segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014


Ervilhas com natas

Assim que a cebola picada e as 100 g de presunto começam a refogar nas duas colheres de margarina, a cozinha perfuma-se. Junte ½ kg de ervilhas e tempere com pimenta moída, noz-moscada, tomilho e tudo o mais que a sua imaginação ditar, porque no escrever e no cozinhar o prazer está no criar.
Quando apurar, junte 1,5 dl de natas e, caso a galinha tenha colaborado, pode escalfar um ovo.

Depois é saborear, só ou acompanhado.
Quita Miguel

Desafio: Uma receita em 77 palavras

domingo, 9 de fevereiro de 2014


FECHADO PARA DESCANSO DO PESSOAL

 
Gonçalo estacionou na beira da falésia, saiu do carro e inspirou profundamente, como se quisesse absorver todo o ar que o envolvia. Depois deixou o olhar passear em redor, vendo cada detalhe daquela paisagem deslumbrante. O verde e o castanho, ora escuro, ora luminoso, entrelaçavam-se como que num movimento de dança eternizado por algum bastão mágico, que paralisara plantas e árvores. Nada se movia, nem a mais leve brisa, nem a mais pequena ave. Até o céu se apresentava anormalmente azul para aquela estação do ano, sem uma única nuvem que lhe desse movimento. Era como se o mundo tivesse parado, e ele se defrontasse com uma fotografia.

Tudo aquilo lhe transmitia um sentimento estranho, confuso, agitado, que não conseguia definir.

O som de uma motorizada, que se aproximava, trouxe-o à realidade. Olhou o relógio. Se não queria chegar atrasado ao jantar dessa noite, era melhor meter-se à estrada. Ia ficar noivo. Não pôde evitar um sorriso sarcástico. Como se tinha deixado enlaçar, de modo a não poder retroceder? Numa época em que se vivia sem grandes formalismos, como é que ele podia ficar noivo? Duvidava mesmo que os mais jovens soubessem o significado daquela palavra.

Aumentou o volume do rádio e deixou-se envolver pelo som dos blues. Passou uma mão pelos olhos. Sentia-se cansado, demasiado cansado para pensar com clareza. Olhou-se no retrovisor. Os olhos eram pequenos, profundos e firmes, sob escuras e enérgicas sobrancelhas.

Não podia negar que Beatriz era uma mulher fascinante, linda e culta, mas, existe sempre um mas, nunca se conseguira libertar do pai. O General comandava a família como se estivesse na mais dura das missões. Só se fala sobre temas que interessem ao General e é melhor não ter a veleidade de expressar uma opinião contrária, pois teremos discurso para mais de uma hora, só com o intuito de demonstrar que estamos errados.

Caminhava para aquele jantar como um condenado para a última refeição, durante a qual o seu futuro seria sentenciado e não haveria como voltar atrás. Bem, haver até havia, mas isso seria dizer adeus àquele descapotável, às roupas de marca, ao whisky de 15 anos. Seria o regresso à vida que levava antes de conhecer Beatriz, uma vida comum, apagada, insignificante.

Tentava convencer-se que fizera a escolha certa, na esperança de que tudo fosse diferente quando estivessem casados e pudessem passar sem o regime militar ou, pelo menos, circunscrevê-lo a um ou outro almoço por mês.

De repente, sentiu que o carro perdia velocidade, ao mesmo tempo que o motor silenciava como que adormecido. Devagar virou o volante de modo a colocá-lo na orla da estrada e deixou que este se imobilizasse.

O céu estava a mudar de cor. Os primeiros raios púrpura do crepúsculo começavam a substituir o azul do fim de tarde. Para o ocidente, o pôr-do-sol dava um tom rosa às nuvens que começavam a surgir, trazidas por um vento que iniciava a soprar em pequenas rajadas.

Gonçalo girou a chave na ignição. Nada. Tentou de novo, mas o motor recusava-se a emitir o mais pequeno som que fosse. Tornou-se evidente que não iria chegar a tempo.

Pegou no telemóvel ao mesmo tempo que procurava com frenesim o número da assistência em estrada. Só eles o poderiam salvar da eminente catástrofe. O General nunca permitiria que a única filha casasse com um irresponsável, que deixava cinco dezenas de convidados à espera, porque decidira seguir por uma estrada secundária e não tivera o cuidado de o fazer com a antecedência suficiente, prevendo um eventual percalço. Gonçalo não estava propriamente em guerra, não sentia necessidade de ter em permanência um plano B, mas como explicar isso ao General.

Onde colocara o raio do cartão? Sabia que o guardara, mas onde? Procurou na carteira, no porta-luvas. Por fim encontrou-o. A luz escasseava. Tinha dificuldade em ver os algarismos.

Começou a marcar o número mas logo se deu conta de que não havia rede. Saiu do carro, caminhou um pouco para a direita, depois para a esquerda. Nada.

Começou a sentir um medo misturado com raiva. O medo de ver o futuro a jogar-se naquele momento e a raiva de se sentir impotente para o alterar.

Maldito jantar, maldito carro, maldito telefone. Olhou em volta. Não se via ninguém. O céu começava a ganhar uma tonalidade cinzento-escura. Desta vez, estava perdido. Não sabia mesmo se amanhã haveria tempo suficiente para explicações e conclusões. No cimo da elevação, lá bem ao fundo, viu uma construção que parecia ser um café. Talvez ainda houvesse esperança.

Subiu a encosta, a passo rápido. A casa apresentava um ar mal tratado, mas isso pouco importava desde que tivesse telefone.

A luz começava a escassear quando, arfando, chegou à porta. Ainda teve tempo de ler antes que a noite caísse por completo: Fechado para descanso do pessoal.
 

Quita Miguel

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014


GANHANDO O MUNDO

– Sai-me da frente dos pés, que raio! Vá, vai lá para fora.

Mal a porta se abriu correu pelo jardim, rebolou-se no relvado, correu atrás dos pássaros. Estava feliz porque reconhecera a movimentação de passeio. Adorava quando saiam todos juntos.

Só que naquele dia, para espanto de Damião, após carregarem as malas e entrarem no carro, não o chamaram. Limitaram-se a partir, deixando-o para trás.

Do automóvel que ganhava velocidade, partiu um último olhar, que de imediato se desviou.

Ele correu, implorando que parassem, que não se esquecessem dele, que o levassem também, mas o carro ia ficando cada vez mais longe. No final da rua parou no semáforo. Damião acelerou a corrida. Ia conseguir, ia conseguir, ia conseguir… quando estava apenas a alguns metros o sinal mudou para verde e ele, apesar da corrida desenfreada, permanecia cada vez mais para trás. Quando os perdeu de vista, deixou-se ficar estático no meio do cruzamento sem saber por onde seguir.

– Hei cão maluco. Parece que queres morrer. – Alguém gritou.

Durante alguns minutos andou para trás e para diante, depois regressou a casa e dirigiu-se à janela para se assegurar de que não estava ninguém lá dentro. Tudo permanecia fechado e silencioso.

Não sabe por quanto tempo continuou na mesma posição expectante, os olhos fixos no horizonte como se esperasse por um qualquer sinal. Só que esse sinal não vinha. Sentia-se entre a rendição e a perseverança, entre a certeza de que fora propositadamente deixado para trás e a esperança de que tivesse sido apenas esquecido.

Sentado à luz da lua deixou-se invadir pelo medo, o medo de ficar sozinho, o medo de ninguém o querer, o medo de estar, de forma irremediável, perdido no mundo.

Algures, começou um grilo a cantar. Ao longe, respondeu-lhe outro.

A menina da casa vizinha começou a acariciá-lo. Com ternura, sentada nos degraus da entrada, afundava-lhe os dedos no pelo. «Assim está melhor», pensou, mas logo alguém a chamou, e Damião ficou de novo só.

Não tem ideia de quantos dias passaram, até que o automóvel chegou à porta de casa e os donos desceram. Damião saltou em torno deles, mostrando a sua alegria pelo tão esperado regresso. O dono falava ao telemóvel sem lhe dar atenção, mas o cão não desistia, rodando á sua volta. Contudo, aquilo não pareceu agradar, pois o dono revirou os olhos e gritou-lhe para estar sossegado e parar. Confuso, Damião insistia. Então, o homem começou a ficar furioso, gritou ainda mais alto e voltou para o telefone.

A dona, com uma mão nos cabelos agitados pelo vento, metia com pressa a chave na fechadura. Quando a porta se fechou atrás deles, uma paz miraculosa invadiu-o. A casa acolheu-o. Pousaram a bagagem e sentaram-se como que dizendo: «eis-nos aqui», mas sem proferirem palavra. Damião deitou-se, o focinho entre as patas, olhando ora para um, ora para outro, esperando a tão aguardada festa. Mas a festa não veio.

A dona abriu os braços resignada.

– Vou dar-te um pouco de leite – disse.

Bebeu-o com sofreguidão. Há muito que vivia dos restos que conseguia apanhar nos caixotes ou no prato de algum cão desatento. Não foi dita mais nenhuma palavra. Ambos sabiam o que acontecera.

Então o que fazer? Não só naquele dia, mas nos que se seguiriam.

Recordou-se de quando saiam para trabalhar e ele ficava em casa, sozinho. Gostava de vasculhar tudo. Por vezes chateado, saltava para as costas do sofá e ficava a observar o movimento da rua.

Nunca antes o tinham deixado só, mais do que algumas horas, e nunca fora de casa. Por alguma razão tudo mudara. Pouco a pouco, descobria a realidade do lugar onde vivia. Já não pertencia ali, já não era bem-vindo.

Foi até à porta da rua e ladrou, pedindo que lha abrissem. Quando o fizeram, saiu sem hesitação.

Andou até ao passeio, virou-se e deitou-lhes um último olhar. Desistia, naquele momento, do seu papel de animal de estimação. Era provável que nem dessem pela sua falta.

Um grupo de cães vadios atravessava a estrada. Correu e juntou-se-lhes. Podia ser que pelos da sua espécie, fosse melhor acolhido.

Quita Miguel

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014


Gémeos?

Não estremeceu, porque não chamaram o seu nome. Não sabia nada sobre o assunto. Não tivera tempo de estudar. Também não respirou fundo. Não sabia se não mudariam de ideias.

Seria que não podia sair com passo miudinho? Se o irmão não estivesse de sentinela…

Olhou-o. Não podia contar com ele. Isso também não era novidade.

Não sabia porque ainda se admirava. Tão diferentes, até parecia que não eram irmãos e gémeos. Seria que eram? Ou não?

Quita Miguel

Desafio nº 59 em 77 palavras: incluir 14 vezes a palavra não.

domingo, 26 de janeiro de 2014


A REVOLTA DOS PINCÉIS

 
Afastou-se um pouco e observou com olhar crítico. Hum… Pequenos pormenores e ficaria perfeito. O sol começava a descer no horizonte. Sentia-se cansado, era hora de regressar a casa. Fechou a janela, desceu o estore e dirigiu-se para a porta, deixando o atelier mergulhado na escuridão. O som dos passos, em direção ao elevador, foi diminuindo até desaparecer por completo.

Por algum tempo, o silêncio foi absoluto, até que, se ouviu um desabafo:

– Não posso mais! Tenham paciência, mas não posso mais.

Um burburinho denunciou a agitação que se instalava. 

– Cobardes, vocês são todos uns cobardes. Ele decide tudo: tema, cores, luz, e vocês obedecem apáticos, como se não fosse também obra vossa.

O alvoroço aumentou, e a luz, curiosa, acendeu-se. Quem barafustava daquela maneira? O Pincel nº 4, quem mais... Era um dos mais utilizados, por isso, achava-se no direito de dizer de sua justiça. Todos falavam agora entre dentes, mas ninguém o interpelava com frontalidade.

– Estes temas estão a dar comigo em doido. Ou é a guerra, ou o desgraçadinho que vive na rua, ou o menino que não tem o que comer. Mas este homem não tem nada de positivo para mostrar? Que tal um romântico pôr-do-sol? Lamechas? Talvez seja, mas pelo menos é bonito. Estou farto que se sirva de mim para pintar a preto e cinzento. Eu quero é cores quentes, que vibrem e façam vibrar quem contemplar o quadro.

– Acho que tens razão – disse, por fim, o vermelho. – Estou quase novo. Já nem me lembro quando foi a última vez que ele me destapou.

– Eu pelo contrário estou quase no fim e vivi tão pouco. Não há dia em que ele não me esprema – lamentou-se o preto.

A pouco e pouco, muitos foram manifestando a sua opinião. A luz observava de cima sem intervir, mas olhando para o quadro, dava-lhes razão. Lá estava um menino desgrenhado, de olhar triste e roupas esfarrapadas que, de mão estendida, pedia ajuda a quem passava.

– E se mudássemos o quadro? – perguntou de supetão o Pincel nº 1, que até ao momento se limitara a ouvir.

O silêncio foi imediato. Até então ninguém pensara em agir, só mesmo em criticar, protestar e barafustar. E se fosse esse o caminho? Era possível que o que faltasse fosse apresentar ao pintor uma outra visão da realidade, uma nova perspetiva de encarar a vida, uma diferente forma de sentir.

– Bem, eu por mim estou de acordo – declarou o Pincel nº 4.

– Eu também – respondeu o vermelho, e um após o outro, todos foram dando a sua concordância.

– Hei. Esperem lá. Então e eu não tenho uma palavra a dizer? – interveio o quadro, um tanto irritado. Afinal, era dele que falavam. Não bastava dizerem mal, ainda o queriam mudar. – Eu sou o produto da criatividade de alguém, o que vocês querem fazer é crime. Vocês vão adulterar uma obra de arte. Hei! Que é isso? O que é que estão a fazer? Porque me estão a mudar a roupa?

De nada servia toda aquela oposição. Os pincéis e as tintas trabalhavam em conjunto. Vestiam-no de jeans e T-Shirt vermelha, pintavam um lindo céu azul e colocavam-lhe uma borboleta docemente poisada na mão aberta. Na cara desenhavam-lhe um sorriso e davam-lhe brilho aos olhos. O chão negro era agora de relva verdejante com flores, que o situavam numa primavera harmoniosa.

– Agora sim, agora é um quadro que me orgulho de ter pintado – afirmou o Pincel nº 4.

– Não é só obra tua, é minha também – reclamaram em coro os restantes.

Era, com efeito, uma obra de quase todos. O preto ficara de fora, mas não se importara, soubera-lhe bem o descanso.

De repente, ouviram a chave rodar na porta. Ah não! Não se haviam dado conta das horas e tudo aquilo estava um caos. Petrificados, prepararam-se para o pior. Nem a luz, com o susto, conseguiu ter qualquer reação e permaneceu acesa.

– Mas que revolução é esta? O que é que se passa aqui? – O pintor falava alto, sem conseguir compreender o que acontecera.

Via pincéis espalhados, tubos de tinta abertos, a paleta suja. A primeira reação foi pensar que havia sido alvo de um assalto, mas mirando em volta, verificou que nada faltava. Só nesse momento, os olhos pousaram no quadro.

– O que é isto? Quem se atreveu a entrar aqui só para destruir a minha obra?

– Atchim! – O amarelo, que era muito sensível e não podia estar aberto por muito tempo, não conseguira evitar o espirro.

O pintor percebeu então o que sucedera.

– Com que então, isto é uma revolta! Deixem estar, que dou já um jeito neste atentado à pintura.

Lançou mão do preto e espremeu-o até à última gota. Molhou o pincel e decidido, dirigiu-se para o cavalete. Olhou o quadro, observando cada detalhe. Era a primeira vez que o fazia, desde que entrara. Ficou ali, analisando cada pincelada, com o Nº 2 pronto a intervir a qualquer momento.

Com leveza, a curvatura da boca foi mudando de sentido e um sorriso começou a relevar-se no rosto. Decidido, avançou para o quadro e nele colocou o seu nome.

Quita Miguel

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


A Tremer


Tremeu, imobilizando-se frente ao espelho. Ruborizou, susteve a respiração e uniu a frente da blusa cor de caramelo. Maldito botão que ousara expô-la.
 
Quis dar um pontapé aos que riam, gritar-lhes impropérios, xingá-los. Mas nem murmurou, deixando levedar a vergonha. Se tivesse um buraco onde se enterrar. Porque não dispersavam?
 
Fugiu em ziguezague, buscando a saída. Só parou junto dos nenúfares onde os miúdos jogavam. Então verteu algumas lágrimas, por sentir que não havia quem a amasse.
___________

Desafio em 77 palavras com obrigatoriedade de usar pelo menos uma palavra por letra das indicadas no seguinte quadro:


A – abelha, armar
B – botão, borrifar
C – caramelo, carburar
D – doutor, dispersar
E – entulho, enterrar
F – falésia, fugir
G – galardão, gritar
H – hipótese, haver
I – ilíaco, imobilizar
J – jacaré, jogar
L – livro, levedar
M – mármore, murmurar
N – nenúfar, notificar
O – ovo, ousar
P – pontapé, pronunciar
Q – queijo, querer
R – ruminante, ruborizar
S – sistema, suster
T – trabalho, tremer
U – unha, unir
V – vela, verter
X – xisto, xingar
Z – ziguezague, zurrar
J

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014


Uma demão de tinta

 
– Hoje temos a sobremesa favorita do avô! – anunciou a mãe com o sorriso dos dias felizes.

– E a minha também – declarou Carlos, colocando-se de joelhos na cadeira e estendendo o prato, na esperança de ter prioridade na distribuição do bolo.

Claro que a sorte não esteve do seu lado. «Primeiro os mais velhos», a mãe sempre dizia. Teria de esperar. Ficou ali, de prato em riste, até que uma fatia do bolo de chocolate deslizou na sua direção. Estava uma delícia, como sempre, pena a mãe não o fazer mais vezes. Havia um problema qualquer de calorias, ele nunca percebera bem o quê, mas isso também pouco lhe interessava. O importante era que, em certas ocasiões, a mãe se esquecia daquela ameaça invisível e produzia a sua obra-prima.

– Vá lá, toca a lavar os dentes.

Como os adultos conseguem ser chatos. Porquê tirar já aquele gostinho tão bom? Mas, fazer o quê? Sabia que de nada serviria refilar. Se o fizesse, corria o risco de ficar sem sobremesa ao jantar. Então, engoliu a reclamação e correu para a casa de banho. Depois, teria toda a tarde para brincar. Como era bom estar de férias, melhor ainda quando os pais também estavam. Apesar de, por vezes, serem uns melgas, gostava quando estavam todos juntos.

– Papá, queres tentar bater-me no novo jogo?

– Tarefa impossível, mas vamos lá… – resignou-se o pai, consciente de que iria levar uma abada.

– E tu vôzinho, não queres ver a tareia que vou dar ao papá?

– Não meu amor. Afinal, que há de novo nisso? – respondeu o velho rindo, enquanto vestia o sobretudo. – Depois de um almoço como este, preciso de andar um pouco.

Agasalhou-se e saiu. Apesar do frio, o céu azul, pintado com algumas nuvens ligeiras, convidava a um passeio à beira-mar. Puxou a gola para cima, colocou as mãos nos bolsos e fez-se ao vento. Já não havia a quem dar as mãos, de modo que deixara de usar luvas. A mulher não o acompanhava mais, e o neto já se achava demasiado crescido.

Alguns temerários, como ele, passeavam-se pelo paredão, percorrendo a pé os quilómetros que ligavam Cascais ao Estoril. Outros preferiam a bicicleta ou os patins em linha. Gostava de patins em linha, achavas-lhes uma certa piada. Se fosse mais novo…, mas na sua idade qualquer queda poderia detonar uma avalanche de consequências. Não pretendia arriscar. Talvez o Carlitos um dia se entusiasmasse. No próximo aniversário, era capaz de lhe oferecer, não asas, mas rodas para os pés.

Começou a sentir cansaço e invejou o tempo em que as pernas colaboravam sem olhar para o relógio. Inverteu a marcha e iniciou o caminho de regresso.

Como não lhe apetecia fechar-se em casa, foi sentar-se no jardim frente ao mar, deixando-se embalar pelo sussurro das ondas a alongarem-se na praia. Era um lugar que ajudava a pensar. Fora naquele banco que, ao longo da vida, fizera planos, procurara soluções, rira e deixara cair até uma ou outra lágrima. Era o banco mágico, que ele e a mulher haviam construído e onde encontravam sempre a resposta para qualquer indecisão.

Ela desenhara-o, queria-o diferente de qualquer outro. Ele comprara e cortara a madeira, e ambos o haviam montado e pintado naquela cor forte. «Cor de vida», dissera ela.

Estava a precisar de uma nova demão, talvez a filha o pudesse ajudar. Não que a tarefa fosse árdua, mas o trabalho adquiria outro prazer e significado se feito a quatro mãos.

– Brrr…. que frio. Acompanhas-me num cacau quente? – perguntou a filha, sentando-se ao seu lado e estendendo-lhe a caneca fumegante. – Sabia que te ia encontrar aqui.

Como era bom sentir as mãos aquecerem em torno da caneca.

– Olha ali! Estás a ver aquele gigante? Vê bem se não é assim que podemos imaginar Golias? – O velho apontava as nuvens que deslizavam no céu. – Passei muitas horas com a tua mãe aqui sentado, vendo figuras formarem-se e transformarem-se, umas dando lugar a outras e outras e outras...

– Coisa de artista, eu acho!

– Talvez. É bem possível que o olhar de um artista esteja mais disponível para espelhar a imaginação. A tua mãe ensinou-me a olhar o mundo com os olhos da beleza. Colocava o cavalete aqui, bem em frente, e eu ficava a admirá-la, vendo os traços transformarem-se em seres que ganhavam vida, em paisagens que nos convidavam a entrar, em cores que nos envolviam e nos faziam acreditar que tudo é maravilhoso. Acho mesmo que a tua mãe nunca pintou um quadro triste, melancólico talvez, mas triste não.

– A mãe amava a vida e essa era a sua grande força. Por mais difícil que parecesse a situação ela sempre dizia: «Isto está a acontecer porque tenho algo a aprender, se estiver atenta saberei o quê.» A mãe era uma dessas pessoas que nunca deveria morrer.

– E não morreu, podes estar certa!

O pai pegou na mão da filha e beijou-a. A mãe vivia através dela, através do neto, através dos quadros que pintara e através daquele banco, que ambos haviam construído e que agora precisava de uma demão de tinta.