quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


A Tremer


Tremeu, imobilizando-se frente ao espelho. Ruborizou, susteve a respiração e uniu a frente da blusa cor de caramelo. Maldito botão que ousara expô-la.
 
Quis dar um pontapé aos que riam, gritar-lhes impropérios, xingá-los. Mas nem murmurou, deixando levedar a vergonha. Se tivesse um buraco onde se enterrar. Porque não dispersavam?
 
Fugiu em ziguezague, buscando a saída. Só parou junto dos nenúfares onde os miúdos jogavam. Então verteu algumas lágrimas, por sentir que não havia quem a amasse.
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Desafio em 77 palavras com obrigatoriedade de usar pelo menos uma palavra por letra das indicadas no seguinte quadro:


A – abelha, armar
B – botão, borrifar
C – caramelo, carburar
D – doutor, dispersar
E – entulho, enterrar
F – falésia, fugir
G – galardão, gritar
H – hipótese, haver
I – ilíaco, imobilizar
J – jacaré, jogar
L – livro, levedar
M – mármore, murmurar
N – nenúfar, notificar
O – ovo, ousar
P – pontapé, pronunciar
Q – queijo, querer
R – ruminante, ruborizar
S – sistema, suster
T – trabalho, tremer
U – unha, unir
V – vela, verter
X – xisto, xingar
Z – ziguezague, zurrar
J

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014


Uma demão de tinta

 
– Hoje temos a sobremesa favorita do avô! – anunciou a mãe com o sorriso dos dias felizes.

– E a minha também – declarou Carlos, colocando-se de joelhos na cadeira e estendendo o prato, na esperança de ter prioridade na distribuição do bolo.

Claro que a sorte não esteve do seu lado. «Primeiro os mais velhos», a mãe sempre dizia. Teria de esperar. Ficou ali, de prato em riste, até que uma fatia do bolo de chocolate deslizou na sua direção. Estava uma delícia, como sempre, pena a mãe não o fazer mais vezes. Havia um problema qualquer de calorias, ele nunca percebera bem o quê, mas isso também pouco lhe interessava. O importante era que, em certas ocasiões, a mãe se esquecia daquela ameaça invisível e produzia a sua obra-prima.

– Vá lá, toca a lavar os dentes.

Como os adultos conseguem ser chatos. Porquê tirar já aquele gostinho tão bom? Mas, fazer o quê? Sabia que de nada serviria refilar. Se o fizesse, corria o risco de ficar sem sobremesa ao jantar. Então, engoliu a reclamação e correu para a casa de banho. Depois, teria toda a tarde para brincar. Como era bom estar de férias, melhor ainda quando os pais também estavam. Apesar de, por vezes, serem uns melgas, gostava quando estavam todos juntos.

– Papá, queres tentar bater-me no novo jogo?

– Tarefa impossível, mas vamos lá… – resignou-se o pai, consciente de que iria levar uma abada.

– E tu vôzinho, não queres ver a tareia que vou dar ao papá?

– Não meu amor. Afinal, que há de novo nisso? – respondeu o velho rindo, enquanto vestia o sobretudo. – Depois de um almoço como este, preciso de andar um pouco.

Agasalhou-se e saiu. Apesar do frio, o céu azul, pintado com algumas nuvens ligeiras, convidava a um passeio à beira-mar. Puxou a gola para cima, colocou as mãos nos bolsos e fez-se ao vento. Já não havia a quem dar as mãos, de modo que deixara de usar luvas. A mulher não o acompanhava mais, e o neto já se achava demasiado crescido.

Alguns temerários, como ele, passeavam-se pelo paredão, percorrendo a pé os quilómetros que ligavam Cascais ao Estoril. Outros preferiam a bicicleta ou os patins em linha. Gostava de patins em linha, achavas-lhes uma certa piada. Se fosse mais novo…, mas na sua idade qualquer queda poderia detonar uma avalanche de consequências. Não pretendia arriscar. Talvez o Carlitos um dia se entusiasmasse. No próximo aniversário, era capaz de lhe oferecer, não asas, mas rodas para os pés.

Começou a sentir cansaço e invejou o tempo em que as pernas colaboravam sem olhar para o relógio. Inverteu a marcha e iniciou o caminho de regresso.

Como não lhe apetecia fechar-se em casa, foi sentar-se no jardim frente ao mar, deixando-se embalar pelo sussurro das ondas a alongarem-se na praia. Era um lugar que ajudava a pensar. Fora naquele banco que, ao longo da vida, fizera planos, procurara soluções, rira e deixara cair até uma ou outra lágrima. Era o banco mágico, que ele e a mulher haviam construído e onde encontravam sempre a resposta para qualquer indecisão.

Ela desenhara-o, queria-o diferente de qualquer outro. Ele comprara e cortara a madeira, e ambos o haviam montado e pintado naquela cor forte. «Cor de vida», dissera ela.

Estava a precisar de uma nova demão, talvez a filha o pudesse ajudar. Não que a tarefa fosse árdua, mas o trabalho adquiria outro prazer e significado se feito a quatro mãos.

– Brrr…. que frio. Acompanhas-me num cacau quente? – perguntou a filha, sentando-se ao seu lado e estendendo-lhe a caneca fumegante. – Sabia que te ia encontrar aqui.

Como era bom sentir as mãos aquecerem em torno da caneca.

– Olha ali! Estás a ver aquele gigante? Vê bem se não é assim que podemos imaginar Golias? – O velho apontava as nuvens que deslizavam no céu. – Passei muitas horas com a tua mãe aqui sentado, vendo figuras formarem-se e transformarem-se, umas dando lugar a outras e outras e outras...

– Coisa de artista, eu acho!

– Talvez. É bem possível que o olhar de um artista esteja mais disponível para espelhar a imaginação. A tua mãe ensinou-me a olhar o mundo com os olhos da beleza. Colocava o cavalete aqui, bem em frente, e eu ficava a admirá-la, vendo os traços transformarem-se em seres que ganhavam vida, em paisagens que nos convidavam a entrar, em cores que nos envolviam e nos faziam acreditar que tudo é maravilhoso. Acho mesmo que a tua mãe nunca pintou um quadro triste, melancólico talvez, mas triste não.

– A mãe amava a vida e essa era a sua grande força. Por mais difícil que parecesse a situação ela sempre dizia: «Isto está a acontecer porque tenho algo a aprender, se estiver atenta saberei o quê.» A mãe era uma dessas pessoas que nunca deveria morrer.

– E não morreu, podes estar certa!

O pai pegou na mão da filha e beijou-a. A mãe vivia através dela, através do neto, através dos quadros que pintara e através daquele banco, que ambos haviam construído e que agora precisava de uma demão de tinta.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


A PRETO E BRANCO

Dois dias após a mudança, a casa permanece um labirinto de caixas. Dizem que as mudanças são boas para colocarmos ordem na vida e jogar no lixo metade das inutilidades que nos perseguem. Comigo não funciona. Admiro cada objeto com os olhos da memória. Todos eles contam um pouco da minha vida.

Olha este baú! Há quanto tempo não o abro. Afago-o, sinto a madeira gasta pelo tempo e, antes de levantar a tampa, sirvo-me de mais chá. Com todo o tempo que não tenho, abro-o e é uma avalanche de passado que me absorve.

Fotos a preto e branco, daquelas que só quando eram reveladas, sabíamos se o fotógrafo se portara a contento. Passo uma a uma. Podia talvez colocá-las num álbum. E o espaço? Sempre o espaço. Afasto uma caixa para ganhar um mais pouco de sofá e de conforto.

Demoro-me numa em especial. A minha avó e os dedos ágeis que, sem medo da agulha que mordia a grande velocidade, costurava quase para toda a vila. As pernas, já cansadas, mostravam-se ligeiras no pedal da máquina de costura. Gostava de a observar. Seguia cada movimento com olhar atento, pensando: «a minha avó é uma artista».

Parece que naquela altura se envelhecia mais, mas mais devagar. Quando terminava uma costura, colocava-me no colo e dizia-me: «Um dia ensino-te.»

 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Cocas Sofia

As horas prosseguiram com embrulhos, filhós, decorações e histórias de

natais anteriores.


«É impossível que tudo fique pronto a tempo», pensei ao ser requisitada

para ajudar na maior parte das tarefas.

A meia-noite soou, e o ritual mais esperado teve início.

Rasgou-se papel, soltaram-se gargalhadas, brindou-se em família.

Depois dos presentes abertos, a minha mãe surgiu com outra caixa. De

dentro dela espreitava a Cocas Sofia, a cadelinha que acompanharia o

meu percurso para a idade adulta.
 
 
Desafio Rádio Sim nº 9 – A melhor prenda que recebemos na nossa vida
(não precisa de ser material, pode ser emocional)

terça-feira, 7 de janeiro de 2014


Martinha


Desafio: Incluir no texto de 77 palavras a frase: «Era uma criança parruda e baixinha, de cara divertida.», livro Azul-corvo de Adriana Lisboa.

 

Quando regressei à aldeia de onde partira, havia tantos anos que lhes perdera a conta, a primeira pessoa que vi fez-me retornar aos tempos de infância em que corríamos pelos cantos até o sol se esconder atrás das colinas.

Era como se a Martinha, amiga inseparável que fizera as vezes da irmã que nunca tive, estivesse ali. 

Era uma criança parruda e baixinha, de cara divertida. Chamava-se Marta como a mãe e, como ela, percorria as colinas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


O PAÍS DOS LAMPIÕES

 
Bem no interior da Floresta do Silêncio situava-se o País dos Lampiões. A ele se acedia por uma imensa escadaria de pedra rosada, guardada por um anjo, que com o poder da invisibilidade mantinha aquele lugar mágico, à devida distância dos humanos.


Ali, os lampiões viviam em plena liberdade, brilhando em todos os tons e em qualquer horário. Verdadeiros festivais de cor flutuavam até aos céus, num eterno ondular de energia. Desde os mais pequenos e menos brilhantes, às enormes luzes hexagonais, todos detinham o seu lugar na orquestra colorida.

No início de cada anoitecer, os animais sentavam-se ao redor da Clareira do Pinheiros, deliciando-se com o espectáculo de luz e cor sempre igual, mas sempre diferente, porque o maestro era a energia que de todos emanava, exprimindo através da luz, os sentimentos mais íntimos de cada um.

Durante décadas esta rotina se repetiu a cada dia, e uns anjos após os outros, todos cumpriram no percurso de evolução, o papel de guardião do País dos Lampiões.

Naquele dia de final de Outubro, o tempo estava quente, e a noite convidava a um passeio ao ar livre. Alguns anjos reuniam-se no bar da nuvem 808 para esticar um pouco as asas e refrescar as penas. Ali se contavam histórias do mundo da luz e se saboreava o batido de neve, com uma pitada de raio, que o anjo Juvenildo criara há cerca de um século.

O tema de conserva dessa noite era o tempo, e a boa disposição e serenidade a dominante do ambiente, até o anjo Pendular, após percorrer com o olhar tudo em redor, perguntar:

– E por falar na mudança da hora, quem é que está agora como guardião do País dos Lampiões?

Fez-se um silêncio sepulcral. Os anjos Rufino e Virgílio olharam-se sem acreditar no que viam. Se eles os dois estavam ali, quem guardava o País dos Lampiões?

– Mas, era você que devia estar de guarda! – afirmou Rufino.

– Como assim? O seu turno ainda não acabou, o tempo retrocedeu uma hora – rebateu Virgílio peremptório.

– Sim, mas essa hora não é minha, é sua.

– Como minha?

– Basta! – gritou o anjo Pendular, dando um murro na mesa. – Vão de imediato para o posto de vigia e rezem para que tudo continue nos seus devidos lugares.

Tarde demais. Os humanos subiam já os degraus e alcançavam o patamar, donde vislumbravam um brilho de luzes de todas as dimensões, cores, formas e cintilações. Alguns permaneciam boquiabertos perante tão inédito espectáculo, outros porém corriam estrada fora aproximando-se das primeiras luzes. Com um cuidado receoso tocaram-lhes, verificando que se mexiam como se tivessem vida própria, que se afastavam e fugiam deles, mas nunca deixando de brilhar.

«Uma luz daquelas valia bom dinheiro, se a conseguisse agarrar», pensavam alguns. E logo começaram a imaginar como poderiam capturar a luz. Procurar agarrá-la com as mãos de nada servia, pois era demasiado ágil e escapava-se-lhes entre os dedos, mudando de forma. O que primeiro fora uma estrela, era agora uma esfera, para logo em seguida se transmutar num polígono ou numa borboleta.

Os anjos observavam sem poder interferir. Aquele deixara de ser um lugar mágico. Ao ser invadido pelos humanos, saíra do seu círculo de actuação e não podiam senão lamentar o erro irreparável que haviam cometido. Somente a saída voluntária dos humanos lhes retornaria o poder de domínio sobre aquelas terras, mas isso não parecia provável.

 As luzes brilhavam cada vez com maior intensidade, tal era o terror que sentiam, e esse brilho atraía ainda mais os humanos, que idealizavam já armadilhas para as resgatarem.

– Temos de fazer alguma coisa – disse o dinossauro escondido atrás da enorme rocha que ladeava a cachoeira. Tinha os pés molhados há já muito tempo e isso incomodava-o, mas a sua dimensão não lhe permitia ocultar-se noutro lugar.

– Sim. Mas o que é que podemos fazer? – perguntou a hiena, rindo sem saber porquê.

As cabeças mais pensadoras do reino animal trabalhavam em uníssono, procurando a solução. Por fim, o leão bocejou, espreguiçou-se com languidez e disse:

– É bem simples. – Todos o olharam incrédulos. – Basta aí o grandalhão fazer uma aparição, dar um dos seus belos grunhidos e correr na direcção deles. Verão como saem mais depressa do que entraram.

Valia a pena tentar. Assim como assim, ninguém conseguira ter uma ideia melhor. O dinossauro respirou fundo, afastou o cabelo dos olhos e aprumou-se. Depois ganhou fôlego e num único salto apareceu bem no meio da Clareira dos Pinheiros, soltando um grito gutural.

Atropelando-se uns aos outros, os humanos corriam lívidos pela ladeira que conduzia à escadaria, logo descendo sem sequer olhar para trás.

À saída do último dos humanos, os anjos Rufino e Virgílio apressaram-se a utilizar os poderes para tornarem, de novo, aquele lugar invisível.

Já na cidade, os homens contaram a grande descoberta e muitos grupos voltaram em busca de tão grande tesouro, mas nunca mais conseguiram descortinar a entrada do País dos Lampiões.

Quita Miguel

 

sábado, 21 de dezembro de 2013


UM SEGUNDO DE VALOR

 
A confusão era grande na fábrica do tempo. Uma avaria, surgida não sabia de onde, fazia com que alguns minutos tivessem apenas 59 segundos. Assim que o controlo de qualidade se apercebera de tal falha, bloqueara a produção, e agora o stock de minutos disponível estava quase a esgotar-se. Se não conseguissem retomar o fabrico, o mundo viraria um caos.

Os melhores técnicos de produção do tempo reuniram-se de emergência, mas apesar de horas de análise sem interrupção, não conseguiam detectar a falha.

– Um vírus, só pode ser um vírus! – afirmara o Prof. Século com o ar convicto que a idade lhe concedia.

– Nada disso – cortava irreverente o Engº Ano, cuja juventude não o impedia de expressar uma opinião segura. – Trata-se de uma irregularidade na linha de contagem. Por alguma falha, que ainda não identificámos, a cada dezena a linha conta mais um sexto, daí que, no final, falte um segundo em cada minuto.

– Eu sou da opinião que deveríamos primeiro analisar a produção de segundos. É possível que seja aí o problema. Poderemos ter segundos com duração superior à standard.

Todos olharam com respeito para o Dr. Década que, até ao momento, estivera como que ausente da reunião. Quem sabe se não teria razão?

De imediato, se constituiu um grupo de trabalho para analisar a constituição dos segundos e dos minutos.

Na ala leste da fábrica, os mais jovens temporizadores corriam em todas as direcções, agrupando as milésimas de segundo. Cada segundo produzido era colocado num suporte que, quando completo, transitava para a ala sucessiva. Aí eram descarregados e agrupados em minutos.

O grupo de trabalho observava de longe a azáfama das alas. Tudo parecia correr como descrito no processo. Decorrida uma hora de observação e análise contínua, preparavam-se para abandonar o local e redigir o relatório que asseguraria que a produção respeitava quanto estipulado, quando o Sr. Semana gritou, apontando para o fundo da sala: “Está ali o defeito!”

Do extremo oposto, um temporizador esforçava-se por manter o ritmo dos restantes, mas o facto de coxear ligeiramente, fazia com que se atrasasse de um modo quase imperceptível. O suor inundava-lhe a face e, com o rosto de dor que não conseguia evitar, tudo fazia para não abrandar, mas era inegável que era mais lento, se bem que milionesimamente mais lento que os restantes.

O Sr. Semana foi elogiado, e teve até direito a louvor na ordem do dia, pelo facto de ter evitado que o mundo se desregulasse temporalmente.

O Conselho Sénior dava por encerrada a reunião, validando o regresso à normalidade secular, quando o jovem Arquitecto Mês irrompeu pela sala do Conselho, manifestando todo o seu desagrado pelo modo como os humanos usavam o produto por eles fabricado. Eram horas, dias, meses e mesmo anos desperdiçados em picuinhas, atrocidades, destruição. Porque é que os fazedores do tempo se deveriam esforçar tanto, se depois todo o seu zelo era jogado no lixo?

Antes que o Conselho se refizesse da entrada não anunciada, já o jovem Mês ocupara a varanda que dava sobre o pátio central e, com voz grave e imponente, se dirigia a todos aqueles que aproveitavam o período de folga.

– Colegas temporizadores, chegou o momento de valorizarmos o nosso trabalho. A cada dia, produzimos tempo da melhor qualidade e para quê? Para que os humanos o desperdicem da maneira mais vil. Basta olharmos um pouco sobre a terra, para ver focos de violência em todos os continentes. A idade não é mais algo que mereça respeito, a infância não é mais uma época que se percorra brincando, a família não é mais o braço que sustém e ajuda a crescer. O tempo que nós produzimos é bem mais valioso que tudo isto.

No largo, os temporizadores começavam a agitar-se e a manifestar palavras de acordo. Na sala do Conselho, o ambiente era de preocupação, e havia mesmo quem quisesse chamar os controladores para pôr fim àquele discurso arrivista.

– Nada disso – interveio o Prof. Século, revendo-se naquele jovem impetuoso, que o tempo ensinaria a ser mais paciente.

– Por isso, meus companheiros, proponho que façamos greve. – O Arquitecto Mês aguardou expectante a reacção.

– Sim! – gritaram todos em coro, sem saber, de facto, o que isso significaria.

– Mas uma greve direccionada à qualidade do tempo – clarificou o Mês. – Não iremos pôr fim ao tempo, mas iremos repetir cada dia até que os humanos aprendam a dar valor a cada minuto e mesmo a cada segundo. Proponho que a partir das zero horas de hoje se repita o mesmo dia até que cada segundo seja tratado como merece.

Ao aplauso geral que se elevou do largo inundado de temporizadores, juntou-se o Conselho, presidido pelo Prof. Século, que abertamente apoiava o jovem Mês. Os outros, não querendo ficar para trás, deram também a cara por esta causa. Desde então, é sempre dia de Natal.