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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

NOITE DE NATAL

– Quero agradecer esta noite – disse o velho com o amor a brilhar-lhe no olhar, enquanto estendia as mãos em direção à lareira, deixando-se cativar pelo vermelho da chama.
O jovem olhou-o, sentindo-se um instrumento da mão de Deus. Cedera a um impulso inexplicável ao retirar aquele desconhecido da rua, protegendo-o do vento e da chuva, num dia em que o céu azul se escondia atrás de um manto de nuvens....
Ambos sorriram, celebrando a noite de Natal.


Quita Miguel

Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» http://ow.ly/W7oeh

Desafio Escritiva nº 3 – texto com: chuva, vento, amor, azul, vermelho e rua
SIM AO NÃO! 

Dizer não!
Hoje, nada mais fácil.
No entanto, nem sempre foi assim....
Quantas vezes, o «parece mal» aniquilou o não?
Confesso que muitas mais do que eu alguma vez quis.
Agora, sem qualquer culpa, uso a faculdade que a idade me confere.
Falo com verdade.
Desisti de tentar ser política.
Digo o que me vai na alma.
Quem não gostar que me contradiga se tiver coragem.
E quem ainda não sabe dizer não que aprenda sem demora.


Quita Miguel

Desafio RS nº 32 – a arte de dizer não

Faça aqui o download do conto «Sonho Esventrado» http://ow.ly/VL3Gc

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Resto de pó

Pouco lhe importa o que sinto. Sabe que me ressinto daquele riso sem tino com que acompanha o descascar de cada batata. Pressinto que o faz de propósito, à espera que me abata na tristeza que me deixa preso ao meu sentir. Agora tosse, à medida que ata a bata atrás das costas, olhando-me reto, talvez tentando adivinhar o que penso.  
Eu apenas penso que quereria ser rei, no entanto não passo de um resto de .

Quita Miguel

Desafio nº 101 - partindo das palavras BATATA e PRESSINTO

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não abro!

– Ó mãe! Chega lá aqui que a máquina não abre.
– Não consegues fazer nada sozinha. É sempre a mesma coisa – reclama Glória, afastando a filha e lançando-se na direção da porta da máquina de lavar roupa. – Só me faltava que esta avariasse. Mais uma despesa.
– Ouviste mãe? A máquina riu-se.
– Estás maluca?!
– Não está maluca não – responde uma voz metálica. – Estou cansada de ser usada sem consideração. Até nova ordem estou de greve e a roupa sequestrada!
 
Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 2 – greve na cozinha

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tentação

Salivando, Evandro olhou a caixa de furos. Se tivesse juízo parava.
Tarde demais. A maçaneta girou e o problema entrou. Estático deixou-se massacrar, sem poder rir. Enquanto o bispo usava do peso da palavra, Evandro permanecia hirto, como se fosse de pedra, os lábios torcidos, para disfarçar o conteúdo da mente.
Como fora palerma. Tinha a desculpa ali ao alcance da mão.
– Vim apenas buscar o livro – esclareceu, saindo com os chocolates escondidos no bolso da batina.

Quita Miguel

Desafio RS nº 31 – 14 palavras com ordem imposta

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tristeza

Era uma saudade imensa de quem partira, não para longe, mas para sempre.
Ao seu redor as pessoas passavam apressadas. Ela já não tinha pressa.
Mergulhava na noite escura com esperança de acordar com o sol a invadir-lhe o coração. Precisava do amor que não vinha, do carinho que não a abraçava, da palavra amiga que não ouvia. Buscava incessantemente uma alquimia que pusesse fim à solidão que a esmagava e foi por isso que se escreveu.

Quita Miguel

Desafio nº 100 – «e foi por isso que me escrevi»

quinta-feira, 22 de outubro de 2015


GARGALHADA FÁCIL

O meu pai, ao contrário de mim, tem, o que chamo, uma gargalhada fácil.
Durante anos, fomos frequentadores assíduos da revista. O riso fluía fácil e num dos quadros, o meu pai soltou a primeira gargalhada, depois outra… foi incapaz de parar. 
Os atores, atónitos, imobilizaram-se no palco, fixando-o com o olhar.
Ele, sentindo-se o alvo de todas as atenções, optou por uma solução extrema: enfiou o lenço na boca e a gargalhada transferiu-se para o tablado.

Quita Miguel

Desafio ESCRTV nº 1 – um momento de riso!

domingo, 11 de outubro de 2015


Vida simples

Respira fundo ao deixar para trás os altos prédios que circundam as lotas, onde o cheiro do peixe, acabado de desembarcar, coabita com a poluição do intenso tráfego. Segue devagar. Gosta de andar à solta, em latos espaços, entre almas tolas, que sofrem sem saber porquê. 

Observa a mulher que corta os talos das couves, que servirá com o que reste da pesca, enquanto o filho ensaia o salto em comprimento.
Como apreciaria uma vida assim: simples.

Quita Miguel

Desafio RS nº 30 – anagramas de A


sábado, 3 de outubro de 2015


CHIU!

Ao ver os quatro rufias de faca em punho, o patrono despertou para a realidade – havia que manter a boca fechada sobre o atropelamento que testemunhara.
Situação atroz, aquela de ter de permanecer em silêncio, menosprezando o morto, logo ele, um defensor da lei. 

Atroavam, ao longe, as sirenes, anunciando a chegada de uma catrozada de polícias, enquanto o advogado se perdia em considerações: Acidente? Latrocínio? Vingança?
Mas, depressa percebeu que só lhe restava cavar sem atrofio.

Quita Miguel

Desafio nº 99 – 8 a 10 palavras com ATRO

sábado, 26 de setembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015


ABANDONO


– Não – murmurou Zarco para si próprio. – Não voltarei aqui.  Num último olhar, viu a filha aconchegada no sofá, que não cabendo na porta passara a integrar o jardim. Os olhares cruzaram-se por breves instantes, mas nem isso o detivera. Tinha uma vida para viver.
Agora, cansado de dormir em quartos que não o acolhiam, regressara, dando-se conta das marcas que o tempo escrevera. Sentado no sofá, reconheceu-o como parte de si, ambos votados ao abandono. Estava só.


Quita Miguel

Desafio nº 98 – fotografia de P Teixeira Neves

terça-feira, 15 de setembro de 2015

É ASSIM! 

Tomo o pequeno-almoço. Só, como sempre. Quero-te de volta. Porquê, não sei.
É precisamente assim. Questionar-me, para quê? São perguntas inúteis. Sobretudo sem nexo.
Sociedade sem futuro. Nada é saudável. Alteram-se os dias. E lentamente crescemos. Querem-nos mais fortes. Por que causa? Nunca o saberemos. Temos suspeições infundadas. Calamo-nos por receio. Impõe-se ter cuidado. Tememos ser mutilados. Receamos ser deportados. E a revolta? Somos sempre menos...
Cansamo-nos de lutar. Desistimos dos porquês. Por isso, morremos. É assim!

Quita Miguel


Desafio RS nº 29 – sempre frases de 3 palavras apenas
VIVER

– Mas isto está tudo louco? Tu viste bem aquilo? É preciso ter muita lata. – Rodrigues só não arrancava os cabelos porque não os tinha....
– Esse barafustar resolve alguma coisa?
– O mundo pode acabar, que para ti tudo bem.

– Porque não experimentas enfrentar os desagrados com um sorriso, abrires-te a uma maneira diferente de fazer as coisas?
No dia em que olhares mais em volta e menos para o umbigo, vais descobrir que viver é uma aventura maravilhosa.

Quita Miguel


Desafio nº 97 – galinha de encontro ao vidro

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Apeado

A useira e vezeira vagareza do check-in irritava-o, mais do que a variz que começava a incomodá-lo. Ao chegar a sua vez, descobriu que a reserva perdera validez. Valorizou a atitude a tomar.
Poderia gritar, vazando toda a irritação, mas, não querendo quebrar o verniz, pegou na mala e partiu veloz. Sentindo-se vazio, caminhou até à várzea, sentou-se numa mesa vizinha ao ribeiro e, esquecendo Veneza e a viuvez, deliciou-se com um variaz.
Terminou o dia vivaz.

Quita Miguel

Desafio nº 96 – palavras com Z e V

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Notícias frescas

Quando Josefa entrava no café, ainda a cidade estava mergulhada na névoa, Christian estendia-lhe o jornal, enquanto preparava a bebida fumegante.
Josefa ia saboreando o líquido e comentando as notícias, ou melhor, acrescentando notícias às notícias.
Christian deixara há muito de duvidar das intriguices de Josefa, sabia que, mais dia menos dias, apareceriam espelhadas num jornal. Tem as suas vantagens ter como cliente uma bruxa.
E que bebida lhe servia Christian, perguntar-se-ão? Café, claro! Bruxa também gosta.

Quita Miguel

Desafio RS nº 28 – Josefa, intriguista e bruxa

terça-feira, 4 de agosto de 2015

ANSIADA PARTIDA

Liberato tinha razão. Baltazar sempre fora brilhante, mas bate-língua também e turibulário então... Determinado, percorria a vida com ar bulhento. Brigava e a raiva só parava de turbilhonar, quando pegava o batel e se deixava embalar pelo seu batilhar.
Hoje, continua a ser um trabalhador  barulhento,  abrilhantando  as reuniões semanais, ao mesmo tempo que oculta dos bisbilhoteiros o verdadeiro sonho: viver em Bratislava quando lhe pagarem uma batelada para o verem pelas costas.
Só então irá gargalhar!

Quita Miguel,
 
Desafio nº 95 – o máximo de palavras com BTL
ILUSÃO DE PAZ

Já não bastava o matraquear constante do meu irmão em luta com o almofariz, tentando dar conta das sementes de mostarda, adicionou-se-lhe um involuntário bater de porta, logo seguido pelo clarão do relâmpago. 
– Já vos mandei fechar a janela, que faz corrente de ar – gritou a minha mãe do quarto, onde se encerrara há mais de uma hora à luta com a gaveta que recusava abrir-se.
Só eu me encontrava numa ilusão de paz, que julgava real.


Quita Miguel

sexta-feira, 17 de julho de 2015



CELEBRAÇÃO

Sábado de manhã, Portela telefonou, a voz entaramelada, denunciando a tosga da noite anterior.
Os colegas haviam-se mostrado prestimosos e eficientes ao celebrar a vitória que lhe entufara o peito. Togas vestidas, copos com gotas transbordantes, celebrações de quem gosta de se superar, de quem sente orgulho por fazer o outro perder.
Agora, gasto, reconhecia o erro de se ter deixado guiar pela ausência de limite, enquanto tentava ganhar coragem para se levantar e alimentar os gatos.
Quita Miguel 
Desafio RS nº 27 – anagramas de G S T A O

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Caminhada

– Se calhar a minha amiga sabe mais... – Se arranjasse maneira de lhe arrancar a verdade, pensava.
– A menina é bem destemida, mas necessita de ter paciência – disse a anciã. – Siga, pedale pela vida sem pressas. Sinta as entranhas da terra e lembre-se de permitir às pernas a merecida paragem.
– Deverei deixar a minha alma ditar a caminhada? – demandei.
Devagar, a anciã meneia a cabeça e esclarece:
– Aprenda a atendê-la a cada amanhecer, e a vida far-se-á leve.

Quita Miguel

Desafio nº 93 – escrever sem O nem U

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Internado

Ele, aquele que chegara havia menos de um mês, mostrava toda a revolta ao sentir a indiferença a que era votado.
Os dias preenchiam-se de uma repetição cansativa, de momentos sem história.
– Você está doente – dissera o médico, num tom frio. – Terá de ficar internado.
Hoje, decidira dar um basta àquele modo narcotizado de viver e ocultara os medicamentos na pequena gaveta. Livre, fez voar a bandeja do almoço sem sal, para espanto dos ocupantes da enfermaria.

Quita Miguel, 55 anos, Cascais

Desafio nº 92 – associar: frio, espanto, revolta e repetição