domingo, 10 de novembro de 2013


Que golpe!


O golpe deixou-a sem ar, tonta. Depois massajou o polegar.

Era um daqueles momentos em que coas os pensamentos, procurando encontrar a saída do caos, mas as únicas ideias que tens são ocas de sentido.

Duas suaves batidas na porta apressaram-na. «Que saco!», pensou. Sentia asco até da velha soca que espreitava debaixo da cama.

Não falaram muito durante o trajecto para o hospital, onde o médico, desinteressado, empurrou o caso para o enfermeiro:

– Quero que cosa!

sábado, 9 de novembro de 2013


Aposentado

– Senta-te lá aí sossegado. Que raios!
– Desculpa – murmuro olhando os cacos da chávena que as minhas mãos não conseguiram segurar e entristeço-me ao perceber que os canso. Sou lento a chegar ao fim da rua, mas os meus passos às vezes ganham vontade própria. Lamento, se faço as mesmas perguntas vezes sem conta, mas a minha memória nem sempre as retém. Sei que não tenho a energia de outros tempos, mas perdoem-se se recuso aposentar-me da vida.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Desafio nº 54 em 77 palavras

A TERRÍVEL NOTÍCIA

Naquela noite saíra de casa com o peso da terrível notícia, da palavra que não pudera mais ser calada. Um mar de emoções invadira-o, deixando-lhe o coração deserto. O susto retirara-lhe qualquer ousadia, e fora a imoderação que o fizera partir sem destino, ignorando qualquer regra.

 Queria ter amansado a curiosidade que desmascarara a verdade revelada em confidência.
Queria ter abandonado o quarto, antes que a mãe lhe tivesse sussurrado, tristemente:

 – Ele não é o teu pai.
 


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Desafio Nº 53 (77 palavras)

SUSSURRO

No sussurro das árvores ouvimos o vento, que rodopia através de ramos, e admiramos a maleabilidade com que elas se moldam à sua força.

Por vezes, sopra com subtileza, quase como uma carícia. Noutras alturas, chega desenfreado, arrancando flores e frutos e deixando o pomar com sentimento de perda.

Mas, nem assim elas se vergam. Persistem orgulhosamente de pé, esquecem os pedaços que o vento levou e almejam já os novos frutos, que pesarão nos seus ramos.

domingo, 13 de outubro de 2013

Nota de Margarida Fonseca Santos no Facebook

Pascoal - Ousar Vencer, de Quita Miguel

11 de Outubro de 2013 às 15:17
Partilho convosco um livro que, imagino, irá tocar o coração de muitos...
Trata-se de Pascoal - Ousar Vencer, o primeiro livro de Quita Miguel, acabo de publicar pela Ed. Estampa.
A Quita tem-se cruzado comigo em várias situações: conversas sobre livros, pequenos cursos de escrita, as histórias em 77 palavras e, o que me marcou bastante, na EscritaCriativaOnline, onde pude acompanhar, semanas a fio, histórias de uma qualidade rara. Posso dizer-vos que ficámos amigas, mas também posso dizer-vos que admiro muito a sua escrita.
Ficou claro para mim, logo aos primeiros esboços, que estava perante alguém que, não só tinha uma escrita muito original, muito sua, como também era portadora de uma sensibilidade que não se encontra com facilidade. Mais interessante ainda, sabe partilhá-la.
Capaz de juntar humor e dramatismo, aventura e reflexão, carinho e revolta, os seus textos ganham uma dimensão humana muito particular, capaz de tocar o leitor e (para mim o mais importante) levá-lo a pensar por si.
Esta sua primeira história, Pascoal - Ousar Vencer, é um romance juvenil. O tema central, a adopção, é tratado com o cuidado de carregar em teclas fundamentais: as dúvidas, os receios, a expectativa, a esperança, a desilusão, o medo da dependência, o medo da independência, o choque de gerações e a capacidade de mudar. Como pano de fundo, temos a infinita capacidade de amar.
É um livro comovente, que vai deixar o leitor preso do princípio ao fim e que o fará tomar partido, pensar, colocar-se no lugar de cada personagem e sentir a complexidade do tema.
Aconselho-vos a ler este livro. Sei que se irão comover - eu comovi-me, muito.
Parabéns à Quita Miguel, pois entrou com chave de ouro no mundo da literatura infanto-juvenil.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sonhos de flauta

O maestro marcava o compasso, mas da flauta só silêncio saía.
Foi a trompa a salvar a situação com o seu potente sopro. Pelo chão derramou-se uma música confusa, pois as notas não sabiam se eram colcheias, semicolcheias ou semifusas.
Num suave ruído, a flauta confessou o seu sonho. Ser clarinete. E, na sua ilusão musical, pensava que, se se empanturrasse de notas, poderia crescer e tornar-se num. 
Mas, ou se nasce clarinete, ou não se nasce.

Quita Miguel

Desafio nº 52 – uma história com música, ruído e silêncio

http://77palavras.blogspot.pt/

sábado, 28 de setembro de 2013

Notas de autor, na TSF
A semana passada, as notas de autor,
a parceria TSF - SPA
estiveram a cargo da escritora Margarida Fonseca Santos
Aqui ficam os programas:




Segunda, dia 23 de Setembro - o romance "Deixa-me Entrar na Tua Vida" - ouvir

Terça, dia 24 de Setembro - o blog histórias em 77 palavras - ouvir

Quarta, dia 25 de Setembro - apresentar a banda portuguesa Joana Prata - ouvir

Quinta, dia 26 de Setembro - Brasil em Transe, na Fábrica de Braço de Prata - ouvir

Sexta, dia 27 de Setembro - Índice Médio de Felicidade, de David Machado,
e Pascoal - Ousar Vencer, de Quita Miguel - ouvir