Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Conto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de novembro de 2014


Tropeção

 
Acabou de atender a última cliente, uma mulher bonita, com um sorriso bem-disposto. «É uma boa forma de terminar o dia», pensou ao trancar a porta. Em seguida, colocou a mão na base da grade de metal e preparava-se para a puxar em direção ao solo, quando sentiu o cano frio de uma arma na nuca. A esta, seguiu-se uma pressão nas costas. Uma mão que o empurrava contra o vidro, enquanto um bafo quente lhe ordenava ao ouvido: “Abra já a porta!”

– O que disse? – perguntou Valter, fazendo um movimento para se tentar libertar, mas logo desistindo ao ouvir a ameaça:

– Ena! Quer armar-se em herói. Se fosse a si pensava melhor, com certeza, não lhe pagam para levar uma bala nos cornos.

A ideia de permitir que aquele pulha se apoderasse do que estava à sua guarda enojou-o. Contudo, o ladrão não deixava de ter razão, refletiu. A farmácia não era sua, não havia o que defender, que levasse o que quisesse. Depois veria como explicar ao patrão. Num impulso, girou um pouco a cabeça, mas logo uma coronhada o obrigou a olhar em frente.

– Vamos lá ver, então, se nos entendemos. – A voz soou com uma tal frieza que o corpo de Valter gelou.

Pelo canto do olho, viu a manga amarrotada de um casaco velho. Como demorasse a obedecer, o homem voltou a empurrá-lo contra o vidro, sempre com a mesma brutalidade. Então, decidiu deixar para depois as perguntas que lhe fervilhavam na cabeça e agir com prudência. De modo atrapalhado, procurou a chave no bolso das calças, baixou-se até que a mão chegasse perto do chão, inseriu a chave na fechadura, rodou-a e a porta abriu-se.

Uma mão agarrou-o pela gola do casaco, não permitindo que se afastasse, enquanto a outra continuava a segurar a arma que voltava a roçar-lhe a nuca. Pensou na mulher e nos filhos, que o aguardavam em casa, e temeu pela vida. Entristeceu ao reconhecer que, no fundo, não precisavam dele. Não passava de um padrão de fracasso, que, há já algum tempo, deixara de se respeitar a si mesmo. No entanto, tudo o que tivesse feito ou deixado de fazer durante a vida perdia importância perante aquela ameaça.

Sentiu que o assaltante olhava em volta, procurando algo. Seria uma pessoa conhecida que ali fosse com frequência, ou alguém que entrava pela primeira vez, aproveitando a ocasião em que a rua se encontrava deserta? Não reconhecia aquela voz.

A medo olhou o relógio. Já perdera o comboio e isso, que tantas vezes o irritara, pareceu-lhe irrelevante. De repente, um frio intenso envolveu-o, como quando algo de ruim está próximo e, de novo, foi empurrado, desta vez, em direção da porta que conduzia à outra sala. A escuridão caiu sobre si como uma onda enorme e impiedosa. Tateou em busca do interruptor, mas antes que pudesse acender a luz, uma voz gritou-lhe ao ouvido.

– O frigorífico?

Valter apontou para o canto do lado direito.

– A morfina. Toda! – exigiu o homem, fazendo-lhe sinal para que se apressasse.

Demorou algum tempo, até conseguir acalmar-se o suficiente para avançar e abrir o pequeno frigorífico. Pegou num saco com uma mão e com a outra, que não podia evitar que tremesse, retirou, com fervor, os pequenos frascos. Entregou-os ao ladrão, esperando que isso pusesse fim àquele episódio.

– Fique aqui até eu estar bem longe ou mesmo até amanhã – retorquiu o gatuno, soltando uma gargalhada.

Sem conseguir emitir qualquer som, Valter fez sinal com a cabeça de que entendera. Estava paralisado, não conseguiria dar sequer um passo. Não eram só as mãos que lhe tremiam, mas também as pernas, os braços. Todo ele tremia sem conseguir parar.

Deixou-se ficar imóvel no escuro, tentando convencer-se de que estava a salvo.

De repente, ouviu um estrondo. Assarapantado, tropeçando nas próprias pernas, Valter foi até à outra sala e olhou para a rua. Estatelado, à saída da porta, estava o assaltante que segurava ainda o saco com a morfina. Ao seu lado, resmungando, um cego que procurava a bengala, apalpando o chão.
 
Quita Miguel

quinta-feira, 6 de novembro de 2014


DEIXANDO-SE IR
 
 
Virgínia e Wilson partiram em direções diferentes, deixando-me a indecisão de quem seguir. Não pretendia enfrentar a vida sozinha, mas também não queria ter de escolher entre um deles. Afinal, até ontem éramos inseparáveis.

Lembrei-me das vezes que abdicara dos meus sonhos para que a nossa união permanecesse indestrutível, e agora, ambos me viravam as costas e se viravam as costas. Éramos um triângulo desfeito e só havia duas formas de o consertar. Ou encontrávamos um caminho comum, ou dois teriam de abraçar o caminho do outro.
 
Segui para casa, sentindo-me uma criatura espezinhada. A cada passo, a cabeça gritava-me para seguir em frente, enquanto no coração se instalava o pânico e construía um imenso pesar. Uma legião de pensamentos revoltosos começou a ganhar uma torturante dimensão.
 
Antes de entrar em casa, cobri-me com um manto de indiferença para ocultar a dor. Não iria dar à minha mãe o gosto de me atirar à cara: «Estás a ver como eu tinha razão. Tenho sempre. Fartei-me de te avisar que não devias ser dependente de amizades. Ninguém é confiável. Quando menos esperas, viram-te as costas. Agora, talvez me dês razão.»
 
Não, não lhe ia dar esse gosto. No entanto, no íntimo, não posso deixar de reconhecer que ela não está de todo errada, só não gosto que se vanglorie, fazendo-me sentir cravejada de espinhos. Sei que me deixei emaranhar numa teia tecida de linha podre, da qual não sei como sair.
 
Sou uma criatura simples que se comove com facilidade, uma sonhadora que se perde nas nuvens, um ser que se abraça às árvores. Como posso pensar seguir arquitetura ou design industrial? Eu converso com a natureza, construo sonhos coloridos, mas Virgínia ou Wilson não precisam de sonhar para se sentirem vivos.
 
– Não… não. Desta vez, não vou ceder – afirmo diante do espelho, numa tentativa de me autoconvencer, apesar da cratera que se abre no meu peito.
 
Que motivo tenho eu para abdicar de mim, pergunto-me ao longo do dia, enquanto tento colar os cacos em que o meu coração se transformou. Uma ligeira batida na porta do quarto apanha-me desprevenida e quando a porta de abre, ainda limpo as lágrimas.
 
– Então, já disseste à tua mãe que vamos para arquitetura? – pergunta Virgínia, que sem cerimónias se atira para cima da cama.
 
Olho para o chão, porque não tenho coragem de a encarar e, numa tentativa de afogar as palavras que se recusam a sair, bebo diretamente do gargalo da garrafa de água que tenho sempre à cabeceira da cama. Depois penso: «Talvez arquitetura não seja tão mau assim. Posso criar jardins internos ou envolvendo os edifícios. A dificuldade pode estimular-me a imaginação e dar-me o ponto de partida para criar novas soluções. E depois, posso sempre dedicar-me ao meu jardim nos tempos livres. É! Talvez arquitetura não seja uma má ideia.»
 
Por volta das oito e meia saímos, às nove estamos diante da casa de Wilson.
 
– Gosto muito de vos ver – diz ele, convidando-nos a entrar.
 
Enquanto eles falam, eu distraio-me com os meus pensamentos, imaginando-me daí a alguns anos, depois de ter concluído o curso na Universidade, com louvor, claro, porque quando me meto numa coisa é para ser uma das melhores.
 
– Achas que temos uma vida privilegiada? – Oiço Virgínia perguntar, com o ar provocatório que gosta de usar, e estico o ouvido na direção deles.
 
– Privilegiada, não! Se temos várias hipóteses de escolha é porque somos bons. – Wilson sempre se achou com direito a tudo e nunca se deixa perturbar pelas tentativas de Virgínia para o arreliar.
 
Os argumentos prosseguem por mais algum tempo, e percebo que ela está quase a convencê-lo a mudar de ideias, e que arquitetura é, cada vez mais, uma realidade possível.
 
Releio o meu coração e sinto-me enojada com a minha fraqueza. De repente, tudo fica turvo.
 
Reabro os olhos a tempo de ver o médico a sair. A enfermeira, com um sorriso no rosto, dá-me a boa notícia de que fora apenas uma queda de tensão. Se ela soubesse a tensão em que a minha vida se transformou, compreenderia o quanto está errada.
 
Os meus pais arrastam-me até casa enquanto, a cada trinta segundos, me pergunto: «Porquê? Porque é que não consigo ser eu mesma?»
 
– Já sei que escolheram arquitetura – oiço o meu pai dizer, olhando-me pelo retrovisor.
 
– O quê? – pergunto de forma automática.
 
– Não imaginas como fiquei orgulhoso com a tua escolha. Estou contente por o bom senso ter tomando conta da tua cabeça, esqueceres essa ideia absurda de paisagismo e seguires as minhas pegadas.
 
Engulo em seco e emudeço de novo. Como posso trair as expetativas do meu pai?
 
Encolho-me no banco e penso: «Quem sabe, quando festejar o meu décimo oitavo aniversário, ganho coragem para ser eu?!»
 
Quita Miguel
 
 
 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014


LADRÃO DE SONHOS


( conto com que participei no concurso «Receitas Secretas».)

Os habitantes de Tènanrev andavam com umas olheiras de meter medo ao mais corajoso dos mortais. Há várias semanas, que não conseguiam sonhar ou, pelo menos, não se recordavam de o fazer, e as suas almas ressentiam-se, mostrando-se famintas de fantasias.

Não escalavam mais os montes cobertos de oiro erguidos para o céu, nem se deitavam à sombra de árvores de safiras, nem se banhavam em rios ladeados de rubis.

Reunido o Conselho, Pantiei assumiu o comando, pondo fim ao burburinho que se instalara:

– Vamos lá ver, têm de entender uma coisa: há que agir! São os sonhos que alimentam as nossas almas. Sem eles, definhamos e acabamos por perecer.

– Quer dizer que se não sonharmos morremos? – Atmia, o mais jovem dos conselheiros, ria perante ideia tão absurda.

Como é que o sonho podia ter tamanho poder? E alma? Até agora, ninguém provara a sua existência e, muito menos, que precisava de mantimento.

– A noite foi criada para que a alma pudesse nutrir-se, e isso é feito através dos sonhos – esclareceu Pantiei com a convicção que a idade lhe dava.

– Pensei que fosse por existir um movimento de rotação – argumentou Atmia mordaz.

– Tamanha ignorância sobre o conhecimento ancestral da tua raça é mesmo de fazer dó. Contudo, se quiseres aprender és bem-vindo, caso contrário podes sair, há, com certeza, alguém disposto a ocupar o teu lugar.

– Não se irrite, vá lá. Eu só… – O olhar duro de todos os conselheiros afogou-lhe a palavra.

Atmia ainda vacilou perante a discussão do caminho a seguir e quase se levantou para argumentar que não caberia a miúdos de sete anos missão tão arriscada, mas permaneceu sentado. Votou a favor, e foi tudo.

 

– Vamos mais depressa! – Shaktiá andava sempre acelerada.

– Tá! – respondeu Raiel, apurando o ouvido para detetar os ruídos no interior da fortaleza, ao mesmo tempo que tentava focar o olhar. – Pantiei disse que há uma passagem secreta por aqui, mas não vejo nada.

Continuaram a gatinhar naquele túnel apertado até que um estrondo os sobressaltou.

– Devemos estar a passar por baixo do terminal das vertijonaves, a passagem deve ser por aqui. Procura qualquer coisa do lado direito, que eu tendo do esquerdo. – Shaktiá percorria cada centímetro de parede com os dedos frágeis, ao mesmo tempo que tentava conter o espirro, que ameaçava soltar-se a qualquer instante.

Escondida atrás duma saliência, Raiel encontrou uma pequena argola, enfiou o dedo e puxou. O inesperado aconteceu: o chão abriu-se, engolindo os gémeos. Foi impossível evitar o grito, enquanto escorregavam por uma descida que parecia não ter fim.

Um splash violento pôs termo à viagem.  Aquilo não fora boa ideia. Agora, para além de perdidos, estavam encharcados e, pior que tudo, a sobrevivência de Tènanrev dependia deles.

– Não resolvemos nada, ficando aqui à espera de um milagre. – Shaktiá despiu-se, torceu a roupa e, com um arrepio, voltou a vesti-la.

Raiel imitou-a.

Olharam em volta em busca de direção. Tudo parecia igual. Foi então que suou algo parecido com uma gargalhada longínqua.

Foram andando, sem fazer barulho, até que a luz tremeluzente de uma fogueira lhes revelou a presença do ladrão de sonhos. Era um vulto enorme, de cabelos longos, sentado diante de um imenso ecrã preenchido com os sonhos aprisionados, que se repetiam de modo incessante. Ele olhava-os hipnotizado e, de vez em quando, ria.

Recordaram as palavras de Pantiei: «Encastrado num tronco de uma árvore milenar, vão encontrar o Livro da Essência Onírica. Aí está a receita que permitirá anular o feitiço. Mas, atenção! Não podem retirar o livro, porque tudo se desmoronará.»

– Agora é que estamos tramados. Olha para ali. – Raiel apontava para a clareira.

Bem no centro, estava a árvore. Como passar pelo bandido?

– Só há uma solução. Eu distraio-o e tu esgueiras-te até lá. – Mal Shaktiá acabara a frase e já saltava a poucos metros do malfeitor. – Hei ladrãozito, estás a divertir-te?

O monstro, de pernas enferrujadas por falta de exercício, levou tempo a levantar-se. O esforço de cada passo era tal que quase desistiu. Contudo, Shaktiá insistia na provocação, na tentativa de o afastar da árvore milenar, e o grandalhão, vaidoso do seu poder, não iria permitir que um ser minúsculo o desafiasse. Devagar, foi-se arrastando na sua perseguição.

– Gostas de festas? Anda que vamos dançar ou será que os quilitos a mais não te deixam mexer? – espicaçava a miúda.

Assim que o homenzarrão se afastou, Raiel aproximou-se do tronco onde repousava o Livro da Essência Onírica. Só então, quando se preparava para o abrir, reparou que as mãos estavam a tremer.

– Ó mamã, ó guias, anjos e arcanjos, protegei-me nesta hora – disse, fechando os olhos e colocando as mãos sobre a capa de madeira talhada. – Livro de todos os saberes e de todas as verdades, revelai-me a secreta receita de libertação dos sonhos. 

Continuou, proferindo as palavras que Pantiei lhe havia ensinado, colocando nelas toda a convicção e fé.

Deixou que os dedos escolhessem o momento de abrir o livro, e quando este se descerrou, revelou-se um folclore de cores e cheiros.

Imagens ganhavam vida, desprendiam-se do interior do livro e dançavam diante dos olhos de Raiel. Fascinado, o rapaz fixava cada detalhe da receita que de materializava na sua frente. Quando tudo terminou, o livro fechou-se e como que por magia o jovem despertou bem no centro da cidade, onde todos aguardavam por algo que os libertasse daquele marasmo cruel.

 

– É isto aqui? – perguntou Atmia, com a boca seca e com dificuldade em articular as palavras.

Para se redimir, oferecera-se para recolher um dos ingredientes, mas não pensara que isso o levasse tão longe.

Recebendo as sementes da rosa-do-deserto, Raiel aproximou-se do caldeirão onde o leite de amêndoas doces fervia, sob as chamas intensas da fogueira.

Quando Pantiei se aproximou, Raiel perguntou-lhe:

– Acha que esta poção também libertará a minha irmã?

– É claro que sim, mas teremos de a encontrar para que ela a possa beber.

O rapaz procurou afastar da mente as imagens do ladrão perseguindo Shaktiá. Se a queria ajudar, era necessário que se concentrasse na receita.

Recontou as sementes. Teriam de ser 77 de cada espécie. Em seguida, confirmou que no seu bolso permanecia o ingrediente secreto. Então, respirou fundo e deu início à invocação:

– Distenksyon, pai de todos nós, invocamos o teu nome para que nos auxilies na libertação dos nossos sonhos. Entregamos-te as sementes de Drosera para que a generosidade sempre habite o nosso coração, as sementes de Lophophora para que a temperança nos guie, as sementes de pachycau para que a ética nunca nos abandone e as sementes de lótus para que o amor seja o nosso alicerce.

Em seguida, Raiel pegou um punhado de incenso e atirou-o para a fogueira, fazendo com que o ambiente se perfumasse, e, aproveitando a distração de todos, retirou do bolso a pequena flor e murmurou:

– Distenksyon, ofereço-to a flor da árvore dos saberes, para que nos concedas a magia da libertação.

Quando a flor foi adicionada ao cozinhado, produziu-se uma explosão que a todos deixou sem voz. Porém, bastaram apenas alguns segundos para que um rumor se fizesse ouvir, quando um duende surgiu do interior do caldeirão e declarou:

– Tendes perante vós a bebida mágica que vos tornará imunes ao roubo de sonhos. Cada um deverá tomar uma colher de sopa, mas terá de o fazer durante a próxima hora. Depois, a poção perderá o seu efeito.

O atropelo foi tão grande quanto o anseio por ter os sonhos de volta.

Pantiei aproximou-se de Raiel, que sobressaltado observava o assalto ao caldeirão, e entregou-lhe um pequeno frasco, dizendo:

– Bebe a tua parte e vai em busca da tua irmã. Recorda-te de que tens apenas três quartos de hora.

O facto de serem gémeos, deveria facilitar as coisas, pensou Raiel. Se conseguisse estar tranquilo poderia sentir a irmã, o problema é que era-lhe impossível encontrar serenidade com os minutos a escassearem.

Foi até à unidade central da fortaleza, percorreu o túnel e aceitou o novo splash sem se demorar sequer a torcer a roupa.

Correu, esperando que o estivesse a fazer na direção certa. Haviam passado mais de dez minutos quando ouviu:

– Ainda acha que me apanha, senhor ladrãozito? Ups! – Shaktiá deixou que um pé se enfiasse num ramo, acionando uma armadilha.

O ladrão, ao vê-la pendurada de cabeça para baixo no tronco da árvore, parou para recuperar o fôlego e soltar uma gargalhada.

Raiel percebeu que o tempo disponível se reduzira, porque agora ele teria de salvar a irmã antes que o monstro se aproximasse. Foi gerindo a corrida, procurando evitar qualquer ruído, consciente de que a surpresa jogaria a seu favor.

Do cimo da árvore, Shaktiá viu o irmão aproximar-se e mudou de estratégia:

– Hei, grandalhão! Apressa lá o passo para me tirares daqui. A vista é bonita, mas já estou cansada de estar de cabeça para baixo.

Funcionara. O monstro parava e observava-a com um sorriso na carranca. Ia deixá-la sentir-se como uma jabuticaba durante mais alguns minutos.

Raiel aproveitou para atar uma trepadeira entre duas árvores a um palmo do chão. Depois começou a falar com a irmã como se o ladrão não existisse:

– A mãe mandou-me vir trazer-te o antidoto para o feitiço – disse, mostrando-lhe o pequeno frasco –, mas não sei se tu o mereces.

– Dá-mo! Dá-mo! – implorou Shaktiá.

– Não sei, lembras-te daquela vez que me acusaste de copiar o trabalho? Isto para não falar das inúmeras vezes que te escondes no momento de levantar a mesa. Acho que não mereces. É melhor que fiques sem sonhar por um bom tempo.

– Não, por favor. Eu prometo levantar a mesa e arrumar o quarto durante dez luas. Vá lá, dá-me isso.

Acreditando que as crianças se haviam esquecido dele, o monstro foi-se aproximando de Raiel. Mais um passo e agarro-o, pensava. Só que esse passo a mais foi a sua desgraça. Os pés embaralharam-se na trepadeira e a terra estremeceu quando o seu corpanzil se estatelou no chão.

O rapaz não perdeu tempo, correu em direção à irmã e atirou-lhe o frasco, que ela se apressou a desenrolhar:

– Argh! Isto sabe mesmo mal.

– Só tu para te preocupares com o sabor – comentou o irmão, enquanto amarinhava pela árvore e lhe soltava o pé. – Vamos depressa, temos de ir até à árvore milenar. Só ela nos pode fazer regressar.

Quando chegaram á clareira, viram os sonhos a desaparecer do imenso ecrã, até este ficar completamente branco. A poção funcionara.

– Anda! – Raiel puxou a irmã pela mão e conduziu-a ao Livro da Essência Onírica.

– E agora?

– Não sei – confessou o miúdo.

– Não te armes em parvo. Já prometi que arrumo tudo.

Um grito de raiva rasgara o ar. O ladrão conseguira levantar-se e, verificando que a presa desaparecera, demonstrava toda a fúria.

Os gémeos precisavam agir depressa ou acabariam entre as suas garras.

Raiel decidiu deixar que a intuição o guiasse. Colocou uma mão sobre o chakra cardíaco e outra sobre o livro e permitiu que as palavras brotassem:

– Pelo poder que deténs, te peço que nos devolvas ao povo de Tènanrev.

Passos pesados ressoavam, revelando que o monstro se encontrava cada vez mais próximo. Raiel procurava ouvir o seu coração, mas o medo dificultava a busca da palavra certa. Naquele momento, um berro dilacerou-lhe os ouvidos. O urro desesperado do ladrão, ao ver que os sonhos haviam desaparecido, fez o chão tremer e, por isso, ou porque o espírito da árvore ancestral se compadeceu deles, os miúdos foram sugados, aterrando de forma atrapalhada aos pés de Pantiel, o único que os aguardava acordado.

Quita Miguel

quarta-feira, 15 de outubro de 2014


O INSOLENTE


Com uma fúria zelosa, a que não estava habituada, Zahira olhou a sala, quase pronta para a festa. Foi à cozinha buscar cubos de gelo, colocou mais uma cadeira e deu uma última vista de olhos ao ambiente. Estava tudo impecável.

Ouviu um leve bater à porta, no preciso momento em que a família, que mora do outro lado da casa geminada, começava o que ameaçava ser mais uma discussão. Só esperava que não fosse interminável.

Colocou um sorriso e abriu. Era Bela que, para surpresa, não vinha sozinha. Engoliu a raiva que o inesperado sempre lhe provoca e esforçou-se por ser simpática, mas ao ver Adão agir como se conhecesse a casa, indo direito ao velho rádio de consola transformado em bar e servindo-se de uma bebida, não pôde evitar dizer, com escárnio:

– O teu amigo chegou cheio de sede.

Chocada, Bela olhou-a com reprovação.

– Como o mundo é pequeno. – Adão interpunha-se entre as amigas, ignorando o mal-estar que se instalara.

– Desculpe!? – Zahira olhou-o incrédula.

– Quando a conheci com a Bela, lá na rua do castelo, disse para comigo: «Espero vir a encontrá-la algum dia» e, agora, aqui estamos.

Zahira procurou no baú da memória, contudo os olhos negros como tições de Adão, nada lhe diziam. Fez menção de se afastar, mas o ar de censura da amiga, manteve-a por perto, prolongando os instantes de angústia até ao soar da campainha.

A sala começou a povoar-se de pessoas alegres e educadas, contrastando com a falta de modos do penetra.

Da casa ao lado, irrompeu o som de loiça a estilhaçar e fez-se um longo silêncio, quebrado apenas pelos sons violentos que Adão produzia a beber e a sugar os cubos de gelo.

A anfitriã perguntava-se que mais iria acontecer. Não queria parecer indelicada, mas assim que Adão se afastou, desta vez com um Martini na mão, dirigiu-se à amiga, manifestando a sua revolta:

– Nunca pensei que tu descesses tão baixo.

– Ele é viril e agressivo. É isso que te irrita.

– Não seja parva. Vamos encarar a situação, Bela.

– O quê? O que se passa? Queres discutir isto aqui mesmo? – A voz soava a falso e o sorriso era frouxo.

– Tens de fazer alguma coisa – exigiu Zahira, seguindo com o olhar Adão que, depois de atravessar a sala, pegara, sem cerimónia, no telefone fixo e discava um número.

A controvérsia foi interrompida pela aproximação de um convidado. Bela pigarreou e olhou para o rosto corado de Zahira.

Ponderados prós e contras, a estratégia exigia de Bela muita atenção. Não podia queixar-se. Apesar do aparente desastre, estava satisfeita por ter permitido que a amiga e Adão se tivessem conhecido. Quem sabe, ela esqueceria de vez a ideia fixa de permanecer só para sempre. Enfiou um cigarro entre os lábios cor de coral e acendeu-o. De longe procurou examinar o rosto da amiga, mas os olhos mal se viam por causa da luz ténue e do fumo que povoava a sala.

Zahira estava sentada no sofá, muito direita. Começava a sentir-se cada vez pior, era como se o estômago quisesse sair das marcas. Ansiou fugir dali, pegar na bicicleta e pedalar sem fim. Ou talvez pudesse meter um saco de papelão na cabeça, porém isso não deveria pôr termo à depressão que começava a emergir. Quando e como acabaria aquela maré adversa que a perseguia há meses? Uma chuvada teria sido nociva para a festa, mas aquilo! Adão era uma afronta, que não deveria andar por aí à rédea solta.

– Bela, ele é teu amigo, não é? Mas é também qualquer coisa muito grosseira, que não era suposto estar aqui. Tudo isto vai acabar muito mal.

– Oh, meu Deus! – exclamou Adão, a babar-se. A sofreguidão com que levara o copo à boca fizera-o entornar parte do conteúdo. – Livra! – vociferou, procurando recompor-se.

Inacreditável. Era a pessoa mais barulhenta que Zahira alguma vez conhecera. De repente, decidida, ordenou à amiga:

– Dá-me o número de telefone desse Adão.

Pela cara, Bela percebeu que Zahira estivera a pensar em qualquer coisa, e temeu que não fosse agradável.

– Mas ainda não comeste nada. Anda, vamos beliscar qualquer coisa, depois tratamos disso. – Bela puxou-lhe por um braço, contudo, Zahira estava demasiado excitada para colocar o plano em prática e tudo o que não queria, no momento, era pensar no estômago.

– Que nós é que sabes fazer? – perguntou, perante o olhar inquieto de Bela.

– O que é que queres dizer com isso?

Zahira arrastou-a para fora da sala e deu-lhe uma corda.

– Quero que faças um nó daqueles de tipo móvel. Como das cordas dos enforcados, estás a ver?

Bela fixou-a assustada. O que é que aquela louca teria em mente?

– Não me olhes assim, que não vou matar ninguém. Vá, ao trabalho. Só te quero na sala quando isso estiver pronto. É o mínimo que podes fazer.

Virou-lhe as costas e deixou-a ali, de corda na mão, sem saber por onde começar. Recordou-se do tempo em que frequentara os escuteiros. Nessa altura, fora obrigada a aprender uma meia dúzia de nós, no entanto havia já passado tanto tempo. Era boa naquilo, mas seria que ainda se recordava? As duas primeiras tentativas foram desastrosas, contudo, a pouco e pouco, foi-se relembrando e, por fim, fez o nó certo.

Bela sentiu-se triste ao perceber que se enganara a si própria, ao pensar que Zahira ficaria feliz com o convidado surpresa. Desanimada regressou à sala, informou que a tarefa estava cumprida e não procurou sequer ativar a fantasia, para imaginar o que Zahira estava a tramar, tanto mais que o sorriso perverso da amiga a assustou.

Adão satisfazia a gula com pedaços de queijo, quando sentiu o telemóvel vibrar. Engoliu apressado e atendeu, ouvindo uma voz suave e insinuante:

– Ouvi dizer que és atlético, não mo queres mostrar?

Reconheceu a voz de Zahira, mas não conseguindo acreditar procurou-a com os olhos. Desaparecera.

– Então, não respondes? Parece que me enganei.

– Não, não. Espera, não desligues! – Adão sonhava já em tocar-lhe a pele e beijá-la como um verdadeiro macho.

Zahira indicou-lhe onde ir e acrescentou:

– Mas, antes de abrires a porta fechas os olhos. Essa é a condição. Se os abrires, podes dar meia volta e desaparecer.

O rapaz agiu como exigido e, com os olhos bem cerrados, rodou a maçaneta da porta.

– Entra sem medo. Não tens nada em frente. Agora, para!

Zahira agarrou-o pelo braço, conduziu-o para um canto e fê-lo sentar-se numa cadeira.

Passou-lhe um dedo pela cara e recomendou:

– Mantém os olhos fechados até eu dizer.

Adão tremia de ansiedade.

Com cuidado, ela fez a corda passar a cabeça e atingir o tronco, depois, num gesto rápido, apertou e fixou-a à cadeira.

– Hei? O que é isto? Estás maluca? O que é que estás a fazer? Desamarra-me!

– Vais ter possibilidade de sair daqui, quando a festa acabar. Até lá, mantem-te pianinho porque senão, para além de te tirar os movimentos, arranco-te o pio.

Quita Miguel

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


A FISGA


— Acertei — gritou Joaquim Claudio, triunfante, enquanto preparava de novo a fisga. — Como prometi, a partir deste momento, tudo o que eu abater é para ti.

– É melhor irmos embora. E se nos apanham?

– Achas mesmo que o velho se dá ao trabalho de vir até aqui? – perguntou o rapaz, fazendo pontaria a mais um alperce.

– JC!

– Que chata! O que foi agora? – Joaquim Claudio virou-se irritado e logo percebeu que ou agia rápido ou estavam feitos.

O homem, que todos os dias roncava à sombra da oliveira, surgia ao fundo da rua, levantando poeira com passos firmes e decididos.

Deram-se trinta segundos para recolher alguns frutos, antes de começar a correr, batendo com os pés no rabo. Numa questão de minutos, estavam num troço de estrada livre. Percorreram mais alguns metros e viraram à esquerda.

– Acho que ele nos reconheceu – declarou Larisa, quando conseguiu alcançar o irmão. – Não o ouviste chamar o teu nome?

Joaquim teria passado bem sem essa informação.

Foram seguindo pelo meio das árvores, não só em busca de sombra, mas também na tentativa de se camuflarem. Quando chegaram ao largo da igreja, esconderam-se atrás de um carro e ficaram observando a entrada da aldeia.

Felizmente, àquela hora, não se via ninguém na rua.

– Estou a morrer de calor – lamentou-se Larisa. – Porque é que não nos escondemos na igreja? Lá é fresquinho.

Entraram em silêncio e foram caminhando pela nave até junto do altar. Ficaram por ali, apreciando a fresquidão, que contrastava com os 38 graus que quase lhes torrara os miolos.

– Confessa e pede perdão. – A frase ressoou no interior do templo.

Viraram-se assustados, esperando ver o homem na igreja, mas não havia ninguém.

– Jesus, és tu que estás a falar comigo? – perguntou Larisa com ingenuidade, olhando a imagem que a fixava.

– És mesmo parva! Como se Jesus falasse – declarou Joaquim.

– Alguém falou. Tu também ouviste. Ora se não há aqui ninguém, quem pode ter sido?

Os irmãos olharam-se assustados, lembrando-se das histórias de almas penadas que se contavam na aldeia.

– Joaquim, estou à espera! – A voz fez-se ouvir de novo, num tom mais duro.

O miúdo tremeu. Imaginava-se já a ser agarrado por algum fantasma e arrastado até casa do pai, homem de poucas palavras e muitas ações.

Escondido atrás da porta da sacristia, o padre sorria e engrossando a voz, continuava a convidar os irmãos à confissão.

– Hoje à noite eu rezo, juro que rezo – murmurou Larisa, agarrando o braço do irmão.

Era evidente para o padre que aquela dupla havia feito alguma e agora estava com a consciência pesada. Pensou aparecer e acompanhá-los a casa, obrigando-os a revelar o que se esforçavam por ocultar, mas não teve tempo.

Leo irrompeu pela igreja, vermelho, não só de calor, mas sobretudo de raiva.

– Ladrões, seus ladrõezitos de meia tigela. Onde é que está a fruta? Onde?

Os miúdos, sem soltar palavra, mostraram os poucos alperces que tinham conseguido agarrar.

– Muito bem. Já que gostam assim tanto de fruta estão requisitados para ajudar na confeção das compotas. E não é só hoje, é até ao fim do mês. – Leo, sem aguardar réplica, pegou cada um por uma orelha e começou a percorrer a nave da igreja em direção à saída.

– Não se preocupem, crianças – disse o padre, enquanto caminhava na direção deles com a Bíblia na mão. – Deus é sempre justo.

Quita Miguel