quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Livros


Há anos, que livros são, por preferência, bens que me possuem. A cada página me realizam, desde que estejamos na zona da ficção e no tempo atual, salvo raras exceções.
Os livros mais conceituados, por alguns prémios e críticos, são aqueles que ficarão
esquecidos por mim, pois acho-os, em geral, chatos e cansativos.
Do que gostaria? Cavaquear com um livro, abrir o coração às suas páginas que me adoçam a alma e terminá-lo com uma visão iluminada.

Quita Miguel

Escritiva nº 29 – história de amor de objetos

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Que perua


Tudo aquilo parecia pesadelo, mas era realidade pura.
insuspeito de se pelar por uma caipirinha, do peito do homem, saiu mais um regurgito que tudo sujou.
– Mas, que grande perua! – sito eu, como que declamando.
O meu irmão, solícito sujeito, escondera já o bêbedo na cozinha, para proteger a sua imagem perante os convidados.
Eu, de uma forma bem mais prática, ponho-me na alheta e apenas, no dia seguinte, o visito:
– Então, que tal está o estômago?


Desafio nº 135 – 7 palavras com ITO

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Regresso a casa


Chegou demasiado tarde. O barco não esperara por si. Desesperado, reclamava em silêncio: malditos transportes que só se atrasam quando já estamos cansados de esperar. Como detesto o inverno, os dias mirrados, o frio a entranhar-se nos ossos. O desconforto da escuridão da noite, em que as sombras nos desafiam a deslindar entre verdade e imaginação. 
De tão cansado deixou-se adormecer no desconforto da estação e ao despertar viu a popa do barco a deixar o cais.

Quita Miguel

Desafio nº 134 ― «Chegou atrasado…»

domingo, 28 de janeiro de 2018

Um automático de instruções

Detesto manuais de instruções. Para mim, as coisas só são boas se forem intuitivas e dispensarem descrições.
Só de pensar que, no futuro, alguém só possa nascer acompanhado de manual de instruções, estou fora! Deem-me liberdade para agir segundo os meus princípios, sem comportamentos impostos. Poderei até aceitar um automático de instruções, bem curto e esclarecedor, porém um manual, tenham dó, como eu só eu! É que não suporto carneirada e quero liberdade para ser quem sou.

Quita Miguel

Escritiva nº 28 - manuais de instruções

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Posto de Correio

A pequena cidade andava indignada com o encerramento do posto de correio. Gritavam, esbravejavam, porém de nada servia. 

Uma dúzia de miúdos aderiu à ideia de resolver a questão, duma forma que camuflasse o autor.

Otelo convenceu o pai, presidente da câmara, a convidar o Secretário de Estado para o almoço durante a visita.

Os miúdos, que conheciam bem o terreno, prepararam uma armadilha e quando o convidado passou, caiu da estrada para um monte de silvas.



Desafio nº 133 ― cair nas silvas

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

APAIXONADO
Dora recebe uma rosa minha com amor e cora. Tão raro dar-lhe algo, que a deixei com a cabeça à roda. Foge, só parando junto à nora para recuperar o fôlego, apoiada no mais belo ramo da roça.
Sigo-a e paro no adro da igreja. Queria levá-la a Roma, mas é tão caro.
– Orai por mim! – oiço-a dizer e algo troa na minha cabeça, ordenando-me que entre e a peça em casamento.
Ela assustada, desmaia-me nos braços.
Quita Miguel
Desafio nº 132 ― AOR + 1
 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Filhós de Natal

Escondo a falta que me fazes, apesar das ideias pré-concebidas, que guiavam a minha vida e me faziam afastar de ti.
O cheiro que chega da cozinha faz-me retroceder à infância. Como gostava de ajudar a preparar a calda de açúcar para mergulhar as filhós e, em seguida, as regar quando já estavam no alguidar de barro que tinha sempre lugar marcado na sala.
Tu, bem mais gulosa do que eu, deliciavas-te com os restos no alguidar.

Quita Miguel

Escritiva nº 27 - cheiros

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Que verdade?

A magazine, diante de Hermengarda, noticiava pouca verdade, ignorando a veracidade que a rodeava.
Não tinha grande conteúdo e não fazia nenhuma referência à morte do morador de rua que, a cada manhã, arrumava a trouxa frente à porta da igreja, para continuar o caminho que o empurrava para o incógnito e cujo medo fazia retroceder cada noite ao recanto da igreja.
Recordou o homem que já não a cumprimentaria de cabeça baixa, como quem tem vergonha.


Desafio nº 131 ― Hermengarda Pirraça sem S e L

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Desesperança

Vejo o campo a ondular sob o vento, observando cada espiga seca, que o frio e a ausência da água matou.
Observo o céu azul, desejando que as nuvens o preencham, e fecho os olhos, procurando sentir os pingos de chuva na face, mas apenas o vento marca presença, gelando o ar e retirando-lhe a pouca humidade que ainda permanece.
Entro em casa com os olhos embaçados, percebendo que as minhas lágrimas assinalam o fim da esperança.


Desafio nº 130 ― de espiga a esperança

domingo, 10 de dezembro de 2017

Humanidade

Confesso que cada vez me espanto menos com a natureza humana, talvez porque, por um lado acredito pouco nas pessoas, e por outro pergunto-me se existe certo ou errado. É que muitas vezes basta uma diferente cultura para classificar de mau o que nós consideramos bom e vice-versa.
Este olhar sobre a humanidade tem-me feito julgar sempre menos e duvidar sempre mais das minhas certezas anteriores.
Hoje, apenas acredito que tudo tem um propósito que desejo compreender. 


Escritiva 26 – mistérios da natureza humana

sábado, 9 de dezembro de 2017

Reconfortando-me

Às vezes, acho que sou um bocado anta.
Nasci com uma paixão inata por pastéis de nata, que ainda hoje me encantam, apesar de ter sido desencantada num dos Natais de criança. 
Eu explico: ingénua, imaginava que existia uma natureza encantada e anjos que produziam doces que espalhavam pelo mundo. A minha irmã, com naturalidade revelou-me a cruel verdade e levou-me ao café da tia para ver os empregados encherem as formas dos adorados pastéis de nata.

Quita Miguel
 
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Serões de ontem e de hoje


Durante anos guardou segredos. Pasmada, releu o que a gaveta escondera no quarto materno. Azedume que a deixara amarga, idiotice sabia-o bem. Nem o sol punha termo àquela tremenda asfixia, que lhe apertava a garganta, lhe ocultava qualquer pequena réstia de esperança. Era como ficar com os velhos mistérios arquivados, destruindo histórias mágicas do rio, com que antigamente eram finalizados os serões. Hoje, as reuniões eram à volta da televisão e as conversas haviam-se transformado em monólogos.

Quita Miguel

Desafio nº 128 – 12 palavras com 4 no meio

domingo, 22 de outubro de 2017

Gato Capado

cara de Flávio Fernando ficou como se tivesse sido moldada em cera, ao ler a carta: a irmã, achando-se certa, ia capar o gato.
– Como é que ela corta o que não é dela? – reclamou, procurando uma corda para fazer não sabia de quê.
Da copa de uma árvore veio um miado. Afinal, o gato estava inteiro. Só a irmã para brincar com algo tão sério.
Flávio entrou em casa, encheu um copo, descontraindo o corpo.

Quita Miguel 

Escritiva nº 25 - palavras em sequência de mudança

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Estressado


estrada encheu-se com uma estridente travagem.
– Cada vez há mais desastrados que destroem a paz – disse o maestro estressado, enquanto o gato estrábico o olhava.
estreia da nova peça estava próxima. Seria uma apresentação restrita, porém o nervosismo fazia-o querer estripar quem fizesse barulho enquanto ensaiava.
Sentado ao piano repetiu, vezes sem conta, a entrada da peça, até que as estrelas cobriram o céu e um estrondo o fez parar. Era o gato, querendo jantar.

Quita Miguel

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

terça-feira, 10 de outubro de 2017

VIDA



Percorreu o declive até ao mar, naquele final de tarde, e sentou-se numa rocha, com as ondas a refrescar-lhe os pés. O silêncio doía-lhe, porém, sabia-lhe bem. Assim, camuflava a gritaria a que fora sujeita, algumas horas atrás e que ainda a magoava.

Julgara que encontrara o amor. Um amor completo, eterno, carinhoso, no entanto talvez se tenha equivocado. Saiu de casa e andou sem destino, enquanto pensava na razão da vida.

Algumas vezes já se perguntara: «Para quê viver?». Depois alguma coisa a distanciava deste pensamento e procurava ser feliz e, algumas vezes até o conseguia, mas desta vez nada lhe interrompia os pensamentos: a praia estava deserta.

Que vida estúpida havia levado durante os seus longos anos.

Gastara a infância, estudando inutilidades. Perdera a juventude num curso superior desinteressante, porque se deixara vencer pelo cansaço de ouvir: «Se queres ser alguma coisa na vida tens de estudar.»

Ela não queria ser ninguém na vida, só queria ser ela e ela odiava estudar.

Quando terminou o curso de direito, cujas cadeiras foram feitas à primeira, apenas porque não conseguiria ouvir tudo aquilo de novo, e após o estágio, o seu primeiro ato foi suspender a inscrição. Encontrara-se perante mais uma inutilidade, que fizera apenas por não ter coragem de ser ela mesma.

Depois vieram os empregos e daqueles que até gostava, passou para aquilo que odiava porque, mais uma vez, não seguiu a sua cabeça.


Agora, sentada diante daquela imensidão perguntava-se porque se anulara sempre. Seria por comodismo, falta de coragem ou medo? Ela apostava no medo e revivendo tudo percebia que ele vinha da infância, do receio da falta de dinheiro, que ainda hoje a mantinha num emprego que era como um vómito.

Então, para quê viver? Que coisa estúpida é esta por que temos de passar?

Naquele momento, um cão deitou-se ao seu lado. Procurou em volta, contudo a praia continuava deserta. Olhou-o e sentiu-lhe a tristeza no olhar, uma tristeza igual à dela. Acariciou-o e sentiu-lhe a gratidão quando lhe colocou o focinho nas pernas.

Naquele momento, decidiu que nunca mais se deixaria maltratar, ainda que apenas verbalmente. Da sua vida iria fazer o que entendesse, sem seguir o que o mundo pensava correto.

Pegou nas patas do cão e disse-lhe:

– Anda! Vamos permitir-nos viver.



FIM



Quita Miguel