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quarta-feira, 15 de julho de 2015



EXORCIZANDO A REVOLTA

Detesto modas, daquelas que chegam e se instalam como verdades inabaláveis, realidades indiscutíveis e factos irrefutáveis.
O “team building” é uma dessas novas/velhas teorias que anda na boca de muitos. Não sou contra a teoria em si, mas contra o uso que dela se faz, imaginando, de uma forma algo ingénua, que um ou dois workshops podem reparar os estragos de uma gestão afastada do Ser Humano.
Meia dúzia de teorias, que algum iluminado conseguiu vender como eficazes, são debitadas como o remédio milagroso, só equiparável à tão conhecida banha-da-cobra.
Pretendem dar-te um genérico para o estômago, quando o problema está no coração, quando te maltratam a alma e te sufocam a paixão.
É a vitória da hipocrisia, dos falsos elogios que escondem as críticas que te tatuam nas costas.


Questionamo-nos sobre o motivo da civilização estar cada vez mais doente, mais esgotada, exibindo um modo deprimente de ser. É simples: porque matamos a verdade. Porque, na maior parte das vezes, falta-nos coragem para sermos coerentes com as crenças que nos impulsionam e limitamo-nos a ser politicamente corretos.
Entregaste-te, durante uma vida, estás esgotado, ansiando por um copo de água e, com toda a pompa e circunstância, dão-te uma medalha incapaz de te matar a sede.
Olhas-te ao espelho e percebes o quanto estás só, o quanto tu não és mais do que um número, que serve enquanto fores dando tudo de ti em troca de quase nada.
Hoje, sinto uma profunda tristeza por pertencer a esta humanidade desumana, a esta máquina castradora de sonhos e estupradora de ideais. Espero que o dia em que despertemos para o verdadeiro significado da vida não seja tarde demais.

Quita Miguel

sábado, 15 de fevereiro de 2014


NÃO INCOMODAR

 

Quero dizer que cansei. Cansei de fechar os olhos, olhar para o lado, fazer que não vejo. Que não vejo que esta vida se torna cada vez menos vida e mais rotina. Rotina de hábitos, de frases feitas, de sorrisos estudados, de sins que valem nãos.

A lista do ressentimento e da calúnia é longa, porque há sempre quem não consiga deixar o velho vício de escarnecer e mal dizer. Nada há para se discutir ou explicar, a única preocupação é dizer mal.

Muito mais existe do que aquilo que é mostrado, porque em tudo o que de legítimo fazermos, nos ocultamos. Não temos coragem de assumir que não gostamos, que enchemos o saco, que não estamos nem aí para as convicções de tantos. Mas como? Isso seria ir contra o estabelecido. Então, o que irão pensar de nós?

Assustamo-nos continuamente. Aqui e ali interrompemos a dança harmoniosa da vida com medo do desemprego, da violência, das contas a pagar, das crianças a educar e, quando damos por isso, perdemos simplesmente a capacidade de dançar.

Buscamos significados mais profundos para a nossa vida, porque nos sentimos responsáveis: por nós, pelo outro, pelo mundo, pela vida. Mas chegamos sempre tarde demais e acabamos ficando enredados na superficialidade. Bem cedo, percebemos que ninguém diz o que pensa e juntamo-nos a esse grupo por comodidade, por receio, por insegurança. É difícil que algum dia estejamos preparados para a verdade, aquela que pesa, aquela que vemos quando nos olhamos ao espelho e não gostamos da imagem refletida, aquela que nos tortura quando fechamos os olhos e não conseguimos dormir. Mentira, ignorância ou falsa noção de utopia?

Então, construímos à nossa volta uma capa cada vez mais forte, um muro cada vez mais alto, que nos protege mas em simultâneo nos isola.

Atacamos antes que nos ataquem, como se o outro fosse uma permanente ameaça ao nosso lugar no mundo, que nem sabemos bem qual é. Pode ser um bom critério, mas sinto muito dizer que isso não faz parte da vida, nem é natural.

Acordamos a cada dia com raiva de tudo e de todos e começamos a discutir no trânsito, para continuarmos no emprego e terminarmos em casa. E assim se vãos os bons momentos, os momentos fraternos.

Sem grandes conversas nem palavras explicativas, vamos esquecendo o significado de solidariedade, simplicidade, honestidade e carinho. Sentimentos sem os quais, por certo, nem estaria aqui.

Mas há que ter esperança de que esses valores renasçam e não se deixem esmagar sobre o poder de traficantes, que devem achar lindo matar com lentidão os viciados, ou de políticos que no auge da sua corrupção permitem que a má informação, a ignorância e a lavagem cerebral alimentem em parte toda esta insanidade.

Nunca fui muito nacionalista, nem me interessei pela bela representação nacional. Aliás nunca me interessei por nada, pela simples razão de ser nacional. “O que é nacional é bom!”, frase de publicitário, outra área onde a falsidade impera.

Quando deixaremos de ser publicitários e teremos a coragem de encarar o mundo sem óculos cor-de-rosa, sem véus de neblina, sem falsas ilusões? Quando assumiremos no íntimo que cor de pele, condição social, instrução são apenas atributos exteriores e, olhando bem para dentro de nós, conseguiremos descobrir os valores que ocultamos sob a capa social?

Quando é que em vez de dar uma esmola para descansar a consciência, procuraremos contribuir de um modo mais definitivo para dar dignidade ao mundo? Em vez de lhes dar o peixe, porque não os ensinamos a pescar? Frase feita? Infelizmente, sim!

Se tivermos a coragem de gritar «Não!» dormiremos pior? É bem possível, mas por algum lado teremos de começar a limar as pontas, e que pontas ásperas temos para limar.

Ou acreditamos em definitivo que este mundo ainda tem jeito e que temos capacidade de o mudar, ou mais vale mandar tatuar bem no meio da testa: NÃO INCOMODAR.

Quita Miguel