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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Novas Coletâneas

Já andam por aí.
O meu conto «Hospedaria Carmim» está incluído na coletânea «Aquela Viagem», enquanto participo na coletânea «Eu Tenho um Sonho...» com o conto «Sonho Esventrado».
Os livros estão disponíveis nos sites da Wook e da Bertrand.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014


PARA LÁ DA LÓGICA

 
Vejo-te entusiasmada com a camisola.

– É para o teu pai – dizes-me com um sorrisinho malandro, esquecida do presente.

Acompanho-te no sorriso para te sossegar, sem te recordar que o pai morreu no ano passado.

Deixo-te entregue ao tricot e vou-me embora.

– Margarida Maria! – Oiço chamar. Volto-me e aguardo que a diretora me alcance. – Precisamos falar.

Sento-me, disposta a ouvir. Relata-me as tuas fases de esquecimento, cada vez mais frequentes, e a necessidade de acompanhamento médico regular.

Nada mais lógico, eu sei, mas incomoda-me aquele jeito autoritário de conduzir cada conversa. Podia dizer-lhe que também eu sei o que é melhor para ti, mas calo-me, cansada de chorar por dentro, cada vez que não te recordas de quem sou.

Afasto-me, sem a encarar, evitando falar o que penso e dirigindo para ti um último olhar.

Terminaste mais uma carreia e aprecias o andamento da manga. Vejo-te uma chama de amor no olhar. Quem sou eu para a apagar?

Pelo caminho relembro os ditames da diretora. É necessário estimular-lhe a memória. Vejo nessa determinação uma dose de bom senso e imagino já modos de te cativar a atenção. Estabeleço mentalmente uma série de exercícios que poderemos fazer em conjunto. Penso em jogos, em leituras, em fotografias. Começo a organizar a rotina, que deverá ser tudo menos uma rotina, caso contrário não te cativará.

Dou uma última revisão ao esquema. Parece-me excelente.

Vou direito à estante e procuro o último álbum de fotografias. É já antigo. As mais recentes estão no computador. Escolho algumas, passo-as para o tablet. Hesito. Talvez fosse melhor imprimi-las. Arrisco. Quem sabe as novas tecnologias me ajudam a trazer-te ao presente.

 

Há um mês que iniciámos estas brincadeiras, como lhe chamas. Hoje fazemos palavras cruzadas. Sempre foste boa nisso. Agora, quando a palavra não te vem de imediato, sinto-te triste, insegura. Contudo, não é isso que se passa hoje. Tens apresentado uma memória excelente, digna dos teus melhores dias. Percebo que queres dizer-me qualquer coisa, mas falta-te coragem ou procuras a forma melhor de o fazer.

– Podemos parar um pouco? – perguntas-me.

Coloco a revista em cima da mesa e olho-te:

– Sentes-te cansada?

Com a cabeça dizes-me que não. Depois agarras-me nas mãos, acaricias-mas:

– São tão jovens. A pele suave… bem diferentes das minhas. Não quero parecer egoísta, nem cobarde, mas tenho um pedido para te fazer.

– O que quiseres mãezinha.

– Devemos respeitar o tempo, Margarida Maria, saber quando chegou a hora de deixá-lo impor-se vitorioso. Ultimamente tem sido mais fácil lembrar-me das coisas, mas isso não significa que a minha vida se tenha tornado mais fácil.

Olho-te com interrogação e quando me vou manifestar, interrompes-me:

– Espera, deixa-me acabar. Quando somos velhos e ficamos sozinhos, rodeados por outros como nós, o pior que temos é a realidade.

– Se eu pudesse – tento explicar-te o que já sabes.

– Eu sei, minha filha. Eu sei que te dói deixar-me aqui e que só o fazer porque não há alternativa. Juro-te que compreendo, mas isso não evita que me sinta só e triste. Sabes quando sou feliz?

Digo-te que não e tu prossegues com um sorriso:

– Quando não me lembro que o teu pai morreu e penso que vai entrar a qualquer momento. Quando acho que tu ainda és uma criança que precisa de mim. Quando acredito que no Natal, a família se vai reunir à mesa. Sou feliz quando o meu passado é o meu presente. Por isso, queria pedir-te que me permitisses esquecer.

Não é lógico o que me pedes, mas como posso eu sobrepor a lógica à felicidade. Afinal, isso é tudo o que quero. Que sejas feliz.

Guardo as palavras cruzadas e prometo voltar no dia seguinte, só para te ver.

Beijas-me de novo, agora com uma ternura ainda maior, talvez por receares amanhã não saberes quem sou, e recomendas-me:

– Não te esqueças! Cumpre tudo o que prometeste e se algum dia eu não souber quem tu és, não fiques triste. Não é por falta de amor, é por falta de presente.

Quita Miguel

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014


OLHANDO O MAR

 
Manfredo limpou a cera dos ouvidos com o lápis e começou a concentrar-se na contagem. Primeiro as notas, depois a pilha de moedas que se encontrava na caixa registadora. Impressionado, assentou o número numa folha de papel e despejou o dinheiro para dentro do saco. Fora um bom dia.

– Ele vai adorar este peso, não vai, senhora Valentina? – perguntou, agitando o saco.

Valentina não lhe respondeu. Adormecera, com a cabeça ruiva pousada num monte de jornais velhos, acumulados em cima da mesa. Manfredo observou-a: o cabelo caído sobre a testa e os malares vermelhos do blush que, com nervosismo, espalhara até aos olhos.

A porta almofadada abriu-se com força, e o jovem dirigiu-se ao balcão, batendo no chão com as biqueiras metálicas das botas de cowboy. Manfredo, com um sorriso velado, estendeu-lhe o saco e um papel com o valor.

O rapaz piscou-lhe o olho e saiu, deixando a porta bater. Valentina acordou, levantando-se espavorida.

– Está na hora de ir andando. Já fechámos – esclareceu Manfredo com brandura.

A velhota colocou o chapéu, recolheu os pertences, atirando-os para dentro da bolsa e, com lentidão, dirigiu-se para o táxi, dando ao motorista o endereço da casa de repouso. O nome era apropriado, ali não se vivia, repousava-se, por isso ela escapava sempre que podia. Por vezes, limitava-se a vaguear por uma estação de comboios. Gostava de ver aquele vaivém de gente que tem um lugar para onde ir. Outras vezes, escolhia o café de Manfredo, refugiando-se do frio e do mau tempo.

 

Manfredo fechou as persianas, deu a volta à chave e saiu, tentando proteger-se da chuva que começava a cair com fúria.

Um arrepio percorreu-lhe os ombros, ao ouvir o som forte das ondas. Parecia que a água queria levar tudo consigo. Aquele mar traiçoeiro e sinistro, cujos remoinhos e correntes ceifam vidas todos os anos.

Pensou na família, ao passar em frente à fábrica. Uma estrutura grande, parecida com um celeiro, que abrigava rolos de tecido, mesas de corte, máquinas de costura enormes e gente desesperada. Gente sem perspetiva, apática, num mundo contemporâneo cego pelo sucesso económico.

Esta gente fascinava-o e confundia-o ao mesmo tempo. Era gente sincera, mas também intolerante. Viam nele o inimigo, que é necessário defrontar pelo simples facto de ter procurado outro destino.

As ruas começavam a ficar inundadas. Esperava que a senhora Valentina tivesse chegado ao lar antes daquele dilúvio.

Ao cabo de um quarto de hora, entrou em casa, escorrendo literalmente.

Despiu-se, vestiu o pijama e ligou a música. Depois, fechou os olhos e esqueceu-se de si próprio, absorvendo o universo através de cada nota musical. Imaginando-se a dirigir uma orquestra, ignorou que não passava de um mero empregado de bar. Então viveu, viveu um sonho com força de realidade. Um sonho engrandecido, do tamanho imensurável da sua criatividade.

Acendeu um Marlboro, olhando pela janela da sala. A chuva parara. Eram quase oito e meia. Passara uma hora, desde que a chuva começara a agredir a cidade, transformando as ruas em ribeiros de água agitada, que corriam em direção ao mar. Ao som da música, misturava-se o das sirenes dos bombeiros, que acorriam aos pedidos de ajuda dos menos afortunados. Sarjetas entupidas faziam as águas subir em poucos minutos, e, ano após ano, a cena repetia-se sem que daí se tirasse qualquer lição.

O sino tocava numa cadência fatigante, anunciando que algum pescador se havia perdido naquele mar feroz. Ao ouvir as ondas, Manfredo imaginou o pequeno barco a ser devorado pela água esfomeada de vida, vingando-se por a desventrarem a cada dia.

 

Também a senhora Valentina olhava o mar da janela da sala de casa de repouso, que ficava numa esquina da zona ribeirinha, uma parte da cidade onde, após o percurso paralelo de alguns quilómetros, a Alameda Santo António e a Av. Marginal se cruzavam. Era uma casa com ar condicionado, televisão a cores e horas a mais. Às vezes, deixavam-nos beber uma cerveja. Então, parecia que as horas ganhavam vida e os minutos aceleravam.

Valentina fora professora primária por mais de quarenta anos. Vivera sempre rodeada de crianças, agora trocara-as pelos velhos. Olhando em redor, rui à gargalhada até ficar com os olhos cheios de lágrimas. Deixara de conviver com a primeira infância, para conviver com a segunda.

Quando parou de rir, reparou em diversos pares de olhos fixos nela. Sem perder a compostura, serviu-se de mais chá e olhou para fora. Estava escuro como breu, mal dava para ver o mar.

Embrenhou-se nos seus pensamentos noturnos. Sentia-se com demasiada energia para estar ali, no meio de gente que se limitava a esperar a morte. Teve vontade de saltar para cima da mesa e gritar que acordassem, que reagissem à chegada da velhice, que não a deixassem vencer sem lhe dar luta. Mas não fez nada, porque uma onda de nervosismo e de embaraço a percorreu. Sentiu-se ridícula, tão ridícula que riu de si mesma.

– Chega por agora – disse a empregada, apagando a televisão que ninguém via. – Vá lá. Está na hora de dormir.

Um a um, todos se foram levantando e abandonando a sala. Só Valentina permaneceu ali, a olhar o escuro na esperança de vislumbrar um pouco de futuro.

Quita Miguel

terça-feira, 9 de setembro de 2014


ANGELINA

 
Levantou-se cedo, arranjou-se de modo elegante e desceu para o pequeno-almoço. Àquela hora eram poucos os pensionistas na sala de refeições. Uma empregada ia servindo os que demonstravam maiores dificuldades. Angelina, felizmente, mexia-se muito bem. Mais devagar do que antes, é certo, mas com bastante desenvoltura para os seus oitenta anos.
– Hoje está toda bonita – disse-lhe a empregada.
– A minha neta vem buscar-me para irmos almoçar. Vai trazer o marido para eu conhecer – informou orgulhosa.
Assim que acabou de comer, subiu ao quarto para ultimar os preparativos. Colocou um chapéu e olhou-se ao espelho. Depois riu sozinha, recordando os tempos em que ficava horas admirando a sua imagem refletida, indecisa no que vestir para sair com o Manuel. Agora, sentia a mesma inquietação. Tirou aquele chapéu e experimentou outro. Nesse momento, entrou a empregada para arrumar o quarto.
– Onde é que a dona Angelina vai toda aperaltada? Temos festa?
– A minha neta vem cá. Diga-me lá, ó Cremilde. Acha que estou bem assim?
– Claro que está, está muito elegante.
– Não sei. Talvez fosse melhor não levar chapéu. Chapéu é coisa de gente velha, não é?
– E a senhora é uma jovem, está é muito bem disfarçada – respondeu Cremilde, rindo. – Vá lá. Sente-se aí um bocadinho, enquanto eu arrumo o quarto, e fale-me um pouco da sua neta.
A neta fora estudar para Barcelona, por lá ficara e ali fizera a sua vida. Casara com um espanhol e era raro vir a Portugal, mas telefonava-lhe muitas vezes. Não lhe escrevia, porque os olhos de Angelina já não eram lá grande coisa, e não gostava que fossem os outros a ler-lhe as cartas. Uma carta é algo muito pessoal.
– Sabe, Cremilde, tenho muita pena de já não poder ler um livro, mas estas cataratas. A minha neta quis levar-me para Barcelona para me operar, mas já estou velha para essas andanças. O meu lugar agora é aqui, à espera que Nosso Senhor se lembre de me chamar. Nunca gostei de dar trabalho a ninguém e não vou começar agora, depois de velha.
– Velha, velha, mas uma velha toda jeitosa. Venha cá, que eu ajudo-a a escolher uma roupa. Vamos aqui fazer uma produção digna duma diva do cinema.
Cremilde gostava de trabalhar no lar. Dava-lhe prazer poder alegrar o resto de vida dos que escolhiam aquele lugar como derradeira morada.
Angelina colocou um vestido florido em tons de azul e um pequeno chapéu de cetim de tom celeste.
– Vá lá, uma voltinha – desafiou Cremilde, sorrindo.
A cara de Angelina resplandecia de felicidade, preparando-se para o encontro. Pegou na mala e desceu para o jardim. Faltava ainda uma hora para a neta chegar, mas preferia esperar no meio das flores, assim sentia-se menos ansiosa e parecia que o tempo passava mais depressa. Escolheu um banco virado para o portão da entrada. Poderia vê-la mal colocasse um pé ali dentro.
Na sala de refeições, as empregadas atarefavam-se a preparar tudo para o almoço. Das janelas podiam ver Angelina sentada, costas bem direitas para não amarrotar o vestido.
O almoço terminou, os velhotes dispersaram-se entre a sala de televisão, a sala de leitura e os quartos, e Angelina permanecia no banco de jardim.
Cremilde foi até lá.
– Venha para dentro, come qualquer coisa, e quando a sua neta chegar sai com ela.
– Não, não. Prefiro esperar aqui.
– Então vou-lhe buscar alguma coisa para comer. Já são duas horas.
– Não, obrigada. A minha neta deve estar a chegar. Eu espero por ela para almoçar.
Cremilde voltou para dentro destroçada. Como era possível que alguém criasse expetativas e depois não aparecesse, nem sequer telefonasse? Foi à secretaria, procurou o número de telefone da neta e ligou-lhe, disposta a dizer-lhe das boas e das bonitas, mas a chamada foi direta para a caixa postal.
As horas passavam, o sol ia descendo no horizonte e Angelina recusava-se a entrar. Se a neta dissera que vinha, ela viria.
Em breve teriam de a trazer para dentro. Começaria a refrescar e não poderia continuar ali. A solução seria dar-lhe um calmante desfeito no chá, e quando adormecesse, colocá-la no quarto.
Cremilde sentou-se ao seu lado com duas chávenas.
– Vai-me fazer companhia neste chá. E não me diga que não, que fico ofendida.
Angelina pegou na chávena, mas não bebeu. Não conseguia entender o que acontecera. A neta nunca a deixaria à espera, a não ser que algo muito grave tivesse acontecido. Sentiu medo. Uma lágrima dançou-lhe nos olhos, no momento em que o portão se abriu e a neta apareceu na sua frente.
Ao ver a avó, correu na sua direção e ajoelhando-se à sua frente, disse:
– Ó avozinha desculpa, deves estar tão preocupada, mas não havia como te avisar. O carro avariou, ficámos sem bateria no telemóvel e ninguém parava para nos ajudar. Sabes aquelas alturas em que parece que todo o universo conspira contra nós? Mas, depois de nos fazerem sofrer tanto, os anjos acabaram por ter pena de nós e colocaram no nosso caminho um polícia simpático, que nos trouxe até aqui. Foi o dia mais longo da minha vida.
– Pois o meu, minha filha, está apenas começando! – respondeu Angelina, beijando-a na testa.

Quita Miguel

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014


ADEUS MAUSOLÉU

 A minha mãe odeia-me. Com o seu olhar duro faz-me notar, de modo incessante, que devo continuar a estudar para poder ser alguém no futuro, enquanto o meu pai se embrenha na leitura exaustiva do jornal. Queria deixá-los ali, abandonados na letargia quotidiana, aborrecidos que nem um peru.

– Não percebem que somos todos uns inúteis, que a vida também é inútil!? – apetece-me gritar, mas a voz cala-se, mais uma vez, dentro de mim, como sempre se cala.

Sei reconhecer os meus erros, aprendi com o meu pai. Mas como posso evitá-los, se gosto de tudo o que é irresponsável e frágil?

A verdade é que, do mesmo modo que podemos ter um encontro feliz que decida a nossa vida, também é possível cometer asneiras para sempre irreparáveis. Escolhe-se um determinado caminho e pronto. Perco-me nestes pensamentos, quando o vento começa a bater nos vidros e, por instinto, afundo ainda mais o olhar nos livros.

De repente, não sei se por ser a minha sina ou o princípio da minha loucura, sou chamado à realidade ou ao delírio pela casa que me fala. Ou será o vento, que grita através dela? «Cobarde! Cobarde! Cobarde!» Olhando em redor, parece-me que aquele lugar não passa de janelas obstruídas, passagens veladas e paredes sujas. Observo-o de modo perverso, com olhos que, num impulso, se tornam ainda mais tristes. Tudo me parece difuso.

Um trovão ribomba enfurecido, como se o tempo me quisesse trazer à razão. E vem a chuva. Fico de pedra. No meio do temporal, não posso evitar uma recordação de quando era criança. A lembrança responsável pelo ódio que sinto por esta casa há mais de dez anos.

Naquele dia mais ou menos longínquo, o relógio marcava as dezanove horas quando as luzes se apagaram e fiquei sozinho, com o ribombar da tempestade em redor. Envolto no meu assombro, empurrava-me contra um canto, que, a despeito dos meus esforços, não me camuflava. Fora ela que me abandonara ali sozinho, dizendo que voltava logo, mas o logo demorou a chegar.

Nessa noite, dormi na varanda, apesar do frio, abraçado ao cão, já que me proibiu de dormir com ela. Odeia-me, esta velha, de cabelo branco despenteado, odeia-me. É como se a minha passagem por esta vida a incomodasse. No fim de contas, é uma desconhecida para mim, já que desde esse dia, ergui um muro em meu redor, mais espesso do que as paredes desta casa.

Olhando em volta, é como se reconhecesse o cenário da minha meninice. Pouco mudou. Refletido no espelho, eu sou agora a personificação da minha infância. A mesma impertinência disfarçada, a inflexibilidade camuflada, a postura cabisbaixa sentada à mesa. Observando-me, poder-se-á crer que jamais deixarei esta casa, nem esta vida.

No entanto, tudo não passa de ilusão, eu não sou mais uma criança de sete anos, e os livros que repousam na mesa trazem-me à realidade. Começo a folheá-los com atenção desatenta, permitindo que me deslize sob os olhos informação que deveria saber e que não me interessa. Nunca fui amante de filosofia nem de história. Que me importa o passado?

Acho que nem mesmo o presente ou o futuro me interessam. Ambicionei fama, contudo alcancei apenas uma certa reputação de ridículo, por sorte limitada a esta casa. Faço questão de ignorar tudo. Hoje, sinto-me como um desses indivíduos que não precisa dos outros. Sou um monstro, um pobre diabo sem ideia do que é o amor. Por vezes, ingénuo, ainda me pergunto se ela não gostará, pelo menos, um pouco de mim, apesar de nunca lhe ter visto qualquer indício de amor.

Levanto a face, fixo-a e no coração faz-se um silêncio estanho. Também a casa está submersa nessa ausência de rumor, agora que a chuva parou e a trovoada se afasta. Só a brisa continua a mover as folhas da videira. A tarde, cinzenta e monótona, aborrece-me. A minha respiração é lenta e firme, mas esforçada.

Vou à casa de banho, afastando-me por um momento da sala que mais parece um mausoléu. Alongo-me, de modo exaustivo e gratuito, em pensamentos sobre o meu corpulento pai que, exausto, se abandona no sofá. Regresso apático ao antro daquela sala e sinto, de modo inesperado, um medo insensato perante o futuro. Estou pálido, quase à beira do desmaio.

«Podias fugir agora», diz-me uma voz interior. «O tempo urge. Não pertences a este mundo

Algo novo acorda nos meus olhos pálidos, indiferentes. A mente gira e volta a girar, não me deixando descansar. Então, viro-me e saio, já que me parece ser a única coisa a fazer. O meu coração quase para de bater, ao aperceber-se que a viagem irá durar para sempre.

O que eles pensarão da minha súbita partida é difícil imaginar. Não perco tempo a pensar nisso.

À medida que avanço, viro-me para olhar por cima do ombro e tudo se torna diáfano. Nunca mais voltarei.

Quita Miguel

segunda-feira, 18 de agosto de 2014


À FOGUEIRA

O crepitar da lenha e o cheiro a madeira queimada invadia-lhe a sala. Luísa levantou-se e com passo pesado dirigiu-se à janela. Na praça, as pessoas principiavam a reunir-se. Daí a pouco, seria a vez do aroma a febras e chouriço assado se apoderar do perímetro, em conjunto com o rumor de quem festeja.

Suspirando, fechou a janela. Era naquela época, que se arrependia de ter comprado a casa bem no centro da vila, ali mesmo, na praça do pelourinho. As festas comemoravam a tradição de uma origem perdida nos anos, a vontade de se permanecer de pé, apesar de muitos fugirem em direção à cidade.

Para Luísa, esta era uma época triste, uma ocasião para abrir uma ferida antiga, ainda não sarada apesar dos anos já passados.

A cada celebração dizia: «Da próxima vez saio. No próximo ano, vou festejar com os outros.» Mas, mais um ano se passava, e a intenção era remetida para o seguinte.

Porque é que não conseguia enfrentar a vida com alegria? Porque evitava o convívio de pessoas felizes? Ela, que em tempos fora o espelho onde se refletia a felicidade. Quantos anos haviam já passado desde que, com um sorriso no rosto, saltara a última fogueira? Nove? Não, dez. Sim, era isso. Fora há dez anos que António sumira, deixando apenas as palavras que ela relia na folha amassada: «Perdoa-me se conseguires. Não posso mais ficar. Adeus.»

Soubera depois que fora para a Austrália e lá fizera fortuna. Ela ficara para trás, esquecida, e o que começara com juras de amor eterno, havia terminado com um frio «Adeus!» escrito num papel. Um dia, havia de conseguir libertar-se daquelas palavras, fecharia o ciclo e estaria de novo pronta para apreciar a vida. Um dia, aquela dor iria ausentar-se. Mas, por enquanto, Luísa permanecia ali, imóvel, olhando aquele pedaço de amargura.


A fogueira quebrava a escuridão em redor. As chamas ondulantes elevavam-se em direção ao céu. Sem pressa, arrastando o pé direito, Tio Zeferino foi-se aproximando. Quem era aquela pessoa que via ali sentada perto da fogueira? A silhueta recordava-lhe alguém. Mas quem? Rebuscou bem no fundo da memória e teve de recuar alguns anos até conseguir dar um nome à figura.

– Mas tu não és o António? – perguntou.

O homem limitou-se a abrir um leve sorriso. Fora reconhecido. Também era de esperar, num meio tão pequeno, as pessoas não esquecem.

– Pois, bons olhos te vejam, rapaz. Pensei que nunca mais te púnhamos a vista em cima. Nem prò funeral do teu pai, tu vieste.

Começavam as críticas. Também isso era de esperar. Ali, todo o mundo se metia na vida de todo o mundo e, pior do que isso, achava que esse era um direito adquirido. Fora essa, uma das muitas razões que o empurrara para longe, para um lugar onde ninguém quisesse saber o que fazia e porque o fazia.

Também desta vez, nada disse, limitando-se a sorrir. Não queria ser desagradável, se bem que começasse a duvidar ter feito bem, voltar ao fim de dez anos. Olhava em redor e não se enquadrava. Não pertencia àquele lugar, não se integrava.

Tio Zeferino foi puxando conversa, procurando saber o que fizera António tão longe, numa terra que nem falava a mesma língua.

– A Austrália é um mundo – acabou por dizer António, quando percebeu que Tio Zeferino não iria desistir. – Dei-me bem por lá. Aquela é uma terra que reconhece quem trabalha.

– Então e agora vieste pra ficar?

– Não sei – limitou-se a responder.

– Como é que um homem vem lá dos escafundós do mundo e não sabe ao que vem? Afinal, porque é que voltaste?

– Em busca de perdão, eu acho…

António deixou que o olhar se perdesse no bailado incessante das labaredas e não disse mais uma palavra.
 

A música entrava abrupta e autoritária no quarto de Luísa. Uma música que convidava a dançar, mas que as pernas teimavam em ignorar. Porque comprara aquela casa? Porque não escolhera um lugar isolado, onde conseguisse ficar em paz com a tristeza, onde os outros não se pudessem impor no seu mundo?

Foi de novo até à janela e olhou para a praça. Um vaivém de gente animava o local. A barraca das rifas era a mais concorrida, todos tentando a sorte. As crianças corriam animadas, procurando, a cada volta, conseguir um lugar no minúsculo carrossel. Luísa lembrou-se de quando tinha aquela idade. Nesse tempo jogavam à malha, saltavam à corda ou brincavam à linda falua. Teve vontade de ser de novo criança, de acreditar que a vida seria uma eterna diversão.

Olhou para as mãos e deu-se conta de que continua a segurar o papel. Voltou a contemplar as crianças e sentiu pena de si. Como se permitia sofrer daquela forma? Como podia continuar a viver no passado?

Por uma última vez, examinou o papel, vestiu o casaco e saiu decidida, pronta para o queimar na fogueira e assim encerrar um capítulo da sua vida. Depois, estaria pronta para a festa.

Quita Miguel

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014


EM CONSTRUÇÃO

 
Sou um templo em construção, de alicerces profundos, enraizados em princípios que me sustentam através dos pilares erguidos em busca do caminho. Sou um ser que se fabrica.

A arquitetura tem-se transformado ao longo da vida, acomodando-se a cada estádio de evolução para suportar as diversas mudanças que o crescimento comporta.

Já tive paredes de betão, dando morada a incertezas e inseguranças. Camuflei-as com a folhagem, para ocultar o meu âmago, por simples timidez.

Tive paredes de vidro, mas fosco, para preservar o interior. Eram belas, brilhantes, permitindo abraçar a vastidão do mundo. Porém, um dia estilhaçaram-se sem pré-aviso, assim, bem de repente, como aquela chuva tropical que chega e logo passa.

Então, ergui paredes de tijolo, mas senti-me sufocar por elas. Recorri ao ar condicionado, contudo, nem assim consegui respirar melhor.

Um dia, por pura iluminação, decidi destruir as barreiras e derrubei as paredes, deixando os pilares à vista, expostos a todas as críticas e censuras. Tornei-me uma morada indefinida, sem entradas, nem saídas. Um vazio que se esvaía no ar.

Depois ergui muros de terra que pouco duraram. Uma daquelas torrentes que por vezes nos arrasa, veio sem se anunciar e deixou de novo os pilares desnudados, esventrando o que de mais íntimo escondiam.

Alturas houve em que o chão tremeu. Nesse momento, os alicerces pareceram frágeis, quebradiços, de construção delicada. No entanto, logo se recompuseram suportados por uma estrutura, que escondia em si toda a força do ser.

Ao longo deste percurso, o templo foi visitado inúmeras vezes.

Houve aqueles que chegaram, se instalaram e ali permanecerem esquecidos do tempo, embalados pela suave música que animava os corredores, pelo perfume que envolvia os quartos, pela luminosidade que brilhava em cada canto.

Outras visitas foram breves, mas não menos agradáveis. Essas, poucas marcas deixaram e algumas foram mesmo esquecidas.

As que permaneceram mais tempo na memória foram as que me desestruturaram, esburacando o chão, riscando as paredes, escancarando as portas. Foram duras as fases de reconstrução, mas necessárias, porque de cada uma saí mais forte, mais consciente, mais tolerante e mais serena.

Durante algum tempo, tentei alargar o meu espaço, construi anexos, elevei andares, mas estes revelaram-se apêndices sem sentido e virei-me de novo para o centro, o ponto onde tudo se inicia, onde a energia se forma para nutrir as diversas divisões.

Hoje, as minhas paredes não passam de tapumes frágeis, mas plácidos, tranquilizados pelo maior conhecimento do ser, pela certeza de um caminho eterno, pela convicção da inexistência de fim. Têm janelas de confiança, que abrem as portadas a cada amanhecer para deixar os raios de sol brilharem na essência do templo.

Não ambiciono mais ser aquele palácio de dois andares, paredes fortes, portas de aço. Gosto de ser a simples cabana colorida, que admira o mar a acariciar a areia e se deixa afagar pela brisa fresca, que sopra a cada entardecer.

Às vezes, vem uma leve chuva que me retira o pó e me faz brilhar com nova intensidade. Então, agradeço.

Continuo em construção, mas é uma construção interior feita de pequenos detalhes, que me decoram e embelezam o ser.

Quita Miguel

sexta-feira, 25 de julho de 2014


GEOMETRIA DA VIDA


 O sol descia sobre a cidade. Alberto sentara-se junto ao rio e deixara que os olhos se perdessem no horizonte.

O mergulho do sol marcava a interrupção da luz, que ressurgiria no dia seguinte com todo o vigor, mas também com toda a leveza, assinalando uma ininterrupta viagem geométrica.

Quando o sol tocou com doçura o rio, Alberto levantou-se. A aprazível espera do entardecer estava prestes a terminar, dando lugar à noite. Uma noite quente de verão, que uma suave brisa tornava menos sufocante. Tal experiência induzia-lhe um sentimento de mistério e de vibração, que se traduzia na sensação de estar mais vivo.

Olhou em volta como se procurasse alguém. Na varanda, viu o irmão, que fumava um cigarro, de costas voltadas. Jeans e camisa preta, cabelos ao vento, brilhando sob a luz do entardecer, a mão pousada na anca num gesto jocoso e o pé apoiado na floreira vazia. Como eram diferentes. Porfírio dominava o mundo com aquele jeito alegre de ser. Ele deixava-se dominar pelo mundo com o seu jeito tímido de ser.

Deu-se conta que pouco sabia dele. Talvez, como irmão mais velho, devesse esforçar-se mais, mas sente-se sempre demasiado cansado ou demasiado receoso para manter um diálogo. Todos sabemos que o mundo é cruel, então porquê dar-lhe armas? O melhor é guardarmo-nos para nós mesmos.

Passou a mão pelos cabelos e ajeitou a camisa. Com lentidão guardou tintas e pincéis. Mais uma vez, se entretivera a admirar a natureza e abandonara a aguarela apenas começada.

No dia seguinte, voltaria a sentar-se à beira do rio e sabia já, que, mais uma vez, o seu olhar se perderia na geometria da vida.

Parou no bar, antes de entrar em casa, e recostou-se no banco para pensar durante alguns instantes. Um criado aproximou-se, estendendo-lhe a lista, que Alberto olhou com indiferença. O que queria mesmo era poder abandonar-se naquele banco. Encomendou, não por que tivesse fome, mas para afastar de si o par de olhos que se impacientava. Reparou num padre que o observava e, por uns instantes, olhou-o nos olhos, mas logo se sentiu pouco à vontade, apesar de, por norma, não subverter os princípios da igreja.

Fez uma pausa nos devaneios para saborear a tosta. Até que lhe estava a saber bem.

De repente, ouviu-se um reparo ríspido, vindo de uma mesa situada perto da parede mais distante. Não conseguiu compreender o que diziam, mas a confusão foi suficiente para silenciar com brusquidão toda a sala. Esta explosão trouxe-lhe à memória as suas duas últimas relações. Algures na trajetória da vida, a sua maneira de ver as coisas mudara. Ao recordar os últimos seis anos, estava certo de que a experiência valera a pena.

«Não nasceste para salvar o mundo, ou o teu irmão, ou seja quem for», pensou. «Nasceste para…». Não conseguiu terminar a frase.

Foi até ao jardim, ao lado do bar, e deixou-se ficar por ali, parado atrás do banco de cedro, voltado para o rio. Colocou uma mão sobre o estômago, na tentativa de desfazer o nó, mas este insistia em permanecer. Olhou para o relógio. O irmão já deveria ter saído, estava na hora de ir para casa.

Mal entrou, poisou as coisas e dirigiu-se para a varanda. Sentou-se numa das cadeiras de baloiço e observou a noite, que estendia o seu manto negro sobre a vila. Todo o lugar estava imerso em obscuridade, à exceção do bar e de uma pequena construção de madeira de carvalho onde haviam instalado o posto da polícia, e cujas persianas desconjuntadas deixavam filtrar faixas de luz.

«O que é que se passa? Porquê este nó no estômago?», perguntou-se.

Estava habituado a confrontar-me com gente adulta, aprendera a fingir e dissimular com alguma habilidade. O difícil era olhar para dentro e ter a coragem de ver a realidade sem lentes coloridas que a distorcessem.

Levantou-se para ir buscar um copo de água. Olhou para o relógio de parede, pensou melhor, preparou um café e voltou a sentar-se com um álbum de fotografias sobre os joelhos.

Naquele momento, era como se pertencesse a outro mundo. Não conseguia desviar do pensamento, os momentos que ele e Melina haviam passado juntos naquela sala, onde ela enfiava um lenço na boca, para que o cunhado não a ouvisse arfar mais ruidosamente, ou gemer.

Num gesto brusco fechou o álbum e levantou-se. Bastava de viver do passado, de reviver de modo contínuo a mesma cena. Ela partira, não era? Então que fizesse boa viagem.

Sabia o quanto precisava mudar e como era absurdo aquele medo antecipado de fazer ou não fazer alguma coisa. Mas sabia também, que sozinho não teria chegado a lado nenhum. Fora ela a incentivá-lo a pintar, quando ele não acreditava que fosse capaz e, hoje, não conseguiria viver sem o fazer.

Deu-se um prazo, assim teria todo o tempo para se organizar. Deu-se um mês. Um mês para dar um pinote no ramerrame, para rumar em direção ao que a sua alma pedia, mas que, até então, se recusara a escutar.

Vendeu tudo o que podia. Comprou o bilhete de avião e partiu, rumo àquela praia distante, onde o sol se punha sobre o mar.

Hoje é feliz. Acorda ao som do restolhar do mar, numa cabana de madeira. Aí, pinta e vende os quadros aos turistas, que querem levar uma recordação da praia paradisíaca que muitos visitam, mas onde só alguns vivem.

Quita Miguel

terça-feira, 15 de julho de 2014


CAMINHO INTERROMPIDO


– Mas que olhar triste é esse?

– Não vem ninguém. Vais ver que não vem ninguém – lamentou Vitor, olhando desconsolado a chuva que não parava de cair. Era uma chuva forte, ininterrupta, gelada, que ameaçava arruinar-lhe o dia de anos.

A avó, com calma, pegou-lhe na mão e afastou-o da janela.

– Não é por olhares com fixação a chuva, que ela vai parar de cair. Senta-te aqui. Vou contar-te uma história.

– Uma história? – O rapaz animou-se.

– Sim, uma história que se passou há muitos, muitos anos. Eu era um pouco mais velha do que tu. Foi no dia em que fiz 15 anos.

A avó já lhe captara a atenção, antes de ele se sentar no chão de pernas cruzadas, bem na sua frente, para não perder nem um pedacinho. Gostava quando ela contava histórias antigas.

– Naquele dia, coloquei o vestido mais bonito para celebrar a penda que os meus pais me deram.

– Como é que se celebra uma prenda? – perguntou Vitor, um pouco perdido.

– Quando uma prenda não é uma coisa, mas a realização do que mais se deseja.

– E o que é que tu querias?

– Conhecer a cidade. Naquele tempo as distâncias eram maiores, e era raro sair-se da aldeia. Por vários meses, os meus pais puseram de parte cada centavo que conseguiam poupar e, naquele dia, deram-me o bilhete de comboio. Eu teria de ir sozinha, porque não havia dinheiro para mais.

– E foste sozinha para a cidade? – A expressão de Vitor era um misto de admiração e incerteza.

– Fui. A minha madrinha estaria à espera na estação. Ela casara com um engenheiro, e viviam lá há três anos. O meu pai levou-me na carroça até ao comboio. As pernas tremiam-me de ansiedade, mas também de algum receio quando entrei na carruagem. Nunca antes saíra da aldeia e tinha uma viagem de três horas pela frente. O assento ao meu lado estava vazio. Coloquei aí o cesto com os legumes, as frutas acabadas de colher, o presunto, enfim, algumas oferendas para a madrinha.

– Ó avó, mas se eras tu que fazias anos…

– Pois é, mas naquele tempo era normal levar-se alguns produtos do campo para as pessoas que se visitava na cidade. Era uma maneira de agradecer a hospitalidade com que eram recebidos.

– Então e depois? – quis saber o neto.

– Depois o comboio partiu. Eu coloquei a cabeça fora da janela, até deixar de avistar o meu pai ao longe, sempre de braço no ar. Era uma sensação estranha, aquela de o deixar para trás. O comboio foi avançando, parando em algumas estações até enfrentar a serra numa subida lenta. Por vezes, parecia mesmo que queria parar. Atravessámos vales floridos. Nem dava pelo passar do tempo, tão absorvida estava pela paisagem. Até que, de repente, o comboio parou, ali no meio do nada. Não se via uma estrada, uma casa, nada.

– Então porque é que o comboio parou?

– Não sabíamos. Primeiro ficámos todos calados, esperando que recomeçasse a andar. Mas nada. Então, algumas pessoas levantaram-se, começaram a ficar inquietas, falando todas ao mesmo tempo. Comecei a assustar-me. Não percebia o que estava a acontecer, mas sabia que aquilo não era normal. Passados longos minutos apareceu o maquinista, dizendo que não podíamos avançar, porque caíra um poste de eletricidade sobre os carris, alguns quilómetros mais à frente. Também não podíamos retroceder porque a última estação há muito que ficara para trás. Teríamos de permanecer ali até que retirassem o poste e ninguém sabia quanto tempo isso ia levar.

– E ficaram lá muito tempo?

– A noite toda.

– Oh! E tu passaste os anos ali, no meio do nada?

– É verdade. Só conseguia pensar na minha madrinha, no jantar que me queria oferecer e no teatro a que iríamos em seguida. Era a primeira vez que eu ia ao teatro e, em vez disso, estava ali sentada num comboio.

– Deves ter ficado muito triste. – Vitor olhou para a janela, observando a chuva e avaliando se a sua tristeza da avó seria maior do que a sua.

– A princípio fiquei. Tão triste que um rapaz que viajava na mesma carruagem veio ter comigo para me tentar animar, pensando que eu estava com medo.

– E não estavas?

– Um pouquinho, mas não era por isso que estava triste. Contei-lhe o que se passava. O rapaz disse: «Lamento!», afastou-se e eu fiquei ali a olhar a escuridão. Depois, vi que algumas pessoas acendiam uma fogueira e estendiam ao pé uma manta grande, daquelas dos piqueniques, sabes?

Vitor confirmou com a cabeça.

– Sobre a manta cada pessoa colocava uma coisa. Eu não percebia o que era. Fiquei curiosa, peguei no cesto e fui até lá. Todas as pessoas tinham um cesto, um saco ou um cabaz e de dentro dele tiravam fruta, bolo, presunto, queijo, chouriço. Um a um, todos iam depositando alguma coisa. Eu escolhi a mais bela maçã que encontrei no cesto e coloquei-a na manta. Quando já todos haviam contribuído, juntámo-nos em redor da fogueira e o rapaz, que falara comigo no comboio, começou a tocar acordeão, acompanhado pelas vozes que entoavam a canção de parabéns. Tudo aquilo era para mim. Em poucos minutos, ele preparara a minha festa de anos, a melhor de toda a minha vida.

Vitor e a avó olharam pela janela. A chuva parara e o sol fazia força para romper as nuvens.

– Acho que vais ter a tua festa de anos.

Vitor levantou-se e agarrou-se ao pescoço da avó. Como era bom tê-la ali.

– Nunca mais viste aquele rapaz?

– Vi. É o teu avô.

Quita Miguel

segunda-feira, 7 de julho de 2014


ENTRE DOIS COMPASSOS

 Entrou no mar, quando o sol principiava a descer, dourando o areal, que se estendia até ao bosque. Sem pressa, permitiu que a água lhe fosse cobrindo o corpo, deliciando-se com o suave ondear que lhe acariciava a pele. Por algum tempo, deixou-se boiar com placidez. Gostava daqueles entardeceres de verão, dos dias que com lentidão convidam a noite a chegar. A lua refletia-se no mar, dando-lhe um brilho marmóreo, que contrastava com o alaranjado do sol, que sumia no horizonte.

Com suavidade, como que estudando cada passo, atravessou a areia até ao início da mata. Aí vestiu a túnica de linho branco e caminhou em direção à cabana, que se ocultava entre as árvores. A porta abriu-se com um leve rangido, deixando vislumbrar o contorno dos móveis envoltos em penumbra. Foi até à lareira e acendeu-a. Não porque estivesse frio, mas porque gostava do agitar das chamas e do esplendor que estas proporcionavam, dando um ar místico ao ambiente.

Ouviu o arfar que provinha do quarto ao lado. Valdo abriu um pouco a porta, só o bastante para se certificar de que tudo estava em ordem. Depois dirigiu-se à cozinha e preparou uma refeição colorida. Vestia-se sempre de branco, mas em tudo o mais, desejava que a cor se impusesse. Como um verdadeiro chefe, decorou o prato. Em seguida, foi até à sala e compôs uma mesa romântica, iluminada em exclusivo pela lareira e pelas velas que acendeu. Abriu o vinho que guardara para uma ocasião especial. Afastou-se um pouco e observou. Tudo parecia perfeito, mas sentia que faltava algo.

O ligeiro balançar das folhas junto á janela emitia um som agudo, cadenciado. Era isso. Faltava música. Teria de ser algo delicado, mas ao mesmo tempo forte, profundo, decidido, sem perder o romantismo. Algo que o levasse para além do infinito, que lhe permitisse esquecer os limites do tempo, que desse som aos seus sonhos.

A Avé Maria de Franz Shubert invadiu o ar, preenchendo cada canto da sala, embalando a atmosfera acolhedora de luz e cor.

Valdo foi até ao quarto e com delicadeza pegou em Ubaldina ao colo. Levou-a até à sala e sentou-a face à lareira, de modo que pudesse apreciar a dança incessante das chamas.

Fora aquele estranho nome a aproximá-los. Um nome de sonoridade particular que a marcava como pessoa impar, como alguém exclusivo que não poderia mais soltar. 

Com dedos ternos, afastou-lhe os cabelos da face e acariciou-lhe o rosto. Era bonita. Apesar de tudo, era bonita.

Serviu o jantar e com mão firme levou-lhe à boca a iguaria, que com amor preparara.

Ubaldina sentia-se fraca, sem forças. Era como um fardo inerte a quem custava engolir. Então, Valdo colocou-lhe a palhinha entre os lábios e ofereceu-lhe um pouco de sumo de frutas. Soube-lhe bem aquele líquido açucarado a descer pela garganta. Parecia até que lhe dava alguma vida.

Valdo sentou-se, saboreou o vinho, brindou e deliciou-se com o jantar. Deveria ter sido cozinheiro, mas a vida levara-o para outros caminhos.

Para a sobremesa fizera um doce de chocolate e amêndoa. Um creme que Ubaldina experimentou com prazer. Era bom sentir algo doce numa existência que lhe fora sempre amarga.

Valdo sentia que chegara a hora. A hora em que tudo se conjuga num único caminho, em que tudo adquire sentido, em que o presente e a eternidade se fundem.

Só naquele momento, ele conseguia sentir a essência da felicidade. Era como se a alma emitisse um eterno sorriso, que extravasasse para o mundo.

Um imenso tremor sacudiu-lhe o corpo, no instante em que o acorde da música subia de tom. Os seus lábios expressaram um leve sorriso, ao mesmo tempo que o olhar se dirigiu para o jornal jogado em cima do sofá. As pupilas dilataram-se ao ler na 1ª página “Assassino em Série Capturado”.

Sob as suas mãos, o corpo convulsionado de Ubaldina aquietou-se.

Em breve, perceberiam que estavam enganados.

Quita Miguel

quarta-feira, 25 de junho de 2014


E FAZ-SE NOITE… E FAZ-SE DIA

 
Todas as noites nasço e todos os dias morro e de novo me refaço, tão precisa como o sol que se segue à lua. Umas vezes de aparência escura e densa, outras brilhante e acolhedora, mas sempre presente. Hoje, celebrando o início do verão, nasci matizada de brilho com contornos de nuvens, que a brisa desfaz.

Sou senhora de mil nomes: noite, trevas, escuridão, sombra, negrume…

Vivo só e, como num pesadelo, condenada a vaguear pela eternidade que nem alma errante. Procuro escapar ao vazio e vigio os sonhos que preenchem o ar. Nunca há um sonho completo, perfeito, satisfatório em absoluto. Mas são apenas isso, sonhos. Então porque seriam perfeitos? Nada o é, nem a Terra, que aqui e ali se eleva em grandes colinas cónicas, algumas cobertas de cedros ou carvalhos que, no topo, adensam a floresta. O solo é escuro e rico em tons castanho-avermelhado com laivos negros, adornado de ervas daninhas. É um bom lugar, suficientemente perto do céu, suficientemente longe do homem. Ao seu redor, as nuvens flutuam de espanto e incredulidade.

Lá em baixo, o lago reflete o firmamento, rodeado de tenebrosas grutas. Por um instante, deixo o olhar percorrer, ao de leve, o velho caminho romano que se avista do alto da muralha. Fico imóvel, maravilhada. Lugar de encantamento, de feitiço, de mistério que acolho com agrado. O poder da magia é grande, quase tão grande como o da perda que sobrevoa a cidade de todos os demónios. Quase tão cativante como o meu espetáculo mudo, que atrai uns e apavora outros.

No escuro, os caminhos são traiçoeiros. As criaturas selvagens conhecem a necessidade de se esconder, de fugir, de procurar refúgio, de desaparecer na noite, eu seja, em mim. Os demónios noturnos são poderosos. Bravura, medo, calor, frio, perigo, abrigo, solidão, angústia, tudo isto sou e tudo isso, tal como a floresta que protege os seus, vos dou. E por isso, tantas vezes, me olham de soslaio, com verdadeira desconfiança.

O vento que venta através dos ramos das árvores, soprando as folhas de um lado para o outro, murmura com suavidade uma pequena canção monótona, sem princípio nem fim, louvando a minha quietude. Cai um fruto maduro, os corvos vêm e debicam-no até ao último bocado. Por uns momentos, faz-se silêncio.

Observo longas e amáveis conversas sobre a vida e a morte, lamentos profundos, hinos histéricos, como um zeloso guardião dos murmúrios noturnos. De repente, sinto-me aborrecida.

Oiço homens a falarem sobre cavalos, antecipando animados a chegada a casa, a comida, o vinho e um coração quente. Falam das colheitas e do gado, do bem-estar dos camponeses. Escuto as conversas, se bem que as vozes sejam abafadas. Observo a cavalgada, subindo a ravina, por onde corre um ribeiro.

Ocorre-me que, devido ao meu silêncio, já que nunca lhes posso responder, eles falam comigo como se falassem consigo mesmos, colocando os pensamentos em ordem.

Lá em baixo, um cão muito pequeno, velho e pardacento, olha-me com olhos tristes, remelosos, abanando a cauda gentilmente. Vive de modo selvagem há quase um ano. Inspeciona a área em volta com cuidado, farejando com calma e por ali fica, numa longa vigília até de madrugada. Fico a contemplar, ao pormenor, aquela imagem de velho que parece regozijar-se na sua decrepitude. Enterneço-me.

Uma família de ouriços-cacheiros aventura-se sob os arbustos, até perto da pedra lisa da margem da pequena corrente, onde as árvores crescem perto da água. Um pássaro solitário começa a cantar lá em cima, nos olmeiros. Mais longe, vêem-se os rouxinóis em triste cativeiro.

Já alguém se espreguiça devagar. O coro das aves aumenta.

Não tarda, ouvem-se os primeiros ruídos das casas que despertam. Na casa de banho, uma mulher põe a touca para o duche.

O dia está prestes a chegar e, resignada, empalideço de horror. Como tudo se acaba neste mundo, de novo morro, no esgotante exercício de me recolher.

Quita Miguel