que inferno, não havia como parar. Aquele, definitivamente, não era o seu dia. Quando conseguiu deixar de espirrar, olhou-se com desdém. Nem parecia o gato asseado que era. Teria de recomeçar a lamber cada pelo, mas deixaria a tarefa para mais tarde, agora sentia-se de tal modo cansado que até lhe faltava o ar.

Vencido, deitou-se no sofá bolorento. Estava quase a adormecer quando qualquer coisa mexeu no cimo do cabide velho. Que seria aquilo? Um rato? Seria um rato? Como se atrevia? Que roedor desavergonhado invadia assim os domínios de Fevereiro? Não podia tolerar tal audácia. Bem devagar, foi-se agachando e preparou-se para voar em direção ao cabide.

O rato, vendo-o no ar, acelerou rumo ao chão e sumiu num pequeno buraco. Fevereiro viu-se, de repente, agarrado a um cabide rodopiando, caindo descontrolado para cima da cadeira de baloiço, que com o balanço o atirou contra a velha máquina de escrever que de repente falava sozinha:

«Brrrrrrrrrrrrrr, plim.»

Desta vez, extrapolara. Era hoje que o iam pôr a dormir no celeiro. Assustado, saiu a correr escada abaixo. A velocidade era tal que só parou contra as pernas do dono, que acabava de chegar.

Belmiro procurou disfarçar o vendaval que assolara a casa, mas não havia como repor a colcha da cama. Dentro de uma hora a mãe estaria de volta e aí o bicho ia pegar.

No chão do quarto espalhou o dinheiro que estava a juntar para comprar o novo skate e contou-o. A decisão não era fácil, mas tratava-se de salvar um amigo.

Quando a mãe meteu a chave à porta, Belmiro e Fevereiro estavam sentados no sofá da sala, muito direitos, sem dizer uma palavra.

– Isto não configura nada de bom – comentou a mãe, olhando-os bem nos olhos.

– É que… bem… quer dizer…

– Deixa ver se adivinho. Tu foste andar de skate, esqueceste-te das horas, o Fevereiro ficou sozinho em casa e… Qual é o desastre desta vez?

Belmiro engoliu em seco, incapaz de pronunciar qualquer palavra. Em silêncio, estendeu-lhe um embrulho com um enorme laço e um cartão que dizia: «Errámos, mas somos apenas miúdos. Perdoa-nos.», assinado com uma pata de gato e uma mão de menino.

A abertura da caixa revelou uma colcha um tanto chinfrim, bem diferente da bela colcha de cetim, mas ali estavam todas as economias do filho.

– É a colcha mais bonita que alguma vez recebi – disse, abraçando-o. – Vá lá, vem cá tu também. – Fevereiro saltou para o seu colo e brindou-a com uma marradinha e várias lambidelas, daquelas reservadas aos amigos.

Quita Miguel

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ISOLAMENTO

Pintou as janelas, deu cera nos corrimões da escada e pendurou os reposteiros.
Com afinco dedicou-se ao trabalho exterior, aquele que a preenchia. Cuidou do jardim. Plantou flores, varreu folhas velhas e oleou a cancela.

Quando...
terminou, a noite era sua companheira, limpa e demasiado fria. Agasalhou-se, olhando a placa que daria a conhecer quem ali se isolava.
Tomou a única decisão possível. O apelido ficou preso no arame farpado, indicando que aquele espaço era só seu.

Quita Miguel




 Histórias em 77 palavras:
http://77palavras.blogspot.pt/
 
Desafio nº 60 – apelido preso no arame farpado (frase obrigatória)

sábado, 15 de fevereiro de 2014


NÃO INCOMODAR

 

Quero dizer que cansei. Cansei de fechar os olhos, olhar para o lado, fazer que não vejo. Que não vejo que esta vida se torna cada vez menos vida e mais rotina. Rotina de hábitos, de frases feitas, de sorrisos estudados, de sins que valem nãos.

A lista do ressentimento e da calúnia é longa, porque há sempre quem não consiga deixar o velho vício de escarnecer e mal dizer. Nada há para se discutir ou explicar, a única preocupação é dizer mal.

Muito mais existe do que aquilo que é mostrado, porque em tudo o que de legítimo fazermos, nos ocultamos. Não temos coragem de assumir que não gostamos, que enchemos o saco, que não estamos nem aí para as convicções de tantos. Mas como? Isso seria ir contra o estabelecido. Então, o que irão pensar de nós?

Assustamo-nos continuamente. Aqui e ali interrompemos a dança harmoniosa da vida com medo do desemprego, da violência, das contas a pagar, das crianças a educar e, quando damos por isso, perdemos simplesmente a capacidade de dançar.

Buscamos significados mais profundos para a nossa vida, porque nos sentimos responsáveis: por nós, pelo outro, pelo mundo, pela vida. Mas chegamos sempre tarde demais e acabamos ficando enredados na superficialidade. Bem cedo, percebemos que ninguém diz o que pensa e juntamo-nos a esse grupo por comodidade, por receio, por insegurança. É difícil que algum dia estejamos preparados para a verdade, aquela que pesa, aquela que vemos quando nos olhamos ao espelho e não gostamos da imagem refletida, aquela que nos tortura quando fechamos os olhos e não conseguimos dormir. Mentira, ignorância ou falsa noção de utopia?

Então, construímos à nossa volta uma capa cada vez mais forte, um muro cada vez mais alto, que nos protege mas em simultâneo nos isola.

Atacamos antes que nos ataquem, como se o outro fosse uma permanente ameaça ao nosso lugar no mundo, que nem sabemos bem qual é. Pode ser um bom critério, mas sinto muito dizer que isso não faz parte da vida, nem é natural.

Acordamos a cada dia com raiva de tudo e de todos e começamos a discutir no trânsito, para continuarmos no emprego e terminarmos em casa. E assim se vãos os bons momentos, os momentos fraternos.

Sem grandes conversas nem palavras explicativas, vamos esquecendo o significado de solidariedade, simplicidade, honestidade e carinho. Sentimentos sem os quais, por certo, nem estaria aqui.

Mas há que ter esperança de que esses valores renasçam e não se deixem esmagar sobre o poder de traficantes, que devem achar lindo matar com lentidão os viciados, ou de políticos que no auge da sua corrupção permitem que a má informação, a ignorância e a lavagem cerebral alimentem em parte toda esta insanidade.

Nunca fui muito nacionalista, nem me interessei pela bela representação nacional. Aliás nunca me interessei por nada, pela simples razão de ser nacional. “O que é nacional é bom!”, frase de publicitário, outra área onde a falsidade impera.

Quando deixaremos de ser publicitários e teremos a coragem de encarar o mundo sem óculos cor-de-rosa, sem véus de neblina, sem falsas ilusões? Quando assumiremos no íntimo que cor de pele, condição social, instrução são apenas atributos exteriores e, olhando bem para dentro de nós, conseguiremos descobrir os valores que ocultamos sob a capa social?

Quando é que em vez de dar uma esmola para descansar a consciência, procuraremos contribuir de um modo mais definitivo para dar dignidade ao mundo? Em vez de lhes dar o peixe, porque não os ensinamos a pescar? Frase feita? Infelizmente, sim!

Se tivermos a coragem de gritar «Não!» dormiremos pior? É bem possível, mas por algum lado teremos de começar a limar as pontas, e que pontas ásperas temos para limar.

Ou acreditamos em definitivo que este mundo ainda tem jeito e que temos capacidade de o mudar, ou mais vale mandar tatuar bem no meio da testa: NÃO INCOMODAR.

Quita Miguel

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Nervos de aço


– É mesmo insuportável. Tens a certeza que ele tem de ir connosco?

– Não faças essa cara amuada. É fácil lidar com ele, basta sorrir-lhe quando te fala com duas pedras na mão, ir falando cada vez mais baixo e com mais calma à medida que ele se enerva e grita. A cada ofensa, responder com um elogio. Quando ele perceber que não tem público, o espetáculo acaba.

– Só tens de juntar à receita os nervos de aço.

Quita Miguel
 
Desafio: Uma receita para melhorar alguém em 77 palavras