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sexta-feira, 7 de março de 2014


Por Amor

Por amor seco-te a lágrima que recusas deixar cair, amparo a tua subida quando as pernas te pesam, seguro a tua mão quando o medo se instala.

Por amor rio contigo da piada sem graça e ouço atenta a história que contaste vezes sem conta.
Por amor acaricio-te os cabelos ralos e dou-te o comer à boca quando as mãos te tremem.

Por amor garanto-te que tudo vai ficar bem e, vendo o teu olhar de dúvida, digo-te: «Se não acreditas em mim, acredita ao menos Nele!»
Quita Miguel

domingo, 2 de março de 2014


RUMO AO JARDIM

Quando o senhorio apareceu naquele dia de Ano Novo, o corpo entufado, lembrando o Perú de Natal, que mutilado jazia no frigorífico, adivinhava-se que a notícia não seria boa.
O contrato de arrendamento não seria renovado.
 

– Avisei que não admitia animais – afirmou com a segurança de ser o detentor da última palavra.
– O que o senhor disse foi que não podia ter cães, ora eu só tenho gatos. – O argumento de Hilária era fraco, como os seus pulmões.
«A menina não pode ter gatos, tem de se desfazer deles», insistira o médico. «Antes morrer», respondera ela, num tom que não admitia réplica.
– Tem um mês para me devolver a chave, nem mais um dia. – Não havia margem para desculpas. Era uma sentença sem recurso.

 
Vendo-a distraída e triste, os gatos circundaram-lhe as pernas. A pressão teimosa das marradinhas e o ronronar cadenciado devolveram-lhe a convicção de que não havia maravilha maior do que o bem-querer.
– Prevê-se um furacão para o fim do mês? Pois então, aproveitemos o dia. – Colocou o cachecol, apertou o casaco, olhou-se ao espelho e voltou atrás para colocar um pouco de batom. Aprovando o resultado, pegou na mala e decidida desceu os degraus.
Partiram os três, rumo ao jardim despido pelo inverno, as sombras refletindo-se no chão, revelando o poder escondido no interior de cada um.


Quita Miguel

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


A PRETO E BRANCO

Dois dias após a mudança, a casa permanece um labirinto de caixas. Dizem que as mudanças são boas para colocarmos ordem na vida e jogar no lixo metade das inutilidades que nos perseguem. Comigo não funciona. Admiro cada objeto com os olhos da memória. Todos eles contam um pouco da minha vida.

Olha este baú! Há quanto tempo não o abro. Afago-o, sinto a madeira gasta pelo tempo e, antes de levantar a tampa, sirvo-me de mais chá. Com todo o tempo que não tenho, abro-o e é uma avalanche de passado que me absorve.

Fotos a preto e branco, daquelas que só quando eram reveladas, sabíamos se o fotógrafo se portara a contento. Passo uma a uma. Podia talvez colocá-las num álbum. E o espaço? Sempre o espaço. Afasto uma caixa para ganhar um mais pouco de sofá e de conforto.

Demoro-me numa em especial. A minha avó e os dedos ágeis que, sem medo da agulha que mordia a grande velocidade, costurava quase para toda a vila. As pernas, já cansadas, mostravam-se ligeiras no pedal da máquina de costura. Gostava de a observar. Seguia cada movimento com olhar atento, pensando: «a minha avó é uma artista».

Parece que naquela altura se envelhecia mais, mas mais devagar. Quando terminava uma costura, colocava-me no colo e dizia-me: «Um dia ensino-te.»