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terça-feira, 10 de outubro de 2017

VIDA



Percorreu o declive até ao mar, naquele final de tarde, e sentou-se numa rocha, com as ondas a refrescar-lhe os pés. O silêncio doía-lhe, porém, sabia-lhe bem. Assim, camuflava a gritaria a que fora sujeita, algumas horas atrás e que ainda a magoava.

Julgara que encontrara o amor. Um amor completo, eterno, carinhoso, no entanto talvez se tenha equivocado. Saiu de casa e andou sem destino, enquanto pensava na razão da vida.

Algumas vezes já se perguntara: «Para quê viver?». Depois alguma coisa a distanciava deste pensamento e procurava ser feliz e, algumas vezes até o conseguia, mas desta vez nada lhe interrompia os pensamentos: a praia estava deserta.

Que vida estúpida havia levado durante os seus longos anos.

Gastara a infância, estudando inutilidades. Perdera a juventude num curso superior desinteressante, porque se deixara vencer pelo cansaço de ouvir: «Se queres ser alguma coisa na vida tens de estudar.»

Ela não queria ser ninguém na vida, só queria ser ela e ela odiava estudar.

Quando terminou o curso de direito, cujas cadeiras foram feitas à primeira, apenas porque não conseguiria ouvir tudo aquilo de novo, e após o estágio, o seu primeiro ato foi suspender a inscrição. Encontrara-se perante mais uma inutilidade, que fizera apenas por não ter coragem de ser ela mesma.

Depois vieram os empregos e daqueles que até gostava, passou para aquilo que odiava porque, mais uma vez, não seguiu a sua cabeça.


Agora, sentada diante daquela imensidão perguntava-se porque se anulara sempre. Seria por comodismo, falta de coragem ou medo? Ela apostava no medo e revivendo tudo percebia que ele vinha da infância, do receio da falta de dinheiro, que ainda hoje a mantinha num emprego que era como um vómito.

Então, para quê viver? Que coisa estúpida é esta por que temos de passar?

Naquele momento, um cão deitou-se ao seu lado. Procurou em volta, contudo a praia continuava deserta. Olhou-o e sentiu-lhe a tristeza no olhar, uma tristeza igual à dela. Acariciou-o e sentiu-lhe a gratidão quando lhe colocou o focinho nas pernas.

Naquele momento, decidiu que nunca mais se deixaria maltratar, ainda que apenas verbalmente. Da sua vida iria fazer o que entendesse, sem seguir o que o mundo pensava correto.

Pegou nas patas do cão e disse-lhe:

– Anda! Vamos permitir-nos viver.



FIM



Quita Miguel

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Aliança da Discórdia

«Foi até à janela que dava para as traseiras do hotel. Que vista deprimente, que silêncio medonho. Como sentia falta de casa. Bebeu mais um pouco, à medida que revia pela terceira vez a apresentação que deveria fazer na manhã seguinte. Analisou o tom de voz, assegurando-se de que transmitia seriedade, confiança e dinamismo: uma combinação vencedora.»
Começa assim o conto «A Aliança da Discórdia». Grátis aqui:
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Quita Miguel

sábado, 25 de junho de 2016



«– Quase no ponto – disse Francisco Campina em voz alta, sentindo a excitação amplificar dentro da sua cabeça atormentada.
A visão da serra mudara para vermelho-fogo, ao revelar uma coluna de chamas delicadas, que começava a ganhar expressão. Uma realidade sublime.»
Começa assim o conto «Embalado Pelas Chamas». Faça o download grátis aqui:
http://ow.ly/HNLA301oBvw

quinta-feira, 16 de junho de 2016




Uma vida que muda aos noventa e um anos, imposta por um destino que não conseguiu recusar. Um novo país, uma nova casa, mas sempre a mesma passividade, até que uma criança vem revolucionar-lhe os dias e reabrir-lhe o coração para o amor, ainda que passageiro.

Disponível aqui: http://ow.ly/waWI300z3IU

quarta-feira, 18 de maio de 2016

SOCIEDADE ENFERMA

Leia aqui o conto com que participo no 8º concurso da Papel D'Arroz sujeito ao tema «Oportunista»

http://ow.ly/J9dc300k53I

sábado, 16 de abril de 2016



«- Por Deus! Não sei o que faça contigo. Tudo pode mudar, só depende de ti. Não percebo porque te sacrificas dessa maneira - desabafou Eva Jesus, fixando a irmã que calada soltava mais um botão da camisa. Gostava de usar as golas abertas.»

Começa assim o conto «Vida de Costas Voltadas». Faça o download grátis em http://ow.ly/4mJybP

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A ALIANÇA DA DISCÓRDIA



Foi até à janela que dava para as traseiras do hotel. Que vista deprimente, que silêncio medonho. Como sentia falta de casa. Bebeu mais um pouco, à medida que revia pela terceira vez a apresentação que deveria fazer na manhã seguinte. Analisou o tom de voz, assegurando-se de que transmitia seriedade, confiança e dinamismo: uma combinação vencedora.
– Se ao menos eu acreditasse em metade do que digo – comentou num tom sarcástico, observando a própria fisionomia ao espelho.
Mentia de modo deliberado, como se mente no mundo dos negócios. «E se desta vez dissesse a verdade? E se deixasse queimar aquele negócio de dois milhões?»
Sorriu do seu pensamento irreal. Como se ele tivesse coragem de se jogar na figueira e de se ver atirado porta fora a caminho da fila de desemprego. Mas que seria uma boa forma de se vingar pelo facto de o terem obrigado a cancelar as férias, lá isso seria. Uma vingança desproporcional, porém saborosa. Sorriu, um sorriso triste, consciente de que nunca teria audácia para tal.
O telemóvel interrompeu a autocomiseração.
– Olá amor, estava pensando em ti – mentiu também àquela que mais amava.
Prometera à mulher que festejariam todos os aniversários de casamento num lugar paradisíaco e, logo no primeiro ano de celebração, vira-se impedido de cumprir a promessa.
A voz da mulher denotava toda a mágoa. Teria de a surpreender pelo menos com uma prenda à altura da ocasião, em especial agora que a gravidez a tornara hipersensível. No dia seguinte, no freeshop de Milão conseguiria, por certo, algo que abrandasse a fúria.
– Sim Bibiana, vou diretamente do aeroporto para o restaurante. Se me atrasar um pouco, podes ir tomando um aperitivo.
– Quer dizer que vou ter de ficar à seca? Para isso, é melhor esperar em casa. Ou, se calhar, o melhor é mesmo nem sequer ir jantar. Aliás, se quiseres ficar por aí não te acanhes, afinal é apenas o primeiro aniversário de casamento, nada de importante. E sabes muito bem que não posso beber álcool.
– Ó amor, não te estejas a aborrecer. – «Que boca grande a minha, porque é que não me calo?» – Disse aquilo só pensando no caso de poder haver muito trânsito. Vais ver que corre tudo bem e o nosso jantar será maravilhoso.
Ao desligar, invejou os amigos solteiros que podiam escolher livremente as datas a festejar. Porém, de imediato, se arrependeu de tal pensamento. Recordou como o coração vibrara quando Bibiana percorrera a nave da igreja, num vestido que realçava as curvas do corpo, mais do que seria conveniente numa cerimónia religiosa. Contudo, ninguém se atrevera ao mais leve comentário, pelo menos frontal. A personalidade da mulher sempre fora forte, ignorando, por completo, a opinião dos outros. Fora essa característica, uma das principais responsáveis pela sua paixão, bem… essa e aquele corpo escultural. Agora, não tanto.



Despertou confuso, quando a parede do quarto estremeceu. Tremor de terra? Não! Briga no quarto ao lado. Pelo barulho, o aposento deveria parecer um campo de batalha.
Que drama estaria por detrás daquele desentendimento, que o acordara sem pejo? Se ao menos discutissem em português, em inglês ou numa outra língua que ele pudesse compreender, mas as vozes alteradas verbalizavam algo semelhante a chinês.
De novo, alguém era atirado contra a parede, uma cadeira e uma mesa eram arrastadas, vozes furiosas rompiam a noite até que um som metálico pôs termo à discussão.
Por cinco minutos, o silêncio foi absoluto, seguindo-se o som de móveis a serem recolocados no lugar, a porta a abrir e a fechar.
«E se o mataram?», pensou Alberto José. «Talvez devesse telefonar para a receção. E, se depois, a polícia me quer ouvir? E se me obrigam a adiar a viagem? Então, quem morre sou eu. Talvez pudesse espreitar para ver se há movimento. E se vejo alguém a carregar um corpo? Aí é que estou feito.»
Quando, por fim, teve coragem de abrir a porta, o corredor era um perfeito deserto. Fosse quem fosse que ali tivesse estado, desaparecera.

Acordou com a sensação de quem quase não dormiu. Fez o check-out e aguardou os colegas, esperando que ninguém mencionasse as atividades pugilísticas da noite. Ninguém o fez. Ou todos, como ele, queriam esquecer o sucedido, ou sonhara. O mundo, às vezes, surpreende-nos entre o que é e o que parece ser.
Olhou em volta, na esperança de ver um chinês todo esmorrado, que ratificasse a violenta cena, no entanto todos se apresentavam de cara limpa.

Ao sentar-se ao volante do carro, rumo ao aeroporto, sentia-se orgulhoso. Fizera a apresentação com maestria invejável. Percebia isso no olhar dos colegas, tão mais experientes do que ele, mas sem o poder da palavra com que Alberto José abrilhantava qualquer exposição.
«Talvez devesse ter seguido política. Bibiana iria adorar ser primeira-dama.»
– Podem dormir, acordo-vos quando chegarmos – disse aos companheiros em tom de brincadeira, mas que estes levaram a sério, pois após poucos minutos já haviam embarcado para o mundo dos sonhos.
Os primeiros quilómetros, dos 140 que os separavam de Milão, foram percorridos com tranquilidade, numa autoestrada quase sem trânsito. Contudo, quando estavam a cerca de metade do percurso, o nevoeiro começou a apoderar-se da estrada, eliminando quase por completo a visibilidade. Alberto reduziu de modo drástico a velocidade e acendeu os faróis.
Doíam-lhe os olhos, sentia-se cansado e esperava não falhar a saída para o aeroporto. Talvez devesse programar o navegador, porém precisava de colocar toda a sua atenção na estrada.
– Hei! Emídio José acorda! – ordenou, abanando o colega que seguia ao seu lado.
– Onde é que estamos? É pá, não se vê um boi. Falta muito para chegarmos? Eu bem dizia que era melhor termos apanhado o avião em Turim.
– Pois e ter de fazer dois voos.
– Está bem, mas ao menos não estávamos… hei cuidado!
O carro, que seguia na frente, entrou em pião, embateu no raile central e voltou para a faixa da direita, imobilizando-se na berma. Eles passaram ilesos por milagre.
– O que é que aconteceu? – perguntou assustado Florindo.
– Talvez devêssemos parar, para ver o que aconteceu. – Alberto José esperava que alguém lhe dissesse para seguir, mas nenhum dos dois abriu a boca.
Estacionou na beira da autoestrada, com precaução saiu do carro e começou a caminhar em direção ao local do acidente. Emídio José imitou-o, só Florindo permaneceu sentado, as pernas ainda tremendo.
Quando se aproximaram, verificaram que o condutor de outro automóvel, que também parara, falava ao telemóvel.
– Acho que podemos ir embora. Nenhum de nós é médico e já estão a chamar o auxílio. – Sem esperar a concordância de Emídio, Alberto começou a caminhar de regresso ao carro.
O restante percurso foi feito de modo lento, acompanhado pelo avanço veloz dos minutos, encurtando de modo cruel o tempo que os separava do voo.
– Vamos perder o avião. Eu bem dizia que devíamos ter ido por Turim – insistiu Emídio.
– Cala-te lá ó ave agoirenta. Perder o avião é tudo o que não pode acontecer. – Alberto José sentiu o coração acelerar só por pensar em tal probabilidade, mas o universo esteve do seu lado e, após uma correria desenfreada pelo aeroporto, embarcaram rumo a Lisboa.
Já sentado na cochia, respirou fundo ao sentir o avião ganhar o céu e olhou com desdém para a sanduíche que lhe colocaram à frente. Comeu-a, sem prazer, mas satisfeito por, em breve, poder degustar uma bela refeição no seu restaurante favorito.
Folheou a revista de vendas a bordo e rendeu-se ao facto de só poder oferecer, à mulher dos seus sonhos, uma prenda banal. Mais tarde, teria de arranjar forma de se redimir. Guardou o perfume na mala e recostou-se, tentando relaxar, apesar da imagem do carro estatelado na orla da estrada não desaparecer da sua mente. Não podia evitar sentir-se culpado por não ter prestado socorro, e fez o que tantas vezes fazia quando se sentia ansioso: colocou a aliança na ponta dos dedos e fê-la rodar ininterruptamente. Freud teria, por certo, uma explicação para este seu comportamento, mas Alberto acreditava que era melhor ignorar o possível significado.
À medida que o coração foi sossegando, a velocidade giratória foi diminuindo até… até que a aliança lhe saltou do dedo e desapareceu. Incrédulo Alberto José olhava de modo alternado a mão e o chão como se aguardasse que a anilha dourada voltasse por sua livre vontade para o dedo anelar.
Agachado no meio do corredor, olhava para os pés dos outros passageiros, que incomodados se agitavam. Da aliança nem sinal. Num tom cordial, a hospedeira aproximou-se e estendeu-lhe uma lanterna, e Alberto percorreu, mais uma vez, a dezena de filas em torno do seu lugar, enquanto Florindo aproveitava para filmar a cena que no futuro arrancaria, sem dúvida, boas gargalhadas.
O tempo lá fora começou a agitar-se e o sinal de apertar cintos pôs termo à busca. Vencido, Alberto sentou-se e mergulhou a cara nas mãos. Estava perdido.
– Não se preocupe, quando aterrarmos e os passageiros saírem pode procurar com calma – tentou tranquilizá-lo a hospedeira.
Chuva e vento forte acolheram-nos à chegada, fazendo abanar o avião, mais do que o desejado, dando à aliança a oportunidade de se enfiar em qualquer recôndita abertura.
Emídio José e Florindo despediram-se, mal disfarçando o sorriso, e assim que o avião ficou vazio reiniciou-se a busca, agora, não só feita por Alberto José, mas também por hospedeiras e pessoal da limpeza, porém com o mesmo resultado.
– Vamos deixar uma nota na central para o caso de outras equipas a encontrarem – disse a chefe da limpeza e, vendo o ar de desalento do rapaz, acrescentou: – Lamento que tenha de partir assim, de mão vazia.
– Agradeço a sua atenção, mas não tem mais importância. A desgraça está feita. Hoje não é o meu dia.
Cabisbaixo, entrou no táxi, no momento em que o telemóvel vibrava incessante, numa violência que lhe pareceu inusual. Indicou o endereço do restaurante e atendeu, preparando-se para se limitar a ouvir.
– Eu bem sabia que não podia contar contigo. Nunca posso. Onde é que estás? Ou me dizes que estás aqui à porta ou vou-me embora. Erro meu ter vindo. Sou mesmo ingénua, continuo a acreditar no que dizes. O meu maior erro foi mesmo ter casado contigo. Não sei onde é que eu estava com a cabeça.
Aproveitando uma pequena pausa de Bibiana para ganhar fôlego, o marido arriscou:
– Estou no táxi. O problema é da chuva. Qualquer pinga entope esta cidade.
Do outro lado, não houve resposta, apenas o desligar da chamada. Alberto fez um movimento para iniciar nova ligação, talvez a mulher tivesse ficado sem rede ou, quem sabe, a bateria acabara, mas desistiu. E se Bibiana tivesse desligado de modo propositado e se preparasse para abandonar o local? Em breve saberia.
Quando saiu do táxi deixou-se ficar ali no meio do passeio, sentindo a chuva que lhe refrescava a cara. A alma, essa, há horas que estava gelada. Respirou fundo e entrou no restaurante. O empregado acolheu-o com um sorriso, recebeu a mala e o sobretudo, acrescentando, ao mesmo tempo que indicava o fundo da sala:
– A senhora aguarda-o na vossa mesa.
Alberto viu as costas tensas da mulher e aproximou-se em silêncio. Com suavidade deu-lhe um beijo no alto da cabeça e colocou-lhe o perfume à frente.
– Lamento não poder oferecer-te hoje algo mais digno de ti. Perdoa-me, foi um recurso de última hora. Nem imaginas como foi o meu dia. Depois te conto, o importante agora é o nosso jantar. Muitos parabéns, meu amor. – Os lábios dela estavam frios, quando receberam os seus.
– O senhor deseja algum aperitivo? – O empregado salvara-o do silêncio que ameaçava instalar-se.
– Acho que sim. Preciso de descontrair. Olhe, surpreenda-me, estou demasiado cansado para escolher.
De copo na mão, arriscou um brinde. Bibiana começava a mostrar um rosto mais descontraído, ainda poderia ser uma bela noite, pensou.
– Queria brindar ao nosso…
– O que é isto? – interrompeu a mulher de forma brutal, agarrando-lhe na mão esquerda com que ele, de modo inadvertido, pegara o copo. – Onde é que está a aliança? Esquecida nalgum quarto de hotel?
– Perdi-a no avião. Podes não acreditar, mas estava a girá-la, como tantas vezes faço, e a malvada saltou-me das mãos e evaporou-se.
– Pois, podes estar certo de que não acredito. Que desculpa mais esfarrapada. Só gostava de saber como é a galdéria. É italiana ou arrastaste contigo alguma portuguesa?
– Bibiana ouve!
– Tu não me digas mais nada. Como sou parva! – De modo brusco levantou-se e começou a dirigir-se para a porta, depois de forma inesperada regressou até junto da mesa, pegou no copo e, sem uma palavra, atirou-lhe o conteúdo à cara, seguindo de imediato em direção à rua.
No restaurante, ficou apenas o silêncio e um homem destroçado.

Com insistência, Bibiana tocou à porta da casa da irmã até que esta a acolhesse. Precisava de um colo amigo.
– Ó rapariga, estás toda encharcada. O que é que aconteceu? Onde é que está o Alberto?
Incapaz de pronunciar uma palavra, a futura mãe deixou-se cair num choro profundo.
– Anda cá. Senta-te aqui. Vou buscar uma toalha.
Com ternura, a irmã cuidou da grávida, a quem a extrema sensibilidade desproporcionava qualquer acontecimento, se bem que a perda de uma aliança não seja algo de somenos importância.
Entre soluços, prantos e lamentos Bibiana relatou o sucedido:
– Imagina tu que ele teve a lata de dizer que estava a brincar com a aliança e a deixou cair no avião. As brincadeiras que ele teve, sei eu quais foram.
– Talvez ele esteja falar verdade – disse a irmã, ao mesmo tempo que um longo sorriso lhe iluminava o rosto.
– Só me faltava que tu achasses graça a isto tudo. Não percebes o quanto ele me magoou?
– Tem calma. Olha aqui. – A irmã estendeu-lhe o telemóvel. O número de visualizações no facebook, de um homem de rabo para o ar e lanterna na mão, no meio do corredor de um avião, crescia a cada minuto.
Bibiana começou a achar-se a mais injusta das mulheres.
– Tenho de lhe pedir desculpa. Coitado! – Dirigiu-se para a porta, abriu-a, mas retrocedeu: – E se tudo isto não passa de uma artimanha para me persuadir da sua inocência? Capaz disso é ele. O melhor é passar cá a noite.

Quita Miguel



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

terça-feira, 6 de outubro de 2015


EMBALADO PELAS CHAMAS


Quase no ponto – disse Francisco Campina em voz alta, sentindo a excitação amplificar dentro da sua cabeça atormentada.
A visão da serra mudara para vermelho-fogo, ao revelar uma coluna de chamas delicadas, que começava a ganhar expressão. Uma realidade sublime.
Campina conhecia bem os limites do seu autocontrolo desde que, ainda criança, incendiara por acidente a capoeira e se quedara ali, vendo-a arder num misto de paixão e medo. O fogo merecia-lhe tal exaltação que chegou-se a vaticinar que seria bombeiro, mas depressa se percebeu que a sua motivação era outra, tendo ficado conhecido na rua como Chiquinho Labareda.  
«Que maravilha!», repetia sempre que se deparava com a visão ardente de uma esplêndida fogueira, que imaginava de súbito a engrandecer, marcando o seu espaço, dominando o horizonte. Existiriam muitos como ele que… hum… adoravam o fogo? Não fora difícil encontrar a resposta. Os outros, todos sem exceção, até aquela feia, a quem o sono de beleza não produzia efeitos, catalogavam-no como anormal. A solução fora partir, sem olhar para trás, quando as permissões de criança terminaram, e a maioridade foi atingida. Ficou longe por muitos anos, mas algo inexplicável o atraía agora àquelas terras sequiosas de cor. Saudade? Necessidade de reconhecimento? Vá lá alguém saber que mistérios nos empurram numa ou noutra direção.

No momento em que Chiquinho Labareda estacionou à beira da praia da Figueira, o Citroen parecia uma lata amassada. Talvez devesse ter parado para ver o que acontecera ao outro carro, mas a excitação consumia-o demais para poder pôr cobro ao caminho. Era á distância que gostava de observar o espetáculo que produzia, como se esta realçasse a sua imponência. Por isso, sentira urgência em descer a serra. Quando tudo ganhara uma dimensão incontrolada, sentiu-se satisfeito e rumou até à praia. Abriu a janela, colocou o braço de fora e ficou ali a olhar o mar, ganhando coragem para regressar ao lugar da infância. É estranho como o passado, às vezes, nos intimida mais do que um batalhão de polícias nos calcanhares.
Francisco sabia tudo acerca daquela gente amedrontada, a quem o corpo estremecia ao mais pequeno sinal de fumo. Lembrou-se da vez em que o tio, ao ver as chamas galgarem a estrada em direção à quinta, tivera uma trombose, que lhe tolhera o lado direito.
Chiquinho Labareda sorria, um sorriso de escárnio, à medida que atravessava a cidade, rumo à aldeia que se lhe deparou congelada no tempo. Saudou-os (aos que conhecia e aos que via pela primeira vez) evitando-lhes o olhar, enquanto percorria as ruas da sua infância. Queria confundir-se com o asfalto e as árvores que surgiam no horizonte, ao mesmo tempo que ansiava ser reconhecido. Sempre fora um homem de contradições.
Imobilizou-se em frente da casa, que mantinha o aspeto de quando Chiquinho Labareda a vira pela última vez, excetuando o facto de o jardim ser agora uma placa de cimento com vasos de flores mal cuidadas. Encontrou a chave no velho esconderijo e, antes de atravessar a porta, deitou mais um olhar à floresta, que ao longe mostrava a personalidade enxameada, e no meio da qual Boaventura José retomava a consciência, após a onda de choque do embate do carro que, ao espalhar-se-lhe pelo corpo, lhe quebrara os sentidos.

Como é possível que estes sacos de merda tenham carta de condução? – rugiu Boaventura, esmurrando o volante com tal força, que ouviu os dedos estalar como o crepitar de uma fogueira.
Com uma estocada, escancarou a pesada porta e saiu, cambaleando até embater contra uma árvore.
– Oh, por favor, por favor – rogou sem saber a quem, esperando que alguma força desconhecida o atendesse ao sentir-se sem ar e invadido por náuseas.
Prostrado, olhava em volta, procurando uma resposta, porém não conseguia descrever o que sentia, não por palavras. Descansando a fronte contra a árvore, lutou por ar, que logo em seguida expirou, soltando um sopro de vapor, como se fosse um dragão.
O relógio assinalava já as dez da manhã. Estivera desacordado demasiado tempo. Como podia sair dali e levar consigo tudo o que era de valor? Vasculhou a mochila, pegou no telemóvel, virou-o com insistência para norte e para sul, para este e oeste sem que o sinal de rede se dignasse dar um ar da sua graça.
Okay – disse para consigo – estás por tua conta. – Com desalento, colocou o telefone no bolso, ao mesmo tempo que o cheiro de fumo se apoderava das suas narinas.
Da mala do carro retirou as luvas, calçou-as e agachou-se para examinar a destruição. O cheiro a queimado não provinha dali, contudo reconheceu, de imediato, que não havia como tirar o carro daquele lugar. Derrotado, levantou-se e foi com assombro que viu as imagens que se lhe perfilavam na mente. Nesse momento, bem à sua frente, as árvores transformavam-se num frenesim de estrépitos, que as chamas esquartejavam como que possuídas de dentes e garras. Recuou num instintivo impulso muscular, mais do que por ordem cerebral, quando os pelos do braço direito começaram a cheirar a chamuscado, como quando a mãe, após matar e depenar a galinha, a passava sobre a chama.
Correu desalmado por mais de dois minutos, o tempo que o fôlego durou até se sentir asfixiar. Olhou para trás temendo o pior, no entanto, nada acontecia. Era como se as chamas tivessem desistido de o perseguir. Sentou-se, procurando retomar um ritmo cardíaco que permitisse oxigenar o cérebro. Inspirou e expirou profundamente uma meia dúzia de vezes, e quando o corpo começava a sossegar, mais uma vez o lumaréu correu na sua direção. Aquela mudança constante do vento até parecia uma manobra de diversão de Vulcano numa demonstração demoníaca de poder. Uma labareda enviou-lhe uma segunda lambidela à pele, agora ao braço esquerdo, ao mesmo tempo que o ar lhe faltava, o fazia perder o equilíbrio e o levava a tombar sobre o flanco direito, deixando que uma lasca lhe penetrasse a coxa.
Seria que alguém se dera conta de que ele estava no meio daquele inferno?

No quartel dos bombeiros a impaciência acumulava-se. Belarmino Antas chegara ao aquartelamento à hora habitual, faltavam então quinze minutos para as oito de uma tranquila manhã de final de verão. Agora, a quietude fora trocada pela agitação que os envolvia em preparativos, que, ao longo dos anos, se haviam repetido vezes demais.
– Vamos fazer alguma coisa ou apenas olhar uns para os outros a manhã inteira?... – disse, de um modo forçado, espicaçando quem, em frente ao mapa da serra, definia a estratégia e distribuía os meios.
O comandante dos bombeiros fitou-o imóvel, os dedos presos no cinto, o olhar desviando-se para o retrato pregado na parede atrás da secretária. Jurara a si mesmo, que naquele ano não iria permitir sacrificar qualquer elemento da sua corporação, por isso tudo era visto e revisto, analisado e reconfirmado, antes de enfrentar o inimigo incerto e traiçoeiro. Voltou a olhar o grupo e, com voz autoritária, disse:
– Barreiro! A estratégia é a seguinte. – Tirou o mapa de cima da mesa, foi estendê-lo no capô do carro de comando e em breves palavras desenhou a organização das equipas.  
Tão depressa como os outros, em poucos segundos, Antas e Barreiro estavam dentro do camião-tanque. O calor gelava-lhes as veias, ao recordarem aqueles que, no ano anterior, haviam sido enredados pelo fogo, num cenário que os mais brandos apelidavam de inferno.
Alcançados os pontos de ataque, depressa as mangueiras ganharam vida, assemelhando-se a serpentes tortuosas, que cuspiam peçonha para as galfeiras do fogo, que recuava encolhido, para mais adiante ganhar novo fôlego, atacando-os sem constrangimentos, servindo-se do vento como alimento para a sua ferocidade.
Lutavam já há mais de uma hora, quando os meios aéreos foram liberados pelo comando central, e um helicóptero começou a expelir água de uma bolsa que parecia pequena demais para uma floresta que se consumia. Eram litros que escorriam pelos troncos arfantes de calor, refrescando-os, mas apenas por breves instantes, pois logo as chamas ressurgiam fumegantes, procurando queimar o pouco que resistira à consumição.
No meio desta tortura, Boaventura José procurava proteger a pele que começava a ganhar bolhas, derramando sobre si o magro conteúdo da garrafa de água que a mãe, sempre precavida como todas as mães, lhe colocara no interior da mochila.
Com as mãos trémulas procurou um lenço, que amarrou em volta da cara, que nem cowboy em filme de far west, mas cowboy apeado que estava mais para boi assado, do que para vitorioso guerreiro.
Procurou orientar-se. Na última hora, andara a fugir das chamas que ganhavam cada vez mais velocidade e que ameaçavam circundá-lo, armadilhando-o num mar vermelho de secura e ardor. Agora, parecia que o vento lhe oferecia algum descanso, mas temia que por pouco tempo. Olhou em volta, tentando perceber de onde viria o maior perigo, porém os olhos lacrimejantes, e o fumo que se adensava, não lhe permitiam vislumbrar para além de um ou dois metros.
Caminhou por mais alguns minutos, mas a dor na perna latejava a cada passo. Olhou para trás e percebeu que deixava um pequeno rasto de sangue. Levou a mão à coxa, e o choque foi tal que o imobilizou por completo. Perdeu a noção do tempo, deixando-se ficar estático, sem coragem até para se sentar e aguardar o fim. Sabia que se o vento rodasse mais uma vez, estaria perdido. As forças haviam-se esgotado. Pensou na mãe. Veio-lhe à memória a imagem terna daquela manhã. Ela na ombreira da porta, de mão levantada num misto de tristeza e orgulho, vendo-o desaparecer na esquina da rua, que conduzia ao novo desafio. Era a estreia do aluno universitário. O primeiro na família que seria doutor, ou não. Ao fazer fé naquele cenário, ainda não seria desta vez que o estatuto educativo da família sofreria um upgrade.
Apurou o ouvido. Seriam motores, aquilo que escutava, ou era a exaustão que tomava conta dos seus sentidos? Sondou os ruídos mais um pouco. Sim, o som provinha sem dúvida de algo mecânico, mas que se afastava.
– Não. Por favor, não! – gritou, fazendo um último esforço para se mover, se aproximar do final da subida, mas era como se alguém lhe agarrasse as pernas. Pouco conseguia andar, contudo não desistiu. A mãe fizera dele um lutador, ao ensinar-lhe que as barreiras são colocadas na vida para nos fortalecer, não para nos derrubar. Aquele som, agora cada vez mais distante, era a melhor hipótese de encontrar uma saída, e fora o alento que necessitava para encarar a elevação. Parou por breves instantes para recuperar o fôlego, as mãos nos joelhos, as costas dobradas. Estava quase lá, mais um pouco e poderia ver o que se passava do outro lado da encosta. Respirou fundo e quando levantou um pé na tentativa de mais uma passada, o outro pé resvalou debaixo de uma onda que descia a vertente, fazendo-o cair de borco, enfiar a cara na lama, envolto por um mar que o engolia. O que acontecia? Como é que do meio do fogo surgia Neptuno, derrotando as poucas forças que lhe restavam e o repunha no início da escalada, ali no fundo onde ninguém parecia querer chegar.
Rodou sobre si, as lágrimas misturando-se com a água barrenta que lhe cobria a pele e lhe amaciava a roupa. Derrotado olhou o céu. Foi nessa altura que viu o helicóptero afastar-se. Suspirou ao tomar consciência de que estava livre do fogo. Fechou os olhos e, esgotado, permitiu-se adormecer.
Quando retomou a consciência estava numa cama de hospital, os olhos chorosos da mãe ganhando expressão de alívio, ali bem na sua frente.

O fogo estava controlado, mas havia sido a teimosia de Antas que salvara Boaventura, ao recusar-se a regressar ao quartel sem encontrar o condutor do carro, cujo esqueleto o fogo pusera à vista.
Durante a busca, Belarmino Antas recolhera tudo o que se lhe atravessara no caminho e que pudesse ser usado para identificação da origem do fogo, que, não duvidava, era criminosa. Alinhou os achados na mesa de refeições do quartel, agora transformada em laboratório de investigação.
– Não que isto seja assunto meu, mas, uma vez que o gajo da Judite não aparece, posso tentar ver que tipo de acelerador foi usado – propôs Antas, dando de novo expressão à impaciência.
– Não estou a ver o comandante ir nessa conversa – resmungou o motorista da viatura-tanque, que tudo o que queria era tomar um banho e esticar as pernas.
Os olhos de Belarmino apertaram-se, mas acabou por baixar a face e afastar-se de Barreiro, que lhe piscou o olho, como quem diz: «Sossega o facho. Hoje já salvaste um gajo.».
O som de passadas pesadas e determinadas, avançando pelo corredor, foi o introito para o recém-chegado inspetor que, sem cerimónias, irrompeu pela sala com olhar crítico e, não escondendo a consternação, perguntou:
– Foi só isto que recolheram?
– Gostaria de o ver…
Doutor D’Orey, o senhor já sabe as notícias? – interrompeu Barreiro, evitando que Antas cometesse outra gafe de protocolo, que acirraria ainda mais as relações com a polícia judiciária.
Não – disse o inspetor da Judiciária. – Acabei de chegar.
– Parece que o Chiquinho Labareda deu à costa.
Quem?
Em poucas palavras, o doutor D’Orey foi colocado ao corrente da situação e esclarecido sobre o perfil psicológico da personagem, de quem ninguém, ao longo dos anos, sentira falta.
– Quem lhe disse isso? Há quanto tempo é que ele está cá? Foi visto na serra?
Não era possível atribuir verdades a ninguém. Eram somente vozes, que começavam a circular e a espalhar-se no ar à velocidade do fogo. No entanto, aquela era a melhor hipótese que se vislumbrava para encontrar um culpado.
A casa de Francisco Campina foi circundada, o circo montado, mas a experiência dos envolvidos… bem, há sempre uma primeira vez. O conhecimento absorvido devia-se mais a séries americanas, do que à vivência do dia-a-dia. Avança-se? Negoceia-se? Mas negoceia-se o quê? Será que há alguma coisa a negociar? Através da janela podia ver-se o rosto incomum daquele que, já em criança, era considerado pouco desejável.
O doutor D’Orey, por muito pomposo que lhe fosse o nome, nunca se vira em tal imbróglio, mas um tipo da Judite nunca dá ponto de fraco, muito menos perante um amontoado de bombeiros e de pacóvios que se acham polícias. Ele era o homem em comando e isso agradava-lhe, afagava-lhe o ego. Sentia-se até mais alto.
Calculando, com presteza, a situação e possíveis repercussões, observou, mais uma vez, o rosto que se escondia atrás da janela, enquanto aguardava o mandato de busca emitido pelo tribunal. A imagem que viu revelou-se de tal modo assustadora que não pôde conter o desabafo:
Ele pintou a cara. Como podemos derrubar alguém que pensa que é Deus… ou o Demónio?
Todos os olhares se voltaram na direção do representante da polícia judiciária e o silêncio foi absoluto. D’Orey mantinha os olhos fixos naquela janela, onde os outros agora também cravavam o olhar e distinguiam, através dos vidros que o sol invadia, uma cara com listas pretas, desenhadas a todo o comprimento da face.
A quebrar o mutismo esteve a gargalhada nervosa que a mãe de Chiquinho Labareda soltou, ficando de imediato ali a soluçar, paralisada entre as forças da ordem e os curiosos. O inspetor da judiciária, expressando com a língua um estalido impaciente, trocou um olhar com o comandante dos bombeiros, percebendo que a coisa não se iria resolver sem uma tomada de decisão das forças da ordem. Remoeu na memória os cursos de formação, que nunca tivera oportunidade de colocar em prática, e resolveu armar-se em psicólogo.
– De que tem medo, senhora Campina? – perguntou, expressando a tranquilidade que não sentia.
Ela olhou-o, primeiro com desconfiança, depois com interesse e, por fim, com desespero, dizendo:
Deixe-me trinta segundos, sozinha com ele.
D’Orey hesitou. Se alguma coisa corresse mal poderia significar o fim da sua carreira ou pelo menos a impossibilidade da ascensão que sempre ambicionara. Na sua frente, estavam os olhos lacrimosos da mãe, que criara o monstro, e à sua volta aqueles que dariam tudo para ver o inspetor errar, meter a pata na poça, estender-se ao comprido. Porém, a audácia era uma característica sua, ninguém o podia negar, por isso decidiu arriscar. Com um leve aceno de cabeça comunicou a concordância, que a senhora Campina recebeu com alívio, atravessando a estrada. Quando abriu o pequeno portão, o filho olhava-a escondido atrás da janela à sua direita, camuflando a mente através de um olhar sem alento.
Com as pernas trémulas, a senhora Campina percorreu o espaço, que em outros tempos fora o jardim onde o filho aprendera a andar e que dava acesso à pequena casa. Aguardou a permissão de Francisco e, quando entrou, encontrou-o já sentado à mesa de jantar. Abanou a cabeça, pegou-lhe nas mãos e puxou-o para ficar de pé junto de si. Ele endireitou-se, sentindo um calafrio na espinha. Depois, ela tomou-lhe a face nas mãos, procurando-lhe os olhos. Estava diante dele, toda emocionada. Quantos anos tinham passado? Não sabia ao certo. Durante os primeiros dez, contara cada dia, somando um ao seguinte e dizendo para si «amanhã ele volta». Depois, sem razão que desse causa à mudança de atitude, perdeu a esperança e, passado algum tempo, duvidara mesmo que ainda estivesse vivo.
Muitas vezes, o imaginara vitimado pela própria loucura, devorado por um fogo a que tivesse dado vida. Agora, estava ali diante de si. Sentia-o com as suas mãos.
Fitou o crucifixo de madeira, pendurado na parede atrás da televisão. Esse símbolo, outrora imponente, já não era para ela uma fonte de temor, mas de agradecimento. O seu menino estava vivo, estava de volta. Isso só poderia ser bom. Ou não…
Foi a primeira a tomar a palavra.
Precisamos de ter uma conversa.
De que género? – perguntou Francisco, dando meia volta.
– O que achas? Tantos anos e nem uma palavra. Será que te dás conta do meu desespero pelo teu abandono? Porquê?
D’Orey e o chefe da polícia agacharam-se junto à janela, procurando escutar algo que os elucidasse sobre o desenrolar dos acontecimentos. Se houvesse perigo eminente, poderiam entrar com ou sem mandato judicial, mas as vozes eram demasiado baixas, como que contendo toda a emoção latente.
– Porquê? – repetiu a mãe.
Chiquinho Labareda desatou a rir, como se fosse a coisa mais divertida que ouvira na vida.
– E porque não? – perguntou, desafiando-a.
Os olhos dela perderam o brilho. Baixou a cabeça, deixou as mãos caírem-lhe ao lado do corpo e pesadamente sentou-se no sofá.
Muitas vezes, se questionara o que poderia ter feito para que o filho fosse como os outros, mas nunca conseguira dar resposta a essa incógnita. Era seu filho e isso bastava para que o continuasse a amar, como sempre amara, mesmo quando com crueldade largava fogo às lagartas, só pelo prazer de as ver consumirem-se em agonia.
– Porque voltaste?
– E porque não? – questionara de novo, numa indiferença que à mãe trespassava a alma.
Talvez se o pai não os tivesse abandonado, quando ele ainda mal largara as fraldas, as coisas tivessem sido diferentes. Mas de que serviam agora os «ses» da vida? Estava diante de si um olhar que a intimidava, ao mesmo tempo que a fazia desejar que o filho não tivesse regressado. Nunca imaginara poder experimentar tal sentimento. No entanto, agora que pensava nisso, recordava-se de ter sentido um certo alívio quando se convencera de que ele estava morto.
– Teria sido melhor – verbalizou, mais para consigo, do que para ser ouvida por Francisco.
– O quê?
– Que nunca tivesses voltado. Foste tu que provocaste mais esta desgraça, não é verdade?
O filho limitou-se a sorrir-lhe, com um esgar de escárnio que confirmava a suspeita, sem no entanto o fazer.
 – Há alguma coisa que possa fazer por ti? – perguntou a mãe, com o desalento de alguém que se vê derrotada pela vida.
– Se me arranjares um fósforo – respondeu, retirando do bolso direito das calças um frasco de metal, daqueles que é costume usar para ter à mão um pouco de whisky, que possa transmitir algum calor ou relaxamento em caso de imediata necessidade. Todavia, quando o desenroscou, não foi o cheiro da bebida que preencheu o ar, mas sim um odor forte e intoxicante da gasolina.
– Que vais fazer com isso?
A prostração da senhora Campina era agora substituída pelo terror, que lhe assombrava a face. Quis correr para a porta de entrada, gritar por ajuda, mas o olhar desorientado que a fixava impedira-a de se mover.
– Então não há fósforo? Não? Também não é necessário – afirmou, elevando de um modo quase impercetível os cantos da boca, ao mesmo tempo que mergulhava a mão no bolso esquerdo. Permaneceu estático por algum tempo, como que gozando a intensidade do momento. Depois, retirou sem pressa a mão, mantendo-a fechada por mais de um minuto, bem na frente da mãe, após o que os dedos se foram abrindo, um a seguir ao outro, revelando um objeto brilhante estendido na palma da mão: um isqueiro.
Com um impulso do polegar abriu a tampa e fez girar a roda que alimentou a faísca, da qual brotou a chama bruxuleante, que lhe nutriu o brilho dos olhos.
– Que tal aquecermos um pouco o ambiente? – propôs, aproximando a chama do gargalo do frasco. – O que acha se eu espalhar o líquido pelo ar? Já imaginou o clarão que se formará, num misto de cores quentes que iluminarão a sala? Não quer pôr uma música? A mãe gosta tanto de música. Que tal a marcha fúnebre? Está pronta?
Quando Chiquinho Labareda simulou o lançar da gasolina, a mão invisível que apertava a garganta da mãe sumiu como que por encanto, e a senhora Campina conseguiu verbalizar todo o seu pânico.
– Nãããooo!
O grito estridente despertou os observadores, que, no exterior, de respiração suspensa, aguardavam o momento de agir.
D’Orey, na linha da frente, fez sinal aos polícias para que arrombassem a porta de entrada, mas antes que estes se pudessem aproximar, já Antas de agulheta em punho quebrava os vidros da janela e enviava a pressão da água na direção de Chiquinho, que, com a violência do jacto, fora jogado contra a parede, ficando imobilizado pela força do líquido que mais abominava.
Algemado, foi conduzido para o carro da polícia, agora olhando a multidão nos olhos, expressando todo o seu orgulho, ao sentir-se reconhecido como o obreiro de tão belo espetáculo. Só lhe doía ter sido vencido pela água.
Para D’Orey fora um dia histórico. Na casa, nada encontraram que pudesse comprovar as suspeitas, mas bastou abrir a mala do Citroen amolgado, para que as acusações fossem fortemente sustentadas. Marcara um ponto para a escalada dentro da Judiciária que se previa íngreme, mas inevitável.
No entanto, para todos aqueles que presenciaram o cerco, o verdadeiro herói fora Antas que, agora, no balcão do Bar Central, recebia cumprimentos e brindava com os seus pários: «Pela floresta!

QUITA MIGUEL

sexta-feira, 21 de agosto de 2015




CONTRATO

Ele deu a mesma explicação, que os rumores haviam já antecipado, mas Carlota Leovegilda recusava-se a aceitá-la.
– OK. Não queres acreditar não acredites. Não tarda nada, vais saber que falo a verdade – declarou Danilo.
Quando a haviam chamado para incluir a equipa, Carlota achara-se a pessoa mais afortunada da vida. Dera o seu melhor, superara-se mesmo, e agora Danilo vinha dizer-lhe que não era pelo trabalho que ela ali estava, que a razão era outra.
– És tão ingénua. – O rapaz olhava-a com desdém.
– Muito bem, até posso ser ingénua, mas nada disto faz sentido. Que mais é que ele te disse?
Danilo limitou-se a sorrir, virar-lhe as costas e sair.
«Imbecil!», teve vontade de gritar, mas retraiu-se. Arrumou as coisas, dando o dia por terminado, mas apenas no escritório, porque na sua cabeça o dia colou-se à noite de insónia. Não era pessoa que se conformasse com uma meia verdade que ressoasse sob os panos, queria a realidade gritada ao mundo. Afinal, nada tinha a esconder, nunca tivera vocação para transgressora.
«O ofício de viver é, ao mesmo tempo, o mais simples e o mais complexo», costumava dizer-lhe a mãe, quando a pressentia desanimada. «É um eterno aprendizado. É com os erros que limamos os acertos. Não atingimos a perfeição, mas sempre podemos melhorar.»
Sentiu saudades de casa. Assim que amanheceu, telefonou à mãe, procurando encontrar nela a pessoa que a tranquilizaria, e não pôde acreditar, quando ouviu a corroboração da possível existência de um motivo oculto para a sua contratação:
– Pois pode – dissera a mãe sem qualquer hesitação.
«Danilo tem razão, Danilo tem razão», era tudo o que conseguia pensar.
Nessa manhã, entrou pela porta principal decidida a conhecer a verdade. Pareceu-lhe que cochichavam à sua passagem, mas isso pouco lhe importava. Hoje a janela seria escancarada e que ninguém a tentasse dissuadir que ir até ao fim. Bateu com determinação na porta da direção e aguardou o convite para entrar. Avançou pronta para discutir, mas o que escutou deixou-a sem argumentos.
– Precisávamos apenas que o teu pai cedesse. Contigo por perto era mais fácil. Ele sabia que a qualquer momento te poderia perder.
Queria dizer que ela correra risco de vida, por causa de um pai que não via há mais de vinte anos e de quem nada sabia?
– Tu até trabalhas bem – prosseguiu o diretor –, apercebemo-nos disso ao longo destes meses, mas já não nos és útil e temos muitos outros que podem realizar o teu trabalho. Talvez não o façam com tanto profissionalismo, mas fazem-nos com menos pruridos. Danilo! – chamou.
O lambe-botas entrou, sem se fazer esperar, e entregou-lhe um envelope, voltando a sair.
– Aqui tens o pagamento do último mês – disse o diretor. – Acrescentei um bónus, afinal, indiretamente, fizeste-nos ganhar muito dinheiro.


Carlota Leovegilda teve vontade de rasgar o cheque e atirar-lhe os pedacinhos à cara, como se vê nos filmes. Provavelmente era isso que ele esperava, mas tal atitude apenas revelaria que, para além de ingénua, era burra. Trabalhara sim e muito, merecia bem qualquer cêntimo que ali estivesse.
Só quando ganhou a rua se deu conta de que estava desempregada. Espreitou para dentro do envelope. Aquilo era uma fortuna.
Quem seria aquele pai de quem lembrava apenas o nome e de quem a mãe se recusava a falar?
Aquele que, para a salvar, entregara nas mãos de outrem algo tão valioso. Voltou a olhar para o valor do cheque. Com certeza, seria melhor não saber.

Quita Miguel